Língua e literatura na era eletrônica.

 

A linguagem surgiu, cresceu e evoluiu com o homem, é viva por nós, e por nós muda e evolui, é ferramenta para um fim, não vive por si mas vive para nós. É importante pensar a língua, seus usos e sua capacidade, mas infelizmente muita mudança não é feita de forma racional, e sem que queiramos ou nos damos conta existem certos consensos no uso da língua que espalham e contaminam sem que sejam pensados ou benéficos. É inegável a influência do suporte na forma da língua e sua capacidade de comunicação, imaginem se ainda usássemos “tablets” de argila para escrever caracteres cuneiformes, grande parte da evolução social que conhecemos nunca aconteceria, como seria carregar um livro de oitocentas páginas de argila? O livro deixou o papel e agora é mais leve e prático no meio eletrônico, é inegável que haverá mudanças, mas cabe a nós verificar a verdadeira capacidade do meio digital para que a língua e literatura cresçam e não diminuam perante o passado que já tivemos.

Por falta de pensar a língua está espalhando-se uma versão capenga e mutilada que diz-se dominante por pura ignorância, ela é a versão contida nos manuais de redação e (falta de) estilo. As frases complexas compostas por subordinativos ou coordenativos, as vírgulas e definitivamente os ponto e vírgula, são recursos proscritos, e isso quando pretende-se comunicar assuntos complexos que tem diversas instâncias e vários níveis de hierarquia impossibilita a composição textual; desta maneira, o texto escrito que tem a propriedade de educar, pois pode conter assuntos em profundidade é sabotado, permitindo em sua versão mutilada expressar apenas assuntos simples ou a simplicidade leviana que mediocriza os assuntos complexos impedindo definitivamente qualquer possibilidade de real compreensão. O uso desta língua deturpada que já é norma em jornais e revistas de grande circulação tem dois efeitos: o primeiro é tornar levianos todos os assuntos que aborda uma vez que não pode aprofundar-se, antigamente liam jornais as pessoas que queriam ter um conhecimento mais profundo, hoje o conteúdo de jornais e telejornais é idêntico, com vantagens ao telejornal por ser mais rápido e atualizado; o segundo efeito diz respeito à educação do leitor, antes o jornal era uma iniciação do leitor na escrita complexa, assim ao encarar um texto de Machado de Assis o fosso não é tão grande, mas hoje com a escrita pobre dominando tudo, o leitor só encontrará alguma dificuldade nos livros, e a tarefa pode ser tão desafiadora que fará um leitor muito primário desistir. Evitar o uso da língua aleijada é uma espécie de “pièce de résistance” para não sucumbir à mediocridade geral, pode não parecer, mas muita gente bem educada e de vasta cultura, ao ler em computadores e tablets, sem perceber acabada desistindo ao meio de um texto mais exigente por cansaço, não percebem que é o meio que induz a esta imbecilidade programada; computadores e tablets não se prestam a literaturas complexas, não permitem atingir o nível de concentração necessário para decodificar estes textos, e assim, sem sequer perceber o leitor torna-se mais burro, incapaz. Talvez por isso muitos mantenham o hábito do papel, como nunca entenderam no meio eletrônico a diferença fundamental do e-reader e-ink para as outras mídias.

Existe um consenso dominante errado de que o leitor não deve ser desafiado, muito disto vem do reino da propaganda, onde um texto deve atingir o maior público possível, isto talvez o valha para quem quer vender limpadores de privada, mas é um tipo de texto que menospreza o leitor, pois considera o menor denominador comum e assim diminui o padrão de toda leitura, mas escrever é comunica-se, e dependendo do assunto, a quem se dirige o texto ou sua função, esta simplificação obrigatória é simplesmente ridícula; com isso o texto perde a função de educar o leitor, expandir seus horizontes e a capacidade de articulação lógica. As pessoas não percebem o quanto este uso de textos obrigatoriamente simplificados é degradante para a leitura, para os assuntos tratados e para o próprio poder de raciocínio. É um verdadeiro veneno que extermina todos os níveis da cultura.

Aprender e desenvolver-se exige esforço por parte do leitor, não é possível ensinar sem desafiar o leitor, esforço não é necessariamente uma coisa ruim, muito ao contrário, assim como aprender, mas nos focamos em tamanha passividade por parte de leitores que cobrar um mínimo de esforço parece heresia, há esforço prazeroso, há desafios que trazem recompensa, e o aprendizado é um deles. Desta maneira em vez de escrever para aqueles que são tão vagabundos que abandonam um texto a meio caso este lhes ofereça qualquer desafio, o melhor é focar nos objetivos mais altos, pois quem ler o texto sai ganhando e temos leitores que valem a pena. E aí vem um imbecilzinho preguiçoso nos acusar de elitistas por não sermos condescendentes e desprezarmos a capacidade cognitiva de nossos leitores, oferecendo-lhes um texto que ao desafia-los os fará crescer; cabe aqui acabarmos esta mistificação grosseira: procure por aí os textos dos fabricantes de relógios que custam o preço de carros e carros que custam o preço de casas, verá que quem evidentemente produz itens para uma elite que pode dar-se ao luxo de pagar por objetos de status não usa textos complexos, muito ao contrário, são simplórios, portanto, onde está o tal texto “elitista”? Tudo isso para mascarar que a grande cultura humana hoje está gratuita a quem dispuser-se a ler, se a dois séculos foi um item de diferenciação de classes por conta do acesso restrito, hoje não é mais, assim acusar de elitista é imbecilidade a não ser que se refira a uma elite pensante, mas pensar ainda é de graça. Muito do que pensam é errado, escrever usando todo o potencial da língua não é um fator de exclusão, muito ao contrário, é a verdadeira inclusão, mas o leitor precisa fazer o esforço de desafiar-se para ser incluído. Um texto ruim exclui sem possibilidade oposta, pois mesmo que o leitor suceda na leitura está excluído, pois nunca oferece a oportunidade de crescimento.

Até aqui falei apenas de textos predominantes em jornais e revistas que ao optarem pela simplificação da língua perdem sua capacidade de tratar de assuntos com a complexidade merecida e assim falham em informar corretamente e formar o leitor. Mas e a literatura? Aí o caso é ainda mais grave: literatura antes de mais nada é arte, diria ainda uma das mais difíceis pois não tem guias, o artista que enveredar por esta modalidade terá que criar seu próprio caminho, as regras da gramática são paupérrimas perto de toda diversidade encontrada na literatura, que às vezes a desafia frontalmente e sai ganhando esplendorosa. Literatura aprende-se lendo, é uma vivência, só se aprende fazendo, não adianta, não existe outro caminho, e justamente por este particular fabricamos monstros estranhos: pegue um garoto nos seus dezessete anos e o enfie em um curso de letras, qual sua vivência como leitor? A maioria nenhuma, e aí o encha de livros aos quais deverá fazer uma “leitura técnica” como preconizam seus mestres, o garoto que não viveu a literatura agora vai ver o texto de forma mecânica ou ideológica, resultado depois de quatro anos de faculdade: alguém que não lê mais por prazer pois não teve tempo, quatro anos é muito pouco para tantos livros, mas ganhou o título de especialista em literatura. Especialista em quê, se não teve tempo de ler? Esse garoto agora com uns vinte e um anos vai ensinar língua e literatura… Já viram o desastre, não? É o que vemos hoje, mas tem lados piores, o rapaz em vez de ensinar nas escolas escolhe a vida acadêmica e vai ser um crítico literário: o pobre menino que não teve sua vivência com os livros vai agora falar sobre livros, não do ponto de vista do leitor, mas com os estudos acadêmicos que não interessam a ninguém que não sejam seus pares; resultado: ao encontrar o livro bem escrito mas sem experimentalismos inúteis vai logo taxa-lo de: “romanesco” em tom pejorativo, e se lhe cair em mãos um texto de Machado sem a assinatura do autor dirá que não é grande coisa, mas irá elogiar vilipendiando os adjetivos quando encontrar um texto experimental e ruim que não diz nada, não quer dizer nada, nem pode ser compreendido, o ápice do nada com a coisa nenhuma, a arte do nada!

