Verdades sobre leitura e literatura.

Livros acompanham homem e sociedade, se nossa herança animal está no código genético, guardado no alfabeto químico do DNA; a herança humana está no código das letras, guardada no interior dos livros. Se caminhamos, acrescentamos, e mudamos nossa sociedade, grande parte vem do acúmulo do conhecimento depositado em livros. De todas as mídias que transportam o pensamento humano, a maior parte da cultura está em livros e no papel, até a música antiga, só chegou a nosso tempo pois alguém inventou uma maneira de registra-la em papel. O livro e a escrita não só são a forma mais simples de registro do pensamento, como é ainda hoje a mais efetiva forma de transmissão da herança intelectual.

Desta maneira podemos ver o grau superlativo de importância que toma a alfabetização, é ela que nos insere da natureza como humanos, herdeiros do pensamento de gerações passadas. Mas a tarefa de ensinar o uso das letras para nossas crias está cada vez mais deteriorada, como doença genética que transmite a seu descendente morte e sofrimento físico prematuro. Além do descaso, e da intenção de manter o povo ignorante para que não se diferencie dos animais dóceis de carga, há a ideologização estúpida da educação, mistificando o que é realmente alfabetizar e através das letras educar.

Desaprendemos a ensinar, alfabetizar que era simples, agora virou tarefa impossível, tudo por conta de uma ideologia educacional ignorante, a cartilha que ajudou milhares a ler hoje é demonizada, um absurdo, um desserviço à educação, ou pior, crime. O curso de magistério que ensinava professoras a alfabetizar, foi substituído pelo curso de pedagogia, que tem status universitário mas não ensina a alfabetizar. A cartilha permitia até que professores leigos alfabetizassem, vai me dizer que isso não é incrível? Tentei de todo modo encontrar as bases do tal construtivismo que agora substitui de maneira ineficiente o que já funcionava, dizem vir de Piaget, garanto, não só não há nada do tal construtivismo em Piaget como o próprio cerne do trabalho, tanto desenvolvimentista, como o epistemológico, são contrários ao que prega esta ideologia. A criança constrói sua lógica com base na lógica causal à sua volta, e a cartilha traz para a criança a lógica fonética da nossa língua, simples assim, associando o signo fonético grafado na página com a linguagem oral já dominada. Você pode nunca ter visto ou ouvido a palavra ‘rafrileque”, mas você sabe como falar em voz alta. Esta estupidez de palavra inteira em vez da lógica fonética que é inerente da nossa língua só atrasa e atrapalha o estudante, que demora ter a fluência necessária para ler um livro. Ao contrário do chinês e japonês onde um símbolo representa uma palavra e a criança só vai ler um jornal com onze anos, com o uso da cartilha que traz a lógica fonética, a criança já pode ler com sete ou oito anos. Mas graças à maravilha da ideologia educacional moderna, as pessoas saem semi-analfabetas da universidade!

Vamos ser sinceros, ou existe uma burrice virulenta no sistema de ensino, ou há intenção explícita de deixar o povo ignorante. Não há outra hipótese. É tão óbvio, com cartilha, professoras do curso de magistério sem curso universitário, as crianças liam no máximo com oito anos, hoje saem analfabetos funcionais. Não é à toa que a maior dor de cabeça do governo militar eram os estudantes, problema resolvido, com estudantes ignorantes podemos voltar à ditadura sem oposição. E não é só isso, como é chato um mundo empesteado de ignorância, é tão mais divertido ter pessoas cultas para conversar, debater com opiniões qualificadas, apreciar nuances complexas invisíveis a olhos cegos. Há mais tecnologia, hoje o acesso à informação é muito mais simples, e com o e-reader e-ink, a informação de qualidade dos livros torna-se acessível a muita gente, mas é preciso educação. E o início de tudo, a porta de entrada, a chave para herdar humanidade, está na alfabetização.

Livros são o complemento indispensável, a outra parte, a pedra basilar da educação, se alfabetização é o meio, o livro é o fim. Não há propósito de alfabetização sem livros, a língua portuguesa é inútil sem livros, corpo sem vida; e isto já é conhecido há muito, a frase: “um aposento sem livros é como um corpo sem alma” foi dita por Cícero a mais de dois milênios, como eu sei? Livros! Se palavra é meio, o pensamento humano é o fim, livro seu guardião, depositário fiel do pensamento dos antepassados.

Leitura sem liberdade nada mais é que doutrinação, tudo está em livros, cabe a nós escolher, e através destas escolhas, escolhas de vida, é que se define o ser humano, quem não escolhe, quem anda em brete, é gado, animal, não humano, pois a este a inteligência deu a possibilidade de escolha. Pegue um livro de um assunto que gosta e mesmo mal escrito será bom, pegue um livro de um assunto que não lhe interessa, e seja forçado a ler, e mesmo escrito por um mestre será um pânico; não existem universalidades, só liberdade. E é assim na república de livros, liberdade para descobrir seus gostos, liberdade para trilhar o seu caminho, e antes de tudo escolha consciente, a única fonte de iluminação do homem. E isto está em livros, veja Kant a mais de duzentos anos atrás.

Alfabetização como chave para o mundo dos livros, e livros como a porta de saída da ignorância. Mas não pense que todo livro é igual, ler é um aprendizado constante, progressivo, deve-se entender que existe escrita mais simples, para assuntos mais simples, e existe escrita mais complexa, para assuntos mais complexos, e não importa o livro, se o assunto não é de seu interesse pessoal, não importa quão bem ou mal escrito, quão simples ou complexo, o tal livro não vai lhe interessar, e não há pecado, não existem obras obrigatórias, o mundo dos livros é vasto e os caminhos são infinitos, para todas as pessoas diversas que caminham sobre a terra e que ainda irão caminhar.

Assim, qualquer literatura forçada é derrogatória ao prazer da leitura, ninguém pode obrigar um livro, mas podemos seduzir. Literatura forçada é pior que casamento arranjado, mas sedução, esta sim é garantia de união.

Pessoas alfabetizadas precisam treinar ler, desenvolver suas habilidades, e isto só acontece lendo, é uma jornada sem fim, quem abandona o caminho, deixa de lado a própria vida como humano, perde sua herança. E assim sem livros acessíveis, sem liberdade de escolha, não há leitura, muito menos literatura, nem humanidade. É preciso que as pessoas tenham acesso aos livros para que treinem a leitura, desde a idade mais nova; se não lerem, não praticam, não aprendem e permanecem semi-analfabetas; sem livros círculo vicioso, com livros virtuoso, e como para desfrutar da literatura é necessária liberdade, é preciso acesso a muitos livros para achar o que se deseja ler. A escassez monetária é limitante, era mais nos livros de papel, menor nos eletrônicos que podem ser replicados sem custo, lógico que o imposto é um empecilho, mas é a prova cabal da vergonha que mostra membros deste governo contra a educação. Embrulha-me o estômago só de pensar em como este governo do PT é mesquinho, mantendo os brasileiros ignorantes, em curral para animal, curral eleitoral, onde a única porta de saída, educação, está bloqueada!

A luta do iluminismo ainda não terminou, ou nem começou, e o caminho do esclarecimento está nos livros, lidos, experimentados, pensados com a própria cabeça e não engolidos e vomitados. É impressionante como encontraremos a mais pura ignorância disfarçada das mais variadas e nefastas ideologias, e mais assustador é ver como muitos ditos intelectuais são em realidade ignorantes funcionais que deixaram de pensar e raciocinar com a própria cabeça para recitar dogmas que não se deram o trabalho de elaborar com o próprio cérebro.

Escrever é meio, o que se escreve é fim, o assunto do qual queremos falar, a história que desejamos contar. Assim encontramos alguns casos: quem sabe escrever e tem algo a dizer, quem não sabe escrever e não tem nada a dizer, quem sabe escrever e não tem nada a dizer e quem não sabe escrever mas tem algo a dizer. E com um pouco mais de variação todos os livros caem nestas categorias. Em teoria o melhor livro obviamente é de quem sabe escrever e tem algo a dizer, mas não é o que se pensa hoje em dia, há uma virulenta falta de objetividade nos critérios para avaliar literatura, um pouco culpa de uma seqüência histórica ruim, outra parte da falta de senso que hoje persiste nesta seqüência ruim.

A grosso modo alguns dos chamados modernistas ainda olhavam para o passado, para a história, mas outra parte decidiu romper a linha e esquecer o passado, e foi tudo que sobrou no pós-modernismo, fim da arte, fim da vida. Uma maneira de libertar a arte foi ater-se exclusivamente à forma, e assim em nosso tempo a arte está livre, totalmente livre, do passado, da vida, da própria arte. E os pseudo-intelectuais andam por aí a propagar esta ideologia de morte, atendo-se à forma, à forma já estereotipada no passado modernista, e esquecendo que livros devem ter conteúdo, o fim para o qual se escrevia.

É preciso ter claro o caminho historicista que levou ao abismo, à morte da arte. A história é velha, o historicismo é novo; historiadores tem milhares de anos, historicismo poucas centenas. É preciso notar o quanto de ideologia e inutilidade vem embutido no historicismo, e quando uma ferramenta, um meio, por ignorância vira fim. Grande parte da culpa está na visão hegeliana que lambuzou o maxismo, e o subseqüente marxismo empesteou quase toda dita “ciência” social. O relativismo histórico hegeliano, infundiu-se na idéia boba da inevitabilidade do desfecho das doutrinas marxistas, e assim levou a esta cisma estúpida que emporcalha o pensamento moderno. Não que o pensamento de Hegel e Marx seja inútil, são importantes como todos dogmas passados, e assim como Aritóteles usado pela igreja de forma dogmática foi um mal, o uso dogmático do hegelianismo camuflado em Marx, deu origem a este historicismo que substitui a história, a ferramenta como fim e não como meio.

O abismo desta linha historicista foi bem desfrutado por Gertrude Stein, mas ela, ao contrário de muitos modernistas que esqueceram a história, conhecia o seu passado, experimentou até chegar ao abismo, a morte da escrita no momento que aboliu o tempo, a relação causal da escrita, nada sobrou, ser estéril que não logra deixar descendentes de tão mutilado, fim de uma linhagem. O incrível é como hoje em dia ainda insistem que todos os caminhos da literatura devem levar ao abismo, a intensidade da vida alardeada por Baudelaire, é mais desfrutada se com a consciência preconizada por Kant, não há vida intensa sem ser consciente para perceber, entender e desfrutar dos sabores e gostos superlativos.

Literatura como arte, como fim último da escrita e leitura precisa desvencilhar-se de seu passado niilista, entender de onde vem seus genes, e saber que sem eles nada há. O ineditismo narrativo tem cobrado preço alto da literatura, e vimos o fim no trabalho de Miss Stein. Construir máquinas narrativas inéditas acaba virando um clichê que repele o conteúdo, prioriza a forma, e de certa maneira perde o objetivo da escrita, como a comida que levou muito sal, passa do ponto. Podemos ver bem este dilema na obra de Joyce que culmina com Ulysses e declina abruptamente em Finnegans Wake, que perde o apelo ao leitor normal e só cativa a quem estuda literatura pura ou aprecia apenas arte narrativa. É preciso entender que escrever ainda é um meio de comunicação e quando deixa de comunicar, perdeu sua função, há que existir um equilíbrio, um balanço, e é neste equilíbrio que encontra-se a arte última, ou apenas arte. Qualquer artífice escreve, e se dotado de grande habilidade, produz arte. A exclusiva prioridade da forma pura já mostrou sua infertilidade, cabe a seus ideólogos perceberem que trilham o caminho de morte e mudar a rota.