A grande estupidez no meio acadêmico ou pseudo-acadêmico, é que não conseguem mensurar a extensão de sua ignorância, criando um universo analítico que tal como a taxonomia vê o livro não como vivo, mas como peça morta a ser dissecada, a verdade é que o todo é maior que as partes; leia uma análise semiológica, ela parece com um livro da mesma maneira que a descrição taxonômica de um gato parece com o animal vivo, a academia é muito boa em guardar o passado, mas inútil na criação artística. O viés cientificista é a causa desta cegueira, primeiro e mais importante: cientificismo não é ciência, é seu uso ignorante, pois a ciência dá conta do que são as coisas. A ciência observa o que é, a arte cria o que será; ciência é observação, arte criação. Desta maneira um acadêmico ao taxar algo de romanesco repete os mesmos preconceitos dos românticos ao criticar a literatura clássica, o modernismo ficou velho e o pós-modernismo ao desvencilhar-se da estética trouxe um viés ideológico que fez da não arte uma arte, assim tudo passa a ser arte e ao mesmo tempo nada mais é, não existe arte pós-modernista, pois criou-se uma falta de conceito, cabe ao observador ou leitor ter conceitos e decidir o que é arte, pós-modernismo em essência é o sofismo moderno, o discurso vazio, o relativismo, e ninguém representa melhor isso que o meio acadêmico, pois o que era para ser o ápice do conhecimento tornou-se uma panelinha de relativistas inúteis, apodrecidos e preocupados apenas com seus próprios salários em vez de seus objetos de estudo.

A maior prova da impotência acadêmica na literatura é que a maioria dos bons escritores não vem de seus quadros, um leitor bronco mas não ignorante como o Faulkner é infinitamente mais capaz que a maioria acadêmica, é da realidade da escrita e da leitura. Escrever é a arte do ilusionismo com palavras, o leitor percebe o efeito mas não vê a mecânica, que na realidade é um conjunto de truques simples, por isso a maioria dos escritores não fala dos próprios escritos, por isso que não há manual. O escritor é um mágico que não gosta de revelar seus truques. Antes de estudar a literatura como um peixe morto é necessária vivência, deixar-se maravilhar com os truques dos vários autores, ver o texto vivo antes de partir para a dissecção, por isso criamos monstros deformados, os estudiosos nunca foram leitores, e sem ler não vêem o efeito das ilusões que formam o cerne da criação literária; o leitor vê o efeito sem conhecer o truque, o acadêmico procura o truque sem saber qual é o efeito. E assim criou-se todas essas distorções que vemos por aí, gente que louva textos ineficientes, sem efeito, trejeitosos e inúteis. Assim prospera uma literatura contemporânea estéril, inútil e enfadonha, que não cativa leitores nem cria nada de bom. Aposto mais na literatura taxada pejorativamente de entretenimento, pois há mais chances de ver real arte aí do que no lixo propagandeado pela crítica acadêmica.

Voltemos novamente ao meio, talvez por conta da influência de jornais e revistas ou pela escrita pobre de massa dos textos de propaganda, gerou-se um consenso não pensado onde o meio eletrônico só comporta textos curtos e linguagem simplória, lógico que em serviços como o twitter que limita as mensagens a grunhidos de poucos caracteres, é impossível, mas não é a realidade eletrônica, aliás, muito ao contrário, antes um livro de muitas páginas era difícil de ser impresso pois custava mais, livros comerciais eram sempre limitados a duzentas ou trezentas páginas, mais que isso só se já fosse um “bestseller” de venda garantida, caso contrário a publicação seria muito cara, no meio eletrônico não existe esta diferença, um ebook pode ter qualquer extensão que é replicado com o mesmo custo, isso é um ganho! Uma expansão da capacidade que tínhamos antes. Um texto de internet deve ser curto e de linguagem simples para que os leitores não desistam, por que focar-se em escrever um texto para quem não lê em vez de fazer ao contrário, escrever para os que lêem, tem capacidade ou não tem preguiça? Se não se está vendendo porcaria, mas se quer ter um diálogo de alto nível, não faz sentido escrever para os idiotas que não lêem. A língua em nosso cotidiano tem também a função de formar as estruturas lógicas do pensamento humano, foi analisando a conversa de crianças que Piaget percebeu que a estrutura lógica da língua induz ao pensamento complexo, se em crianças de seis anos as formulações lógicas são menos freqüentes e muitas vezes inconscientes, em garotos maiores há mais freqüência no uso lógico da língua, e sem esta vivência não há o desenvolvimento mental. Ao aleijar a língua evitamos que as pessoas treinem o intelecto e impossibilitamos o surgimento dos raciocínios complexos. O uso pobre da língua inviabiliza o pensamento complexo e mais que um estilo ou moda, induz à pobreza de pensamento, e isso reflete-se em toda cultura e vida social, é por este motivo que as visões dicotômicas e ignorantes imperam em nossa sociedade, pois qualquer complexidade além da imbecilidade binária, não tem capacidade de ser processada, todo assunto complexo que envolve mais de dois lados torna-se um problema insolúvel. Veja o uso de uma dessas simplificações ignorantes: em uma democracia todos temos direito à voz, liberdade de expressão, assim todos temos direito a uma opinião, seja ela verdade ou mentira, certa ou errada, mas tende-se a usar o “direito à opinião” como justificativa para cassar o direito de expressão do outro no caso de que discorde de nossa opinião, assim como alguém tem direito a dar uma opinião, esta opinião não impede o outro de manifestar-se contra, pois ele tem a mesma liberdade de expressão; é assim que funciona a argumentação, uma opinião recebe uma contra-opinião, um argumento recebe um contra-argumento, esta é a liberdade democrática. Quem não gosta de argumentação pois tem argumentos ruins tende a querer usar a opinião como direito de caçar a liberdade de expressão. Complicado? Não muito, mas é mais simplório dizer que “todos tem direito a uma opinião”, que é uma simplificação grosseira e que esconde a realidade do direito democrático.

Literatura é tudo menos simples, muito ao contrário, é justamente a diversidade e sua complexidade que faz sua riqueza, assim, veja como esta estrutura lingüística mutilada é derrogatória da apreciação artística da literatura que não cabe em qualquer dicotomia imbecilizante, um Hemingway não está acima de um Shakespeare, nem abaixo; é a existência de Faulkner, Cervantes, Goethe, Virginia Woolf, Defoe, Chaucer, Sterne, Conrad, Byron, Yates, Shelley, Walt Whitman, Chekov, Machado, Kafka entre muitos que faz da literatura a potência que é. E nenhum autor é uma unanimidade, veja Joyce em Ulysses e em Finnegans Wake, o primeiro foi ao limite, o segundo passou do limite, criou uma obra mutilada que perdeu o foco do leitor e empobreceu-se na língua, a soma de suas partes ficou menor que o todo. Imagine o quanto deste universo o garotinho estudante de letras já teve tempo de apreciar, quase nada, não há curso de quatro anos que substitua uma vida de leitura. Por isso a impotência acadêmica na literatura é tão gritante.