Às vezes não percebemos como alfabetização, educação, leitura, literatura e arte estão completamente intrincados, compartimentalizamos o conhecimento em vasos estanques e impermeáveis que fermentaram seu próprio miasma, longe da exuberância da vida que permeia toda a obra humana, o diagnóstico último da patologia vem quando somos presenteados com ferramentas de imensa capacidade e ficamos impotentes, é assim com a internet e o e-reader, se um dia a prensa de Gutenberg nos permitiu sair de uma escuridão de mil anos, precisamos novamente achar a luz do iluminismo, e não deixar-se de forma passiva cair novamente na escuridão da ignorância. As ferramentas estão disponíveis, só nos resta usar, criar, ousar, desafiar, e só assim teremos a intensidade da vida almejada pro Baudelaire, sem mentiras, sem porres homéricos, mas plena. Se há algo que sabemos é que esta vida não veio com manual de instruções, e é nossa obrigação e prazer usa-la da melhor forma possível, afinal, quando acabar-se, aí sim nada teremos. Vivemos pois a vida merece, não desperdicemos o legado, e aproveitemos da sabedoria e cultura de nossos antepassados para viver mais, com maior intensidade, plenitude e consciência, e é nos livros que se encontram estes legados, nos permite viver e deixar a outros nossa contribuição, para que do que tivemos, eles tenham mais, por isso o passado é importante, a história e sua compreensão, o fim da história é o fim da vida.

Leia, aprenda, desfrute, divirta-se e viva.

Alex

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Tablets e Alfafa para Alimentar a Ignorância!

Se você está razoavelmente bem informado, viu que o governo pretende comprar 900.000 tablets para a educação, visto assim de relance parece algo bom, mas visto de perto é um dos golpes mais vigaristas e insidiosos a ser perpetrado contra a educação já combalida do brasileiro, calma, vou explicar em detalhe e tentar colocar luz no amontoado de bobagens que mantém nosso ensino em péssimas condições. Tome fôlego que este será longo, mas necessário, se está procurando leitura leve desistirá nos primeiros parágrafos.

O nosso universo de estudantes básicos é de mais de cinqüenta milhões, 900.000 diluídos neste universo é nada, vão fazer propaganda com crianças segurando tablets, para enganar os eleitores, mas não vão melhorar a educação, gastarão muito dinheiro e ainda desacreditarão iniciativas futuras que podem usar esta utilíssima ferramenta de forma apropriada. Em virtude de certa gritaria corrigiram dizendo que 600.000 destes tablets seriam para professores, pois não tem o aparelhinho, e assim nem sabem usar, sobram 300.000 para os alunos… quase nada, iniciativa estúpida! E pensar que pagamos o salário destes “gênios” educacionais, que por pura falta de competência, afundam dia a dia o nosso já naufragado sistema de ensino.

Vamos supor que você é um professor bem intencionado e razoavelmente bem formado, adentra a sala de aula, três dezenas de jovens em seu público cativo e forçado, o que você precisa para ensinar, dar uma boa aula? Primeiro e antes de tudo: conforto e segurança, não há como ter um bom ambiente sem isto; é bom que os alunos estejam bem alimentados e em boas condições de saúde, assim como o professor; diante destas variáveis o ensino torna-se secundário e o aprendizado infrutífero. Bem, estamos saudáveis, bem alimentados, confortáveis e seguros, podemos agora começar a nossa aula.

Posso entrar na sala, dizer bom dia, começar a encher a lousa de palavras que os alunos vão anotar no caderno; quem já não teve um professor assim? Não é o melhor exemplo da espécie, mas existem aos montes. O conteúdo que o professor coloca na lousa já está nos livros, muito já lá escrito a mais de uma centena de anos; se estivesse treinando uma turma de copistas medievais, produzindo livros em massa, este seria um bom treino, mas não, estou tentando educar, e este método além de improdutivo, é chato e desestimulante. Que tal em vez de copiar da lousa para caderno, ter um livro com tudo já escrito? Não é mais simples e produtivo? Mas para isto é necessário ter livro, para a tarefa o e-reader é perfeito, mas os estudantes precisam saber ler, e aqui vou entrar no enevoado debate da alfabetização: já foi algo simples, não mais, mais complexa, ineficiente; o sistema moderno contaminado de ideologia evita que o aluno leia de forma fluente aos oito anos, alguns até saem da escola sem ler, outros ainda terminam faculdades, com deficiência em leitura, por conseguinte em escrita.

Se na caixinha você já tem umas trinta ou mais velinhas de aniversário deve lembrar da famigerada e mal afamada cartilha, hoje em dia considerado um livro do demônio, excomungado e banido. Ela, a maldita, nos fez ler, rapidamente, e ainda escrever, nos obrigou a entender a lógica da escrita na língua portuguesa, com seus símbolos representando sons. Você pode não conhecer uma palavra, mas sabe ler e dize-la em voz alta, graças à simplicidade lógica da cartilha com seu método alfabético. Funcionou! Foi efetiva, mas foi substituído por um método sem lógica, sem eficiência e abundante em ideologia vigarista. Aqui entra o construtivismo bastardo, diz-se inspirado em Piaget, mas dá para ver que do grande cientista não leram nem um livro e se o fizeram não entenderam, Piaget pode até ser um mau escritor, mas é ótimo pensador, contrário do doutor Freud, excelente escritor, mas cientista muitíssimo inferior. Eu pergunto aos construtivistas de plantão: onde sua teoria, se assim pode ser chamada, apóia-se na obra de Piaget e não se opõe a suas descobertas empíricas? Pois, de minha leitura do suíço, mostra que se o mesmo hoje vivesse, desmascararia a vigarice do discurso construtivista.

É este construtivismo que está nas diretrizes educacionais brasileiras, apodrecendo a raiz do ensino. Piaget foi genial ao descobrir empiricamente como funciona o mecanismo de aprendizado, mas este construtivismo bastardo nada tem em comum, é falsidade contaminada de ideologia ignorante. E olha que nem entrei no Paulo Freire, uma jabuticaba nada doce, ideologia sem lógica, fazendo um desserviço ao ensino.