Ler, como tudo que vale a pena na vida, exige certo esforço, fazer um texto para preguiçosos que não querem ter o mínimo de esforço é escrever inutilidades, banalidades nunca farão ninguém crescer, cada grande autor criou o seu jeito de escrever, não é só questão de estilo, pois bom ou ruim todos tem um, o escritor artista criou um jeito que funciona, expande as possibilidades da linguagem para contar suas estórias, por isso cada novo autor é um novo aprendizado, um novo esforço e um novo universo expressivo, é assim que se cresce. Quem não consegue ler um bom autor confunde o ruim com o bom, não tem capacidade de diferenciar um do outro, por isso a literatura contemporânea é tão cheia de embusteiros, escritores incompetentes que mascaram sua ruindade com experimentalismo vazio.

O meio eletrônico traz novas possibilidades para a literatura, é preciso ver sua real capacidade e descartar os consensos ignorantes que mutilam a língua e os seres humanos, a literatura será o que faremos dela, é preciso conhecer a arte dos grandes homens, por prazer, criando assim a apreciação artística e o domínio da língua, seja no papel ou no e-reader e-ink mais acessível e democrático; depois de viver ler é a experiência mais próxima, vivemos uma vida, mas através da literatura vivemos milhares.

Alex

Verdades sobre leitura e literatura.

Livros acompanham homem e sociedade, se nossa herança animal está no código genético, guardado no alfabeto químico do DNA; a herança humana está no código das letras, guardada no interior dos livros. Se caminhamos, acrescentamos, e mudamos nossa sociedade, grande parte vem do acúmulo do conhecimento depositado em livros. De todas as mídias que transportam o pensamento humano, a maior parte da cultura está em livros e no papel, até a música antiga, só chegou a nosso tempo pois alguém inventou uma maneira de registra-la em papel. O livro e a escrita não só são a forma mais simples de registro do pensamento, como é ainda hoje a mais efetiva forma de transmissão da herança intelectual.

Desta maneira podemos ver o grau superlativo de importância que toma a alfabetização, é ela que nos insere da natureza como humanos, herdeiros do pensamento de gerações passadas. Mas a tarefa de ensinar o uso das letras para nossas crias está cada vez mais deteriorada, como doença genética que transmite a seu descendente morte e sofrimento físico prematuro. Além do descaso, e da intenção de manter o povo ignorante para que não se diferencie dos animais dóceis de carga, há a ideologização estúpida da educação, mistificando o que é realmente alfabetizar e através das letras educar.

Desaprendemos a ensinar, alfabetizar que era simples, agora virou tarefa impossível, tudo por conta de uma ideologia educacional ignorante, a cartilha que ajudou milhares a ler hoje é demonizada, um absurdo, um desserviço à educação, ou pior, crime. O curso de magistério que ensinava professoras a alfabetizar, foi substituído pelo curso de pedagogia, que tem status universitário mas não ensina a alfabetizar. A cartilha permitia até que professores leigos alfabetizassem, vai me dizer que isso não é incrível? Tentei de todo modo encontrar as bases do tal construtivismo que agora substitui de maneira ineficiente o que já funcionava, dizem vir de Piaget, garanto, não só não há nada do tal construtivismo em Piaget como o próprio cerne do trabalho, tanto desenvolvimentista, como o epistemológico, são contrários ao que prega esta ideologia. A criança constrói sua lógica com base na lógica causal à sua volta, e a cartilha traz para a criança a lógica fonética da nossa língua, simples assim, associando o signo fonético grafado na página com a linguagem oral já dominada. Você pode nunca ter visto ou ouvido a palavra ‘rafrileque”, mas você sabe como falar em voz alta. Esta estupidez de palavra inteira em vez da lógica fonética que é inerente da nossa língua só atrasa e atrapalha o estudante, que demora ter a fluência necessária para ler um livro. Ao contrário do chinês e japonês onde um símbolo representa uma palavra e a criança só vai ler um jornal com onze anos, com o uso da cartilha que traz a lógica fonética, a criança já pode ler com sete ou oito anos. Mas graças à maravilha da ideologia educacional moderna, as pessoas saem semi-analfabetas da universidade!

Vamos ser sinceros, ou existe uma burrice virulenta no sistema de ensino, ou há intenção explícita de deixar o povo ignorante. Não há outra hipótese. É tão óbvio, com cartilha, professoras do curso de magistério sem curso universitário, as crianças liam no máximo com oito anos, hoje saem analfabetos funcionais. Não é à toa que a maior dor de cabeça do governo militar eram os estudantes, problema resolvido, com estudantes ignorantes podemos voltar à ditadura sem oposição. E não é só isso, como é chato um mundo empesteado de ignorância, é tão mais divertido ter pessoas cultas para conversar, debater com opiniões qualificadas, apreciar nuances complexas invisíveis a olhos cegos. Há mais tecnologia, hoje o acesso à informação é muito mais simples, e com o e-reader e-ink, a informação de qualidade dos livros torna-se acessível a muita gente, mas é preciso educação. E o início de tudo, a porta de entrada, a chave para herdar humanidade, está na alfabetização.

Livros são o complemento indispensável, a outra parte, a pedra basilar da educação, se alfabetização é o meio, o livro é o fim. Não há propósito de alfabetização sem livros, a língua portuguesa é inútil sem livros, corpo sem vida; e isto já é conhecido há muito, a frase: “um aposento sem livros é como um corpo sem alma” foi dita por Cícero a mais de dois milênios, como eu sei? Livros! Se palavra é meio, o pensamento humano é o fim, livro seu guardião, depositário fiel do pensamento dos antepassados.

Leitura sem liberdade nada mais é que doutrinação, tudo está em livros, cabe a nós escolher, e através destas escolhas, escolhas de vida, é que se define o ser humano, quem não escolhe, quem anda em brete, é gado, animal, não humano, pois a este a inteligência deu a possibilidade de escolha. Pegue um livro de um assunto que gosta e mesmo mal escrito será bom, pegue um livro de um assunto que não lhe interessa, e seja forçado a ler, e mesmo escrito por um mestre será um pânico; não existem universalidades, só liberdade. E é assim na república de livros, liberdade para descobrir seus gostos, liberdade para trilhar o seu caminho, e antes de tudo escolha consciente, a única fonte de iluminação do homem. E isto está em livros, veja Kant a mais de duzentos anos atrás.

Alfabetização como chave para o mundo dos livros, e livros como a porta de saída da ignorância. Mas não pense que todo livro é igual, ler é um aprendizado constante, progressivo, deve-se entender que existe escrita mais simples, para assuntos mais simples, e existe escrita mais complexa, para assuntos mais complexos, e não importa o livro, se o assunto não é de seu interesse pessoal, não importa quão bem ou mal escrito, quão simples ou complexo, o tal livro não vai lhe interessar, e não há pecado, não existem obras obrigatórias, o mundo dos livros é vasto e os caminhos são infinitos, para todas as pessoas diversas que caminham sobre a terra e que ainda irão caminhar.