A cartilha funcionou e ainda funcionaria, pois a criança ao ser alfabetizada, já fala, ela não precisa recriar a estrutura da língua, é só ligar a fala aos símbolos gráficos, criança não é estúpida, entende a lógica da língua, aprendeu com o uso, só precisa entender a lógica da escrita que imita a fala, neste aspecto a cartilha é prática e faz o aluno ler rapidamente, é tão simples que permite seu uso por professores leigos. A cartilha explana de forma clara a lógica alfabética, silábica e fonética, foi substituída por algo que não funciona! Idéias bonitas sem uso prático, sem eficiência ou funcionalidade.

No ranking da estupidez do sistema de ensino está o desaparecimento dos cursos de magistério, que se focavam nas técnicas de alfabetização, e sua substituição pelo curso de pedagogia, mais direcionado para a administração escolar e extremamente falho na prática do letramento, que é a tarefa fundamental do professor primário. Por um suposto status universitário, supõe-se o curso de pedagogia superior ao de magistério, mas foram estas professoras, saídas do magistério que nos deram aulas e nos ensinaram a ler antes do primeiro ano terminar. Hoje você tem professoras com status universitário nas escolas primárias, mas estas não sabem alfabetizar, e o aluno sai deste ciclo sem domínio da leitura, muito menos desfrute da literatura.

Voltamos agora à nossa sala de aula, meus alunos já tem o domínio necessário da leitura, preciso de livros, não só com o conteúdo a ser ensinado, mas meus alunos precisam de livros para treinar a leitura, de forma prazerosa e lúdica, pois só assim vai desenvolver a habilidade, assim como a escrita. Quem lê invariavelmente irá escrever bem, pode não conhecer todas as regras gramáticas com seus nomes “científicos”, mas as conhece do seu uso, do uso culto da língua encontrado na literatura. Coitado do professor que se acha a única fonte de conhecimento e o despeja sobre o aluno, nada entende de educação. O aluno precisa ter acesso à fonte do conhecimento, que é o livro. Tudo está em livros!

O livro é e foi o grande democratizador do conhecimento, a prensa de Gutenberg trouxe a preocupação dos meios universitários com a difusão do conhecimento em livros, aqueles que quisessem aprender poderiam recorrer aos livros, sem freqüentar os bancos universitários, naquela época a educação universitária iniciava aos doze anos. Pode-se aprender apenas com livros, o professor é supérfluo; para divulgar conhecimento, o livro com QI de meia samambaia plástica é melhor que qualquer professor. O educador que se coloca nesta posição exclusiva de detentor do saber é um estúpido, como ser vivente e não papel inerte o professor deve poder muito mais.

Professor não aprende por aluno, já sabe, apenas ajuda, é um mero facilitador, um interlocutor qualificado. É esta interação que livro ou tablet não podem fazer, pois só o ser vivente, dotado de inteligência pode perpetrar tal tarefa. Não é pouca, cabe ao professor passar ao aluno a paixão pelo conhecimento, o desafio do aprendizado, manter acesa a curiosidade natural do homem em conhecer o mundo onde vive. De todo “roll” de professores que tive ao longo da vida, poucos se elevam ao panteão dos bons, aqueles que me inspiraram com sua paixão. Muitas vezes fiquei inclinado a pensar que professores são seres que nascem por geração espontânea, pois muitos parecem que nunca foram alunos, brotam professores sem passarem pelas salas de aula, livros, dúvidas ou a juventude. Esquecem ou nunca foram alunos, e assim não conseguem entender aquilo que um dia foram, e ficam sem compreender os alunos, viram mini-ditadores com o menor reino do mundo: a sala de aula. Se um professor tem autoridade, esta deriva exclusivamente de sua sabedoria e da lógica, não de sua autoridade ditatorial em sala de aula.

Esta educação é vista como um processo passivo, onde o aluno é uma peça que não importa, não influencia; muda de ano outro ocupa o mesmo banco e repete-se o mesmo ritual. É preciso acabar com a passividade do estudante, ele é peça ativa e deveria ser o mais interessado em sua própria educação. É o método estúpido de educação que torna alunos interessados, curiosos e ávidos a aprender em imbecis passivos em potencial. É esta mentalidade tacanha que aumenta o número de aulas inúteis, não permitindo ao estudante o espaço necessário para pensar sozinho e seguir seus próprios projetos e interesses. Eu e meus contemporâneos tivemos muito menos carga horária do que os estudantes atuais e nossa educação não foi inferior, muito ao contrário, pode-se traçar um gráfico e mostrar claramente que junto com o aumento da carga horária veio a derrocada da qualidade do ensino. Aí os educadores idiotas, pagos com dinheiro do governo, acham que precisa ocupar a já atribulada vida do estudante com mais tempo inútil em sala de aula. Não adianta aumentar o tempo, tem que melhorar a qualidade, e para isto precisamos de uma proposta mais inteligente, que conta com o aluno como parte ativa da educação. Além disto, precisamos de melhores professores.

A arte de educar já foi muito mais valorizada, com os professores ocupando local de destaque e sua devida importância na sociedade, nas últimas três ou quatro décadas vimos uma desmoralização da classe detonada principalmente pelos baixos salários e más condições de trabalho. Hoje ninguém que se preze e que tenha um mínimo de capacidade se presta ao ofício de professor, pode auferir melhores salários em qualquer outra atividade, existem pouquíssimos que ainda se mantém por amor à profissão, são minoria, discriminados mesmo dentro de seu próprio meio. O baixo salário fez com que se direcionassem para o magistério aqueles incapazes de ocupar melhores posições, infestam os quadros escolares públicos, estáveis, imutáveis, e contra qualquer melhoria salarial dependente de mérito. Infelizmente hoje não é uma questão de aumentar salários, pois não adianta premiar estes que nunca tiveram compromisso com a educação e só a praticam por conta da estabilidade no serviço público e a incapacidade de serem cobrados por resultados. Ao mesmo tempo não é possível atrair os jovens, pois o professor iniciante só tem vaga nas piores escolas, aquelas esquecidas do poder público, só lembradas na hora de mendigar por votos em uma eleição, e logo novamente esquecidas, abandonadas, largadas à própria sorte.