Assim, qualquer literatura forçada é derrogatória ao prazer da leitura, ninguém pode obrigar um livro, mas podemos seduzir. Literatura forçada é pior que casamento arranjado, mas sedução, esta sim é garantia de união.

Pessoas alfabetizadas precisam treinar ler, desenvolver suas habilidades, e isto só acontece lendo, é uma jornada sem fim, quem abandona o caminho, deixa de lado a própria vida como humano, perde sua herança. E assim sem livros acessíveis, sem liberdade de escolha, não há leitura, muito menos literatura, nem humanidade. É preciso que as pessoas tenham acesso aos livros para que treinem a leitura, desde a idade mais nova; se não lerem, não praticam, não aprendem e permanecem semi-analfabetas; sem livros círculo vicioso, com livros virtuoso, e como para desfrutar da literatura é necessária liberdade, é preciso acesso a muitos livros para achar o que se deseja ler. A escassez monetária é limitante, era mais nos livros de papel, menor nos eletrônicos que podem ser replicados sem custo, lógico que o imposto é um empecilho, mas é a prova cabal da vergonha que mostra membros deste governo contra a educação. Embrulha-me o estômago só de pensar em como este governo do PT é mesquinho, mantendo os brasileiros ignorantes, em curral para animal, curral eleitoral, onde a única porta de saída, educação, está bloqueada!

A luta do iluminismo ainda não terminou, ou nem começou, e o caminho do esclarecimento está nos livros, lidos, experimentados, pensados com a própria cabeça e não engolidos e vomitados. É impressionante como encontraremos a mais pura ignorância disfarçada das mais variadas e nefastas ideologias, e mais assustador é ver como muitos ditos intelectuais são em realidade ignorantes funcionais que deixaram de pensar e raciocinar com a própria cabeça para recitar dogmas que não se deram o trabalho de elaborar com o próprio cérebro.

Escrever é meio, o que se escreve é fim, o assunto do qual queremos falar, a história que desejamos contar. Assim encontramos alguns casos: quem sabe escrever e tem algo a dizer, quem não sabe escrever e não tem nada a dizer, quem sabe escrever e não tem nada a dizer e quem não sabe escrever mas tem algo a dizer. E com um pouco mais de variação todos os livros caem nestas categorias. Em teoria o melhor livro obviamente é de quem sabe escrever e tem algo a dizer, mas não é o que se pensa hoje em dia, há uma virulenta falta de objetividade nos critérios para avaliar literatura, um pouco culpa de uma seqüência histórica ruim, outra parte da falta de senso que hoje persiste nesta seqüência ruim.

A grosso modo alguns dos chamados modernistas ainda olhavam para o passado, para a história, mas outra parte decidiu romper a linha e esquecer o passado, e foi tudo que sobrou no pós-modernismo, fim da arte, fim da vida. Uma maneira de libertar a arte foi ater-se exclusivamente à forma, e assim em nosso tempo a arte está livre, totalmente livre, do passado, da vida, da própria arte. E os pseudo-intelectuais andam por aí a propagar esta ideologia de morte, atendo-se à forma, à forma já estereotipada no passado modernista, e esquecendo que livros devem ter conteúdo, o fim para o qual se escrevia.

É preciso ter claro o caminho historicista que levou ao abismo, à morte da arte. A história é velha, o historicismo é novo; historiadores tem milhares de anos, historicismo poucas centenas. É preciso notar o quanto de ideologia e inutilidade vem embutido no historicismo, e quando uma ferramenta, um meio, por ignorância vira fim. Grande parte da culpa está na visão hegeliana que lambuzou o maxismo, e o subseqüente marxismo empesteou quase toda dita “ciência” social. O relativismo histórico hegeliano, infundiu-se na idéia boba da inevitabilidade do desfecho das doutrinas marxistas, e assim levou a esta cisma estúpida que emporcalha o pensamento moderno. Não que o pensamento de Hegel e Marx seja inútil, são importantes como todos dogmas passados, e assim como Aritóteles usado pela igreja de forma dogmática foi um mal, o uso dogmático do hegelianismo camuflado em Marx, deu origem a este historicismo que substitui a história, a ferramenta como fim e não como meio.

O abismo desta linha historicista foi bem desfrutado por Gertrude Stein, mas ela, ao contrário de muitos modernistas que esqueceram a história, conhecia o seu passado, experimentou até chegar ao abismo, a morte da escrita no momento que aboliu o tempo, a relação causal da escrita, nada sobrou, ser estéril que não logra deixar descendentes de tão mutilado, fim de uma linhagem. O incrível é como hoje em dia ainda insistem que todos os caminhos da literatura devem levar ao abismo, a intensidade da vida alardeada por Baudelaire, é mais desfrutada se com a consciência preconizada por Kant, não há vida intensa sem ser consciente para perceber, entender e desfrutar dos sabores e gostos superlativos.

Literatura como arte, como fim último da escrita e leitura precisa desvencilhar-se de seu passado niilista, entender de onde vem seus genes, e saber que sem eles nada há. O ineditismo narrativo tem cobrado preço alto da literatura, e vimos o fim no trabalho de Miss Stein. Construir máquinas narrativas inéditas acaba virando um clichê que repele o conteúdo, prioriza a forma, e de certa maneira perde o objetivo da escrita, como a comida que levou muito sal, passa do ponto. Podemos ver bem este dilema na obra de Joyce que culmina com Ulysses e declina abruptamente em Finnegans Wake, que perde o apelo ao leitor normal e só cativa a quem estuda literatura pura ou aprecia apenas arte narrativa. É preciso entender que escrever ainda é um meio de comunicação e quando deixa de comunicar, perdeu sua função, há que existir um equilíbrio, um balanço, e é neste equilíbrio que encontra-se a arte última, ou apenas arte. Qualquer artífice escreve, e se dotado de grande habilidade, produz arte. A exclusiva prioridade da forma pura já mostrou sua infertilidade, cabe a seus ideólogos perceberem que trilham o caminho de morte e mudar a rota.

Às vezes não percebemos como alfabetização, educação, leitura, literatura e arte estão completamente intrincados, compartimentalizamos o conhecimento em vasos estanques e impermeáveis que fermentaram seu próprio miasma, longe da exuberância da vida que permeia toda a obra humana, o diagnóstico último da patologia vem quando somos presenteados com ferramentas de imensa capacidade e ficamos impotentes, é assim com a internet e o e-reader, se um dia a prensa de Gutenberg nos permitiu sair de uma escuridão de mil anos, precisamos novamente achar a luz do iluminismo, e não deixar-se de forma passiva cair novamente na escuridão da ignorância. As ferramentas estão disponíveis, só nos resta usar, criar, ousar, desafiar, e só assim teremos a intensidade da vida almejada pro Baudelaire, sem mentiras, sem porres homéricos, mas plena. Se há algo que sabemos é que esta vida não veio com manual de instruções, e é nossa obrigação e prazer usa-la da melhor forma possível, afinal, quando acabar-se, aí sim nada teremos. Vivemos pois a vida merece, não desperdicemos o legado, e aproveitemos da sabedoria e cultura de nossos antepassados para viver mais, com maior intensidade, plenitude e consciência, e é nos livros que se encontram estes legados, nos permite viver e deixar a outros nossa contribuição, para que do que tivemos, eles tenham mais, por isso o passado é importante, a história e sua compreensão, o fim da história é o fim da vida.