Não adianta aumentar os salários dos professores enquanto esta escumalha que marca o passo do atraso na educação ainda ocupa os lugares de quem quer ensinar, com inteligência, competência e habilidade. Qual professor minimamente comprometido não vê o absurdo acontecendo em sua escola? Faltas abonadas em detrimento dos alunos e todo tipo de falha de compromisso, sem contar a baixíssima habilidade dos professores. Posso entender que são mal remunerados, mas se aceitaram o trabalho é para fazer direito ou cair fora, os alunos são vítimas e não são os culpados dos baixos salários.

O professor desvalorizado na sociedade e desvalorizando-se por sua própria incompetência, aos olhos do aluno é um fracassado, incapaz de inspirar os estudantes e sem autoridade real para manter a menor disciplina em sala de aula. É este o professor que guia o ensino, o pivô central da educação, é fácil entender o motivo da péssima qualidade de ensino, só o comprometimento com a qualidade e excelência de todas as partes pode mudar este quadro, enquanto houver complacência com a mediocridade os alunos estão condenados à ignorância.

Ao mesmo tempo o construtivismo bastardo prega uma forma de nativismo educacional, afirmando que o aluno pode por si mesmo chegar às respostas de tudo sozinho. A humanidade levou aí uns três ou quaro mil anos para aprender o que ensinamos em sala, o aluno só dispõe de uma vida, não tem como dedicar-se como Darwin e Mendel, para aprender apenas uma ínfima parcela do que deve conhecer o homem moderno. O aluno deve apoiar-se nos gigantes que nos precederam e se possível ir além, reinventar a roda não é prático, e este nativismo povoado de estúpida boa intenção só leva ao atraso, nosso conhecimento é a herança de muitas gerações de pensadores, é de suprema estupidez pensar que o aluno dispondo de apenas uma vida possa recriar tudo; deve saber procurar, pesquisar e encontrar as respostas já encontradas e as criticar de forma lógica. Isto é ensino: herança e autonomia, diferente da doutrinação estúpida comum nas salas de aula.

Professores já pouco preparados e mal pagos encontram-se na guerra entre o construtivismo utópico Paulo Freiriano e a doutrinação vagabunda pura e simples. A inteligência ou a lógica não tem espaço nesta disputa.

Não adianta inserir uma ferramenta cara e poderosa em um sistema que já desperdiça seus recursos por orientar-se por ideologia estúpida. Os tablets, assim como todos os recursos já desperdiçados serão apenas mais dinheiro jogado fora, afundando mais a educação. É preciso pensar, pensar com lógica e inteligência as bases da educação.

A primeira pergunta é: Você acredita que este governo tenha qualquer compromisso verdadeiro com a educação? Se ainda acredita nesta baboseira vou mostrar como o descaso com a educação é evidente. Houve alguma medida efetiva de tentar melhorar a educação feita pelo MEC? Não! E olha que já são quase dez anos desta farsa, qual a dificuldade? O governo tem toda a base para aprovar o que quiser, se não aprova é por que não quer. Veja que absurdo esta copa que nada deixará além de dívidas, estão até mudando as leis brasileiras para acomodar os vagabundos da FIFA, gastando dinheiro público, que falta na educação, para uma entidade privada, veja a velocidade com que ocorre e as somas gastas. Não é revoltante? O que é mais prioritário para o Brasil, uma copa estúpida de futebol ou a melhoria da educação do país?

Vou lhe dar outro exemplo ainda mais vergonhoso, a constituição em seu texto proíbe o imposto sobre livros, e para garantir que o imposto não seja cobrado de forma indireta, também isenta os insumos destinados à produção dos livros. É uma medida para proteger a indústria do papel? Não! É uma medida para permitir a livre circulação de livros, veículo de educação e idéias, é esta livre circulação que nos caracteriza como democracia. Se o governo fosse a favor da educação já teria liberado o imposto sobre o livro eletrônico e seus insumos, ou o seja: o e-reader, necessário para a leitura eletrônica. Eles não precisam mudar leis no congresso, pois a lei já está na constituição, é só querer ser a favor da educação, em vez de priorizar a copa, que tal priorizar a educação? Este atraso mostra que os especialistas do governo, regiamente pagos, não querem a melhoria da educação do brasileiro, se quisermos que isto mude deveremos fazer pressão ativa, exigir o nosso direito que é sonegado pelo governo. Cobre, exija, é seu direito, e se conseguirmos vitória será por pressão, não pelo entendimento do governo que livro é educação, pois se este existisse, o livro eletrônico já estaria sem imposto.

Vamos voltar agora à nossa sala de aula, espero que muitos mitos que emperram nossa educação já tenham sido desfeitos, assim posso continuar minha aula e usar das novas tecnologias para ajudar o aluno. O que é um tablet? Nada mais que um simples computador, lembrem-se que as escolas já possuem esta peça de mobiliário e o motivo de ser chamado de PC (personal computer) é o de ser pessoal, é para o aluno ter o seu, ainda não temos, e as iniciativas educacionais usando o aparelho são pífias, alunos sabem usar redes sociais por iniciativa própria, mas ainda não usam a ferramenta com fins educacionais, ou seja, para buscar conhecimento de forma autônoma. Algo muda com o tablet? Talvez; se todo aluno tiver o seu, pois mais enfático que o computador de mesa o tablet é ainda mais pessoal. Pode mostrar vídeos, qual o grande conteúdo educacional que temos em vídeo? Pode rodar programas educacionais, quais são estes programas? Pode acessar a internet, se tivermos conexão para todos e soubermos o que procurar. Pode ler livros; pode? O nosso conhecimento vem de uma longa tradição, está nos livros, Newton não produziu vídeos, assim como o “A Origem das espécies” está em livro, os experimentos com ervilhas de Mendel foram esquecidos, mas recuperados do livro. O que o aluno precisa para educar-se minimamente está nos livros, e novamente afirmo: para isto o e-reader é melhor ferramenta. Para o aluno primário o tablet por suas características visuais e pictóricas pode ser mais útil que o e-reader, mas a partir da terceira série o aluno precisa ter contato com a literatura de forma lúdica, para treinar leitura, a ferramenta necessária para tirar o sentido dos textos usados para transmitir conhecimento.