Leia, aprenda, desfrute, divirta-se e viva.

Alex

Dica de Escrita #6: Clichê Literário

Com a frase: “A marquesa saiu às cinco horas” Cortázar inicia seu livro “Os Prêmios”, a passagem ficou cunhada na história da literatura por um comentário de Valéry, que disse ser incapaz de escrever uma frase tão comum como esta. Dos começos vulgares de romance, o cunhado por Valéry virou paradigma, é o mais vulgar, mais estigmatizado e mal interpretado. Alguns acharam que o ineditismo é o valor máximo da criação literária, outros viram o absurdo da afirmação, se a marquesa sai às cinco horas, ela saiu às cinco horas, se José sai às sete horas para trabalhar, ele irá sair às sete horas toda semana de segunda a sábado, é a sua rotina, é parte da vida.

Esta obsessão com o novo foi marca dos críticos do romance, e de certa maneira acéfala passou incólume até a literatura pós-moderna; um preconceito, um chavão que é engolido e repetido sem pensamento, sem elaboração por parte do escritor. Os modernistas jogaram as últimas pás de terra no enterro da retórica, que hoje virou sinônimo de afetação vazia, uma vez que definia regras para afirmar o que era ou não um bom texto, as mesmas regras dos “manuais de redação e estilo”. Qualquer manual que defina um estilo, assim como qualquer escritor que copie o estilo de outro, é por definição falta de estilo. Muitas destas regras são seguidas, sem que o escritor entenda ou elabore o motivo de sua existência, desta maneira muitos autores não entendem o efeito da repetição de uma mesma palavra, pois a regra diz para evitar tais repetições; uma palavra dobrada, independente do contexto, enfatiza tal palavra, criando uma significação mais forte, mais enfática, quando acidental, acentua pontos indesejáveis como a repetição acima; mas ao outro lado a repetição é inestimável quando o autor quer enfatizar a palavra ou faze-la ecoar no texto incorporando os significados ou predicados a ela atribuídos. O uso da regra sem conhecer seus fundamentos deixa o escritor manco, privado de um recurso extremamente poderoso. Existem mais destas regras, que se não pensadas e entendidas, apenas seguidas, privam o escritor da elaboração intelectual necessária à formação de um estilo.

Em suas micro teses sobre o conto Piglia toma como base uma frase escrita por Chekov em um livro de apontamentos: “Um homem, em Montecarlo, vai ao Cassino, ganha um milhão, volta para casa e se suicida”, postula que a forma clássica do conto encontra-se nesta chamada, pois encerra duas estórias: ir ao cassino e ganhar (a estória evidente) e o suicídio (a estória secreta). Se Chekov tivesse escrito: “Uma homem, em Montecarlo, vai ao cassino, ganha um milhão, volta para casa e comemora”, aqui não teríamos matéria de conto, pois o corte, a tensão inesperada do final não existiria. Pode até ser interessante, mas esta necessidade do tal corte, acaba sendo um clichê literário: para ser considerado literário um texto deve ter estas incongruências, a ponto desta incoerência tornar-se central no texto, deixando de lado toda outra elaboração intelectual por parte do autor.

A incoerência é um recurso simples para um autor passar-se por literato, o chavão é execrado em toda literatura pelos eruditos, falham em perceber que a aberração dos textos é chavão mais comum do que a escrita estereotipada dos escritos paternalistas de auto-ajuda; inferior até à literatura de puro entretenimento, que teve o trabalho de elaborar uma coerência narrativa, por mais pobre que seja o linguajar do escritor.

Há uma confusão entre arte e literatura, impingindo à segunda estereótipos da primeira. Arte é uma palavrinha difícil, cheia de misticismos inúteis, e este pensamento supersticioso acaba impregnando a literatura. Até hoje a melhor definição que encontrei para arte é: significar alta habilidade artesã, ou um ideal estético elevado, também alcançado na artesania, e esta é a palavra que melhor define a escrita, manufaturada, mas nem tudo que é artesanal é bem feito, é preciso habilidade; e mais do que isto, é necessário pensar o uso das ferramentas para montar a sua própria “máquina narrativa”, será a invenção do autor, vai representar seu ego, não voltado a si, mas à sua devoção pelo trabalho.

Arte como artesanato na busca de um ideal estético elevado, pode ser entendida na habilidade do autor de pensar seu ofício, juntar palavras de forma consciente. Dentro de sua máquina narrativa existem diversas peças, se algumas funcionam bem para o efeito final, não é necessário trocar, assim, há algo de ordinário, mas pensado. O texto incoerente como “mais artístico” é apenas um clichê menos artístico, uma opção não pensada para aparentar arte, sem a complicada elaboração necessária ao pensamento profundo, ou a busca estética elevada.

Cada época tem uma moda, a escrita banal condenada por Valéry nas novelas, é hoje a narrativa incoerente, aberta, sem sentido ou aleatória, a marquesa agora sai e suicida-se.

O autor assim como artista é caprichoso, usa a linguagem de forma única e particular e para isto deve provar o trabalho dos vários escritores. Só se aprende literatura lendo, apreciando os diversos recursos criados pelos múltiplos autores, a sua escrita é a elaboração particular de tudo que leu, seja a imitar ou contestar, mas conhecer os predecessores é fundamental, experimentar a escrita como se experimenta uma iguaria culinária, é um contato pessoal que não pode ser substituído, só lendo as obras é que se tem este contato. Não adianta ouvir falar de um livro ou um autor, deve-se experimentar com os próprios sentidos, e avaliar com a própria consciência, é este contato íntimo que expande a cultura literária, necessária ao autor na hora de colocar “mãos à obra” e artesanalmente elaborar os próprios textos.

O clichê vem de uma cópia sem elaboração de qualquer elemento textual, tenta parecer o que não foi incubado na escrita. Um bom jeito de evitar clichês é aprender a identificá-los nos livros que lê. Escrever é unir forma e função, os mestres conseguiram reunir estes elementos para formar um todo coeso, sempre que ver um elemento que não se encaixa, aparece forçado no meio de um texto, e principalmente: está na moda, soe o alarme, estará diante de um clichê.

Alex

Ficção, Idéia e Enredo

Ficção, estórias, realidade e fantasia são matérias primas básicas do escritor, mas o resultado final materializa-se no papel na forma de palavras organizadas, como o escultor que cinzela sua visão na rocha ou o pintor que deposita tintas na tela. Imaginação pura não é suficiente, é preciso afiar as ferramentas e ter controle do resultado, isto significa dominar a linguagem.

A palavra escrita é uma brincadeira de códigos, existem muitos diferentes espalhados pelo mundo com suas particularidades, diferentes ferramentas que vão influenciar no resultado final do autor. Sem querer entrar em complicações semiológicas, é preciso perceber que há a idéia, sua materialização escrita (ou intermediário), e o receptor, que é o leitor, quem recebe a mensagem. Para escrever é preciso conhecer o código, ler significa decodificar a mensagem, em algum nível a apropriação da linguagem é particular de cada pessoa, mas como há comunicação, existe algo necessariamente em comum entre emissor e receptor, e este algo em comum é a associação do código, a linguagem, com o mundo real, é esta associação que permite a decodificação universal da linguagem. A lógica do mundo real é que sustenta a semântica do código, sem esta associação não há possibilidade de compreensão comum de qualquer código.

Visto que o escritor não pode ter controle sobre a apropriação particular de cada um sobre a linguagem, ele só pode dispor de sua relação com o mundo real, e em sua afinidade particular com o código, aproxima-lo com a realidade para que se assemelhe a uma compreensão universal. Um bom escritor irá tentar através da escrita materializar sua ficção em uma realidade grafada, mas aí há um problema, ele estará limitado ao universo em que vive o leitor. A grosso modo, não posso comunicar-me em português com quem só domina o chinês, e em casos mais simples, não posso entrar no universo da física quântica com quem não domina o assunto ou sua “realidade” básica. Tome como exemplo este texto, ele não é simples, e a maioria das pessoas não vai entender, pois não é de um universo comum, apenas do universo de quem preocupa-se com escrita e linguagem.

Aqui entramos em um dilema comum a quem começa a apropriar-se da linguagem, se o escritor limitar-se à apropriação mediana da linguagem na população, seu repertório estará limitado a um coletivo comum e mediocrizante. Ao explorar a linguagem o autor caminha por terrenos onde a média não freqüenta, distanciando-o do grande público. Quando lemos um autor de ponta, somos obrigados a nos educar na sua maneira de escrever, seja Dickens, Poe, Fitzgerald, Sterne ou Machado, cada um obriga o leitor a ampliar seu universo lingüístico.

Se o bom escritor quiser fugir da média não escapa da sina de educar o leitor, há leitores abertos a tal jogo e outros não. Nos livros de auto-ajuda a linguagem é sempre paternalista, nunca há desafio, e se o autor usar de frases feitas, melhor, pois o leitor nem tem o trabalho de ler, pois já viu a frase milhares de vezes, é uma literatura de carícia ao ego, não pode desafiar o leitor, colocar obstáculos a serem vencidos para que cresça, assim, com esta bajulação cifras apreciáveis de venda são conseguidas. Há um tipo de leitor mais raro que deseja ser desafiado e crescer, mas mesmo este não está livre das armadilhas, ao desafiar um bom livro, há sempre o risco de ganhar ou perder, compreender ou não entender, ou ainda ter uma compreensão errada disfarçada de entendimento. Vou explicar: assim como o domínio completo da língua por parte do autor é impossível, pois significaria a compreensão completa do leitor, o mesmo é válido ao leitor, há sempre um nível de incompreensão que o leitor pode preencher com sua imaginação, esta imprecisão esta limitada pela habilidade do autor de materializar no texto sua intenção mesmo que de forma velada. No que o texto falha a imaginação do leitor impera e em seu extremo poderíamos ler páginas em branco, atividade do escritor. Um leitor muito crédulo encontrará significados onde não há, e um autor vigarista pode usar desta particularidade, escrevendo coisas sem sentido e deixando a interpretação por conta do leitor, uma espécie de teste de Rorschach onde o subconsciente projeta suas imagens. Tal armadilha é tentadora, pois materializa projeções do próprio leitor, inexistentes na intenção do autor, um tipo de texto que ajusta-se ao que o leitor quiser, abdicando da necessidade de compreensão textual e da relação autor leitor.

Se o autor escreve “carro” o leitor pode imaginar qualquer tipo de carro, mas se o autor diz: “um fusca verde, com a porta amassada, sem farol, com pneus carecas e vidro escurecido”, temos uma imagem muito mais precisa do tal carro. A cena na mente do autor é sempre mais detalhada do que é condensado no papel, cabe ao escritor escolher os elementos corretos para descrever e montar uma estória, cada palavra vai trazer uma imagem que será somada ao todo e funcionará em conjunto com todo texto. Muito particular de cada língua é o som de uma frase, o ritmo de um parágrafo, os sons também imprimem um efeito, na poesia é guia, na prosa escravo da compreensão do texto.

Há gente que advoga que há na escrita duas partes distintas, uma evidente e outra “secreta”, a “profundidade” do texto viria desta parte cifrada e isto seria obra dos bons autores, mas vamos pensar no contrário, seria fácil fazer um texto com um único e preciso significado? Certamente não, uma vez que o domínio absoluto da linguagem é impossível, pois significaria dominar a compreensão da linguagem do leitor.  Uma vez que o texto é apenas uma representação gráfica, é óbvio que seu significado só tem dimensão na mente de quem lê, assim o autor vai imprimindo no leitor com o uso das palavras idéias, de maneira mais ou menos precisa, mas nunca absoluta. Da matéria prima que existe na cabeça do escritor, a parte escrita é apenas uma pequena parte, mas a única visível pelo leitor, assim há uma grande parte da imaginação que não vai para a página, mas forma um todo do qual foi retirado partes.

Uma vez que não existe controle absoluto da linguagem, e a parte escrita é apenas pedaço de um universo imaginativo, sempre haverá uma segunda dimensão em um texto escrito. Aqui entramos em uma outra consideração, o enredo, que é a parte que liga a parte visível e subliminar do texto para coagular uma estória. Podemos ver como Chekhov é o mestre no seu enredo, interligando todas as partes de suas estórias em um todo.

Enredo não é a estória linear, é um todo que permeia a obra e só pode ser visto ao atingir o ponto final, pois ele compreende a integridade do texto. É engraçado como o enredo é a parte mais difícil para escritores e leitores, trabalhar o enredo por parte do autor e compreende-lo da parte do leitor. É um todo composto de todas as palavras, frases e parágrafos da obra, é a cola que junta tudo.

É engraçado como a falta de um enredo estraga completamente o que poderia ser uma boa estória, pois evidencia a falta de intenção ou planejamento do escritor. Com exemplos televisivos podemos mostrar isto bem, X Files e Lost, ambas séries com final estúpido que estraga todos os episódios anteriores, um blefe. Como já disse antes, é fácil capturar o leitor com o mistério, jogando elementos aleatórios e deixando que o leitor faça suas conexões, mas no momento das peças juntarem, não encaixam, aí fica evidente que não houve enredo, a farsa é desmascarada. Uma forma de não ser desmascarado é deixar o enredo em aberto, muito comum em escritores pós-modernos. É preciso cuidado para que um enredo aberto não seja apenas uma falta de enredo e nisto podemos voltar a nos referirmos a Checkov, mestre do enredo.

Uma bom enredo é um aspecto esquecido e desprezado nas estórias modernas, ao meu ver, fundamental para uma boa estória, é o ingrediente mais raro a encontrar de boa qualidade, mesmo em produções milionárias, a maioria dos enredos é paupérrima. O que o faz tão difícil e desafiador?

Alex

Literatura em Teoria e Prática

Li, sempre li, e nunca me preocupei com o que lia, seu pedigree ou sua importância no panorama literário, nem ao menos importava-me com quem veio antes ou depois, eram apenas livros, bons ou ruins, bem escritos ou mal escritos, foram compostos para serem lidos, puro desfrute, sem nenhuma outra intenção. Tirando algumas desventuras em créditos eletivos, nunca adentrei o mundo das teorias literárias, eis que depois de um tempo dei-me conta que havia um buraco na minha literatura, lia coisas velhas e muito velhas e dos poucos mais novos, nenhum brasileiro. Tal percepção aguçou-me a curiosidade e fui procurar na crítica de jornal o que seria digno do investimento, meia dúzia de livros depois senti-me enganado, ludibriado, não consegui gostar de nada além de achar a maioria dos livros muito mal escritos, comecei a questionar a validade da crítica que incensava tais obras e uma nova pergunta surgiu-me: o que é escrever bem contemporâneo? Parecia uma pergunta fácil, fui tirar a dúvida com alguns acadêmicos e não obtive uma resposta direta, muito menos a crítica podia ajudar-me.