É preciso entender os aparelhos por sua funcionalidade e não por mistificação ignorante, o tablet me é útil em sala de aula? Sim, posso indicar material de consulta na internet para o aluno, expandir o conceito de cultura, se souber usar. Ao outro lado quero que meus estudantes leiam, por prazer e para pesquisar, encontrar conteúdo, extrair significado, e para isto o e-reader é a ferramenta, quem tem um sabe, não dá para ler textos extensos e complexos no tablet, não é confortável, só quem rivaliza com o livro é o e-reader. Dizem que estes aparelhinhos são dedicados à leitura, são! Mas o livro também não é um aparelho dedicado à leitura? Uma aparelho totalmente dedicado à leitura de um único texto? Não é a leitura a habilidade fundamental que levamos dos bancos escolares? Quem é o analfabeto? Aquele que não sabe escrever nem ler, daí não se tira a importância da literatura? Não justifica-se um aparelho a ela dedicado? O governo já gasta fortunas todo ano com livros muito mais dedicados, de conteúdo ruim, sem possibilidade do aluno “trocar” de texto.

Se você já me seguiu até aqui, podemos ir adiante, pois é necessário desmascarar todas as bobagens educacionais antes que possamos usar de forma efetiva as novas tecnologias. Já pegou um livro didático moderno? Estes que os alunos usam? Já pousei a mão em vários, o teor é uma vergonha, são livros feitos por compiladores de conteúdo, sem um texto lógico que permita ao aluno seguir o raciocínio dos pensadores que fizeram as grandes descobertas; mesmo que o aluno queira estudar sério não pode pois estes livros não dão subsídio ao aprendizado consciente, apenas à estúpida memorização sem lógica, da mesma maneira que memoriza uma letra de música, sem entender memoriza a fórmula da gravidade, e daí? Entendeu? Tem como compreender o raciocínio de Newton? Como ver onde ele estava equivocado para chegar nas descobertas de Einstein?

Estes livros didáticos são descartáveis, o conteúdo é tão inútil que não podem ser guardados como livros para consulta futura, só servem para engordar uma máquina editorial viciada no dinheiro do governo e dos pais encurralados a pagar o preço extorsivo deste material infame, sem lógica ou utilidade na verdadeira educação consciente.

O uso de tablets implica na existência de material didático apropriado, mas este não existe, assim como inexistem livros didáticos modernos bem feitos, não adianta um tablet que pode tocar vídeos, áudio, interatividade, se o material educacional não existe. Mas viemos de uma longa tradição de material em livros, tudo necessário à boa educação está em livros, foi transmitido em livros, aprendemos em livros, já está pronta, só precisamos de acesso aos livros, e novamente: nada mais útil para isto que o e-reader.

Se vamos usar um tablet para educação precisamos ver suas características com olhar técnico, o que deve ter o aparelho para ser efetivamente usado nos meios educacionais? A primeira questão é a obsolescência programada, estes dispositivos não duram muito e logo já não rodam os programas que encontram-se por aí, o governo vai substituir os aparelhos anualmente? Provavelmente não, portanto precisamos de um aparelho pensado a dar continuidade no processo educacional independente da obsolescência de mercado, muitas vezes programada, para que o consumidor seja obrigado a gastar em um novo aparelho. É necessário definir um padrão, isto o governo ainda não fez e nem tem competência para tanto. É necessário que o aparelho tenha um teclado físico, pois o virtual não é funcional, mesmo no ipad; o aluno vai precisar digitar texto, pois não tem em casa um computador pessoal. O tablet deverá ser resistente, muito mais do que os existentes no mercado, estes aparelhinhos não vão durar meses na mão dos estudantes, também minimamente à prova de umidade.  Entradas e saídas padrão, ou seja, USB e SD. Bateria para agüentar todas as aulas e ainda o estudo em casa, ampla rede de manutenção, só para falar o básico. Você viu alguém falando sobre isso? Não? Então esta compra de tablets é apenas uma piada de mau gosto, e olha que nem estou falando do software e sistema operacional que já deve vir com o aparelho, além da conectividade com internet. Veja, há muito que pensar para acolher com eficiência estes aparelhinhos na sala de aula. É muito interessante o aluno ter estas funcionalidades, mas para a educação ser universal tudo deve estar à disposição do aluno carente. Já fui ativista dos livros, mas com os preços do papel não há quem possa ter este gasto, não importando o quão entusiasmado o aluno esteja, a ele os livros são proibidos, caros, fora de seu universo.

Em sala de aula, o que mais sinto, é a falta dos livros, eles são o material de consulta, a matéria prima da educação, sem eles não há muito o que fazer, nem da parte do professor, nem da parte do aluno que não pode educar-se se tiver um professor ruim. Às vezes comentamos entre nós que esta derrocada educacional não é casual, é causal, e entramos nas mais tresloucadas teorias conspiratórias, mas se fosse casual era de esperar ao longo dos anos alguma melhora mesmo que aleatória, não ocorre, no ensino todas as iniciativas fazem a qualidade despencar, sempre. Não consigo imaginar o grau de estupidez e incompetência para não conseguir uma melhora ao menos casual, é preciso muito esforço e gasto inútil para se conseguir ser tão ruim. Os pais que colocam os filhos em caríssimos colégios particulares também não estão protegidos da estupidez, pois a ideologia eqüina do MEC permeia todo o ensino, é preciso mudar, mudar com inteligência, pois se existe um pré-requisito básico em educação este é a inteligência. Burros não ensinam nada a não ser comer alfafa, capim ou o que tiver, seja com tablets, e-readers, lousas ou apenas bons professores, é preciso pensar a educação em suas bases, sem isto toda iniciativa está fadada ao fracasso, e nossos estudantes condenados à ignorância que afundará o país.