Resolvi colocar mãos à obra e ver na prática o que os professores de escrita dizem: mais confusão, será que não consigo uma simples resposta para minha pergunta? Machado de Assis escreve bem, o mesmo posso dizer de Lima Barreto, mas o seu jeito ficou atrás no tempo e alguém que hoje os imitasse não seria considerado um bom escritor e ainda correria o sério risco de um pastiche caricato.

Apesar de parecer que toda a teoria literária vem de épocas imemoriais, ela é relativamente recente e em sua maioria segue linha historiográfica, agrupando autores segundo suas épocas e modismos. Ainda mais recente é a semiologia, mas acaba sendo auto-referente, preocupando-se em classificar um livro dentro dos próprios padrões artificiais que criaram, sem responder nenhuma questão fora de seu universo.

A linha historiográfica é simples e lógica, cria uma seqüência bastante inteligível do que seria a história da literatura e tenta por este prisma qualificar e classificar as obras, inserindo-as em sua linha temporal. Vista de longe é perfeita, explica tudo, mas quando você lê toma contato íntimo com as obras e passa enxergar o que os especialistas chamam “fraturas”, aquele todo coeso da teoria começa a rachar, evidenciando nas obras diferenças irreconciliáveis que as impede de serem agrupadas da maneira historicista sem que a classificação pareça forçada e sem sentido.

É óbvio que as pessoas de um mesmo tempo tem traços em comum, posso afirmar com toda certeza que Dickens nem nenhum de seus contemporâneos viajou em um avião a jato, não esquentaram comida no micro-ondas, nem navegaram na internet; são pontos em comum, mas nada explicam a obra do autor, absolutamente única. Dickens é fruto de seu tempo assim como todos os outros nascidos em datas semelhantes, e portanto carregam afinidades que vão aparecer em suas obras, mas se algo faz de “ A Tale of Two Cities” uma obra especial, não é o que tem de comum com o seu tempo, mas o que tem de diferente, de mágico, de sublime na habilidade e imaginação do escritor.

Talvez a historiografia explique todos os autores medíocres, pois seu método medianiza os escritores, mas perde o essencial ao tentar classificar os notáveis. Ao ler uma obra percebemos tudo que a classificação historiográfica deixou de entender, podemos mergulhar nas minúcias detalhadas e únicas criadas pelos grandes escritores.

Desta maneira, não importa o quão versado você seja em teoria literária, literatura em seu cerne é coisa prática e só podemos entender tomando contato direto com a obra de um autor. Acontece que como tudo na vida, de todos os livros que lemos, esquecemos muitos, assim como esquecemos passagens de nosso cotidiano, mas de alguma maneira uma experiência mais profunda fica da vivência de uma obra. Ao ler o livro o autor cria em ti uma impressão e esta é indelével, lembro que quando assisti ao filme do “Senhor dos Anéis”, mais de uma dezena de anos após ler a obra, à parte o que foi mudado, muitas cenas nem lembrava, e foi um dos livros que mais gostei de ler. Raramente releio um livro, prefiro novas aventuras aos trilhos já caminhados, atualmente com a facilidade do e-reader reli algumas obras no original; não passaria na minha cabeça ter duas versões do mesmo livro que já li em português, mas o e-reader tornou o processo sem custo nas obras de domínio público, e mais barata em alguns não tão velhos. Dickens é um que no original é muitíssimo melhor que a tradução, até parece outro livro, é outro contato com a obra, sem intermediários, mais puro e exponencialmente mais intenso; em inglês é um grande escritor a olhos vistos, traduzido é muito menor.

Nestas andanças minha visão começou a clarear e obtive respostas às minhas perguntas, respostas que a mim parecem práticas. Por que não leio antigos e contemporâneos na mesma proporção? Aqui a resposta é muito simples, o que existe na literatura em quinhentos anos é muito mais do que esta janela de cinqüenta anos, e muito mais se compararmos o mundo com o que é produzido apenas no Brasil, assim, ler escritores brasileiros em demasia seria de uma miopia policarpista extrema. Não há de se ter preconceitos em literatura, além disto, pensem em uma data, quantos livros memoráveis associados a ela? Não muitos? Ou nenhum? Desta maneira, mesmo livros laureados com prêmios anuais, são mera titica, perto do conjunto da literatura mundial em todos os tempos. Por que devo dar-me ao trabalho de ler porcaria quando tenho uma grande quantidade de tesouros ainda a ler?

A segunda pergunta do que é escrever bem contemporâneo, é um pouco mais complicada, pois não existe um escrever contemporâneo; escrever bem é escrever bem em qualquer época, tem a ver com a habilidade do autor de usar a linguagem para causar um efeito no leitor, cada grande autor usou sua língua de maneira diferente, assim escrever bem é ser efetivo com a linguagem no que se pretende dizer. Copiar grandes escritores não é escrever bem, deve-se criar seu jeito, um que expresse da melhor maneira o que pretende dizer.

Não importa quão bem escrito seja um livro, se ele não tratar de assuntos de seu interesse, não irá gostar, só os interessados em literatura pura gostam de bons autores que nada tem a dizer. Literatura, na simplicidade da relação autor e leitor é apenas desfrute, e precisa ser experimentada “in natura”, não há teoria que substitua a prática; às vezes a teoria pode suscitar discussões interessantes, mas sem o contato direto e íntimo com as obras, é material inútil. O fundamental a saber de literatura é: Leia! Apenas leia, não se deixe intimidar por textos difíceis, enfrente-os, e não se deixe cair nas armadilhas dos vigaristas, tenha um contado direto com o livro, não se deixe enganar, é a sua experiência que conta.

Alex

Palavras: O Quanto Baste

Conto, novela e romance são considerados artigos distintos, mas a única e verdadeira diferença está na extensão do texto, difícil passar por qualquer classificação que não cruze com esta verdade óbvia, e ainda assim, a fronteira entre os universos não é uma linha bem definida. Qual o limite de tamanho de um conto para chamar-se romance? Impossível dizer.

Muito da existência do conto deve-se ao espaço a ele destinado nos periódicos, que não se prestavam à publicação de livros de grandes dimensões, mas podem, sem problema, apresentar grandes romances ao público de forma serializada, o que não é o caso do conto, onde início e fim da estória estão encerrados nos restritos limites a ele permitidos.

Pela disponibilidade do espaço, os escritores começaram a experimentar a forma, dentre os grandes contistas modernos estão Dickens e Poe, o primeiro abusou também da forma serial, instrumentalizando os textos para deixar no leitor a ânsia para ler o próximo, este “gancho” foi uma de suas grandes obras. Poe já foi mais prolixo na forma curta e única, escreveu até um pequenino ensaio onde descreve a mecânica da composição de seu poema “The Raven”, mestral. Apesar do “The Philosophy of Composition” falar de um poema, é fácil ver o raciocínio de Poe na elaboração de seus contos, ele procura um efeito, e este irá culminar no desfecho da estória. Como este ensaio é um dos poucos a tratar do assunto, marcou o estudo da forma e de certa maneira definiu para os estudiosos o que seria o conto “clássico”. Para Poe o formato curto é bom, pois é impossível manter o leitor em estado excitado por mais de duas horas, assim o texto deve neste espaço criar o maior efeito possível, ele advoga um tipo de conto “One Shot”, onde todos os elementos da estória contribuem para o desfecho final.

Poe é considerado principalmente em sua terra natal como um dos melhores maus escritores, o que não posso corroborar, pois se analisada sua habilidade com a escrita, não é obra de escritor menor, pode haver uma irregularidade na qualidade de seus textos, mas qual grande autor não tem altos e baixos? Parece que o grande problema é ter-se dedicado a um tema menos “literário” que seria o horror, o mistério, considerados gêneros menores, puro preconceito estúpido. Não é preciso lembrar que “The Murders in The Rue Morgue” iniciou todo o gênero policial investigativo. Além de seus contos de terror, que como prega em seu ensaio, criam um efeito forte. Não se deixe enganar, Poe foi grande.

Logo a seguir da morte de Poe, nasce a criança que será o maior contista de todos os tempos: estou falando de Anton Checkov. Se o conto de Poe era “One Shot”, as estórias de Checkov mostram uma sofisticação de personagens e uma trama de enredo que é tudo, menos linear, pelo menos à primeira vista. Enquanto Poe procura um efeito forte e evidente, com todos elementos contribuindo para o desfecho, o “efeito” nos contos de Checkov não é menor, mas vem de um caminho labiríntico enredado na estória. Advindo de uma tradição de escrita iniciada com Pushkin e Gogol, seus temas são menos fantásticos, refletindo a vida de pessoas normais, assim como Dickens que retratava os pobres em sua obra, antes personagens ignorados, Checkov mostra pobreza não como chaga, mas apenas como uma face “normal” da vida da pessoa comum.

Ricardo Piglia, um estudioso argentino tem uma teoria pelo qual nos contos existem duas estórias, uma evidente e outra escondida, a primeira está ali literal no texto do autor, a segunda é fragmentária e, nos contos clássicos, vai encontrar a parte literal no final para culminar no tal efeito dito por Poe. Já em Checkov, considerado um contista “moderno”, as duas estórias tem andamento independente e não necessariamente encontram-se no final, ambas estórias são contadas ao mesmo tempo. Hemingway compara uma estória com um iceberg, onde a parte que se vê é menor que a submersa. Em certa parte a definição do Forster de personagem arredondado e plano, traz a mesma consideração, pois o personagem arredondado é um conjunto complexo e turbulento onde não é possível prever com precisão as ações, assim surpreende o leitor de uma forma convincente; tem um lado não visível (secreto), que floresce em uma surpresa para o leitor.

Tendo a considerar a classificação “taxonômica” de Piglia como uma artificialidade acadêmica, mera classificação intelectual inútil ao escritor, e ainda tenho dificuldades em imaginar qualquer escritor fazendo crochê com duas estórias. Um texto é um elemento figurativo, e em sua essência nada representa que não sejam borrões de tinta em papel, é óbvio que há uma tentativa linear de contar uma estória, mas mesmo no contexto literal, o texto apresenta uma bidimensionalidade que não pode ser representante da vida real, tridimensional. Assim, como bem explica Hemingway, a parte visível da estória: o texto, é ínfimo perto do universo imaginativo que condensou tais palavras no papel. Desta maneira, não existem duas estórias, mas apenas uma, com sua parte literal e subliminar imbricadas, representando o mesmo universo, a imaginação do autor.

Em outras alusões feitas não por estudiosos mas por autores, o conto é considerado uma forma difícil por seu tamanho limitado, esta é uma consideração prática muito interessante, que foi expressa por Faulkner, Capote, Updike e Steinbeck dos que me lembro. Um conto tem menos palavras, consequentemente menos frases, desta maneira uma frase ruim sobressai; em textos mais longos a frase ruim pode ficar escondida, é uma fração menor do todo. Assim, quanto mais curto o texto, maior é a exigência com a linguagem. Cada frase em um texto de meia página é muito mais valiosa que no meio de cinqüenta páginas, onde uma escolha ruim passa despercebida.

Mas aí vem a questão que importa ao escritor: qual o tamanho do texto? Acredito que um texto deva ter as palavras que bastem para seu efeito, seja em quinhentas páginas ou meia, faz parte da arte do autor escolher as palavras, organiza-las em frases para contar uma estória, e não nos cabe aqui colocar qualquer tipo de cabresto, mas notar que as escolhas devem ser mais cuidadosas na medida que o texto é menor, mas ao mesmo tempo um texto longo, escrito com a mesma intensidade de um Checkov ou uma Alice Munro, pode tornar-se demasiado intenso, perdendo sua efetividade. Muitas vezes penso no texto como uma linha de jazz, onde momentos de tensão e relaxamento devem ser intercalados para conseguir um resultado final, que necessariamente não está no final do texto, pois às vezes uma parte mais fraca depois da forte pode tornar a música mais efetiva, em vez de deixar o forte cair no vazio do silêncio.

Alex

Dica de Escrita #5: Escrita Literária

Ao produzir um texto o autor permeia as palavras, mas não de forma direta; ao contar uma estória a personalidade do autor não é evidente, e nem deve ser, mas na escrita dita literária, uma versão mais artesanal e pensada da escrita cotidiana, duas figuras literárias mostram com mais clareza a personalidade e habilidade do autor: metáfora e metonímia.

Recursos fortes que devem ser usados com parcimônia, pois seu exagero, ao contrario do que se pensa, em vez de tornar o texto mais forte o enfraquece e deixa chato, metáforas lançadas uma atrás da outra são cansativas para o leitor, não contribuem para a força do texto.

Ao sair da escrita coloquial para o pântano escorregadio da escrita literária corre-se o risco de atolar no lamaçal da banalidade, são águas turvas, perigosas, para os que não dominam a arte de caminhar em terreno inseguro. Corre-se menos risco com uma escrita plana, sem adornos ou malabarismos, não compromete, não denuncia a imperícia do escritor, pois na escrita “plana” não há muito espaço para o autor diferenciar-se, exibir proficiência.

Muito já foi discutido sobre metáforas e alguns grandes nomes chegaram à conclusão que as melhores já foram usadas, deixando pouca margem para a criatividade dos novos autores. Em uma metáfora repetida e já conhecida deve-se pensar que ela carrega em si o contexto original, pode-se brincar com isto, usando como referência ao texto primeiro; no mesmo sentido acaba ficando pobre, cópia, repetição. Antes uma boa metáfora do que muitas ruins, a única que vale perde-se no meio das ruins. Não existem regras para dizer o que seria uma boa metáfora, no meu entender elas parecem naturais, uma comparação óbvia, mas não trivial.

Quando na metonímia um texto aparece voando, trotando em assuntos diferentes com a velocidade de um bólido, os distintos contextos confundem o leitor, e a não ser que este seja seu propósito explícito, deve ser evitado; um galope rápido ou um trote cuidado deixa o texto mais suave quando os recursos “similies” vem do mesmo universo, onde a comparação não explícita refere-se a uma mesma imagem.

O autor corre muitos riscos ao adentrar a escrita literária, se pretende apenas contar uma estória, e não tem o treino nem a erudição para entrar neste pântano, evite! Não há pecado, uma boa estória pode ser contada em linguagem simples, de maneira muito mais efetiva do que em uma má forma pretendendo ser literária.

Alex