Alex

Crítica & Educação

No mundo contemporâneo, utilitarista ao extremo em seu aprimoramento de relações comerciais, crítica é sempre algo pejorativo, sinônimo de propaganda negativa; no mundo literário muito da crítica pode ser apenas classificada como propaganda, variando de positiva a negativa; falta-lhe o insumo básico do qual uma crítica verdadeira é constituída: argumento.

Propaganda vende verdades, mesmo que falsas, não se presta ao debate, nem a ouvir seus interlocutores. A crítica que camufla em suas palavras apenas propaganda é inútil, vazia; sem argumentos sólidos não diferencia-se do comercial mais vigarista de shampoo, infelizmente hoje grande parte da crítica é apenas isso. O que existe por aí, inadvertidamente chamado de crítica, fala da vida do autor, irrelevante para a obra, ou a colocação de suas idéias frente a teorias psicológicas ou ideários marxistas, pura embromação, deve-se ver o que está na obra em questão e não fora dela. É dos elementos existentes no texto que deve vir o argumento para a crítica, e a partir dele feitas comparações, com propriedade, não simples opiniões ignorantes. Para isto o crítico deve ter inteligência para uma leitura analítica do texto, percebendo suas características, que serão os argumentos de partida a uma análise séria.

Seria muito simples diferenciar a verdadeira crítica da propaganda disfarçada, se não houvessem truques dialéticos e relativismo barato, tentando mimetizar a argumentação lógica. Muitos ainda diriam que a razão, exercitada pela lógica, não é definitiva nos argumentos, pois existem condições emocionais e místicas que não pertencem aos domínios da razão. O homem é racional, os animais irracionais, quem sabe mais talhados à poesia, providos do seu raciocínio não lógico. Não! Esta poesia que se furta à análise não é coisa do gênio humano, apenas resquício do instinto animal, ou mais uma forma de ludibrio. O misticismo furta-se ao debate, prefere o conforto do obscurantismo, também um dos esconderijos dos incompetentes.

Usam crítica para fazer propaganda, como ferramenta de doutrinação ao invés de educação, a isto não se deve considerar verdadeira crítica, pois a matéria real fomenta a educação, não a vigarice embutida na doutrinação. É fornecendo argumentos que podemos avaliar uma obra, colocando-as lado a lado com o passado histórico da arte e da literatura. É ao leitor que nosso argumento deve ser exposto, comentado, deixando a ele um julgamento consciente para avaliar nosso veredicto, não deve o leitor acreditar em tudo que lê se a pertinência dos argumentos inexiste. A boa crítica educa autor e leitor, enriquecendo a arte, já a doutrinação, sem argumentação fundada na base lógica, se presta apenas a objetivos escusos que sempre diminuem o que pode ser chamado arte.

É sobre os argumentos que se processa o debate, é tarefa dos críticos extrair da obra usando de olho treinado, os elementos que constituem a arte do autor, e apresenta-los ao leitor. É sempre sobre os argumentos que se processa qualquer embate verdadeiro de idéias; deve-se ficar atento aos que fogem do argumento, com receio de ver seu engodo exposto, nada de bom tem a contribuir, apenas tentam uma doutrinação estúpida.

Aprenda a ver a crítica pela pertinência de seus argumentos, verá aí um caminho virtuoso, pavimentado de lógica para chegar à transitória razão. Crítica não é positiva ou negativa, é sobretudo pertinente e verdadeira, e se assim feita, fomenta a educação.

Alex

Educação, Computadores, E-readers e a Vida Contemporânea

Dias passam, semanas, meses e anos e tudo que vemos é a ruína progressiva do nosso sistema educacional, no intuito de evitar o inevitável, colocamos nossos filhos em escolas particulares, pagamos caro, muitas vezes com sacrifício, mas a derrocada não é exclusividade do sistema público, atinge todo o ensino, mesmo o particular, de forma mais lenta. Há algo de muito errado em nossa escola e universidades.

O cotidiano é que faz esta percepção mais evidente, o ensino vem a séculos no mesmo trilho, é o mundo moderno tão rápido e dinâmico que agora se choca com os antigos ideais escolares. Em tempos passados o acesso a informação não era tão simples, hoje qualquer um com um celular conectado pode encontrar a informação mais complicada nas páginas da web, da mesma maneira como se carregasse o livro abaixo do braço o tempo todo, com a grande diferença que este livro contém toda a informação do conhecimento mundial.

É imperativo salientar que muito do tempo gasto nos bancos escolares e no conseqüente estudo caseiro é dedicado à simples e estúpida tarefa da memorização, conteúdo que será vomitado momentos mais tarde em uma prova que exige apenas isto do aluno. É um modelo viciado, ineficaz, que as páginas dos mecanismos de busca tornaram completamente obsoleto.

Hoje mais do que nunca, o que diferencia as pessoas não é a quantidade de informação que acumulam, mas como processam seus conteúdos. Tive um professor de matemática que dizia: “memorizar é tarefa que qualquer folha de papel faz melhor que o ser humano, mesmo tendo o QI de meia samambaia plástica”. Não ouso discordar, é a mais profunda realidade, por mais que decoradores de lista telefônica possam ser inteligentes de salão, declamando tudo de forma maquinal, ficaram obsoletos diante da rede; é a pessoa que sabe tirar sentido, pensar criticamente e operacionalizar os conteúdos que faz a diferença.

Os computadores invadem as escolas, em vez de usarmos o seu grande potencial, usamo-los como propagandas pirotécnicas com propostas educacionais medíocres, joguinhos coloridos e barulhentos para fazer o mesmo que os cansados professores não deveriam. E eis a grande realidade, computadores são meras ferramentas, se não souber como usa-los para educação efetiva, não só não vão auxiliar como vão atrapalhar. Às vezes pergunto a um aluno o motivo de algo, e com freqüência a resposta que recebo é: “ isto é assim pois o professor disse que é assim…”, não há crítica, nem pensamento a elaborar uma resposta lógica, a fala do professor foi o único material de consulta, aceito de forma passiva sem qualquer processamento, upload do professor e download do aluno, atividade que o computador QI de meia samambaia plástica faz melhor que nós.

As crianças hoje ficam cinco a seis horas diárias na sala de aula, se perguntar o que descobriram não saberão dizer, divagaram, conversaram com colegas, tudo menos envolver-se com os conteúdos propostos pelo professor, não é para menos, muitos alunos entram mudos e saem calados, muitos professores não gostam de perguntas, outros ainda, entram, enchem um quadro negro, os alunos copiam em seus cadernos e a aula termina. Que me condene ao fogo eterno quem nunca viu isto acontecer. Comum? Sim! Correto? Nunca!

Os meios informáticos são benção ou maldição, ainda ontem vi professores fazendo abaixo assinado para não usar tablets nas escolas, pois os alunos sabiam utilizar estes aparelhos melhor que seus professores. Isto é atitude de um mestre? Nas escolas mais preparadas o aluno terá um livro didático para auxiliá-lo, é a informação lá contida que será toda sua fonte. Os tais livros didáticos são derivações de conteúdo, quando passamos a aprender de maneira correta sempre nos foi ensinado a ir à fonte original, está longe do livro didático que na maioria das vezes estripa toda a lógica dos raciocínios, apresentando conteúdo sem sentido racional, na melhor das hipóteses só serve para ser decorado. O e-reader permite a biblioteca na ponta dos dedos com uma grande variedade de textos, todos originais e em domínio público, a física de colégio tem apenas trezentos anos… Qual o motivo dos livros didáticos serem atualizados anualmente se o conteúdo não muda em décadas? Lógico, fomentar a venda do livro didático, o maior mercado editorial do Brasil. Assim o irmão mais novo terá que comprar novos livros, não poderá usar o do mais velho, apesar do conteúdo não ser diferente dos livros utilizados por seus pais.

Tablet ou e-reader? O e-reader permite ler por períodos prolongados sem cansar a vista, é análogo ao papel utilizado por anos, pode portar os livros de leitura e textos de estudo, mas não é colorido e não mostra vídeos, coisa que o tablet faz tão bem. Qual motivo de não ter todas as aulas do ano já gravadas em vídeo? Existem professores que ano após ano entram em sala e falam as exatas mesmas coisas, tem até bons, quem duvidar do que digo, ouça uma aula gravada a muito tempo de um tal Feynman, intitulada “Lectures on Physics”, mestral e ainda atual e útil. Não gostou de um professor? Pode ter seis versões da mesma aula com professores diferentes para assistir quando tiver atenção e não no primeiro horário da manhã ainda com sono. Sim, o tablet tem vantagens, mas não tem teclado e portanto pode ser substituído pelo laptop, mas não há o que substitua o e-reader, sem ele conteúdos mais complexos que exigem leitura intensa do aluno não podem ser acessados. A escolha cai para laptop e e-reader em conjunto.

E agora? O que sobra para os professores fazerem? O que sempre deveriam ter feito, conversar com os alunos, responder perguntas, contamina-los com o prazer pelo conhecimento, partilhar esta paixão. O computador, o tablet e o e-reader com QI de meia samambaia plástica não podem substituir o professor, deve fazer o que estes dispositivos nunca poderão, nunca reduzir-se a mera máquina. Assim teremos bom ensino, estimulante para professores e alunos.

Alex

Ler é Bom?

Está aí uma pergunta que um leitor já sabe a reposta sem pensar muito, ler não é apenas bom ou conveniente, é ótimo. Filme, teatro, videogame, nada se compara ao livro, é mais vivo, envolvente, uma experiência mais intensa, muito mais intensa que outras formas de contar estórias, supera o próprio contador de estórias; quem conseguiria sentar ao lado do Sr. Tolstoi e ouvir todo o Guerra e Paz? O livro é uma ligação direta da cabeça do autor com o leitor, não tem limitação, podemos ver seus pensamentos se assim o deixar, ser enganados por visão falsa, caminhar na lua ou viver no fundo dos oceanos.

Se a resposta é óbvia, qual o motivo da pergunta? Muita gente começou na trilha dos livros pelo caminho errado, lendo por obrigação não por prazer, culpa do nosso currículo escolar impróprio aos jovens, quase todos os clássicos brasileiros são péssima escolha para os iniciantes, não conseguem conversar com leitores de pouca idade ou experiência, resultando em preconceito, ler é tarefa chata, ruim e obrigatória; não acredito que haja pior crime cometido pela educação, este preconceito vai assombrar o aluno pelo resto de seus dias, tornando-o impermeável a todo o universo literário.

Ler não é algo inato encontrado em nossos genes, é preciso aprender a ler, o significado das letras, sílabas e palavras, frases e inflexões, não é simples. Mesmo depois que aprendemos o básico ainda não somos bons leitores, é preciso treino, prática de leitura recheada de muito prazer, só assim poderá o aluno familiarizar-se com a leitura e receber esta incrível dádiva deixada por milhares de autores ao redor do mundo. Ler é bom quando o assunto nos interessa, não existem gostos universais, assim, é absolutamente necessário deixar o leitor jovem escolher seus temas, um livro técnico sobre dinossauros pode ser delicioso na mão de quem gosta do assunto, penoso nas mãos de quem não se interessa.

Só é necessário um livro, um único livro, lido e apreciado,em meu caso foi junto do capitão Nemo que me apaixonei pela leitura, lembro até hoje o momento, foi em uma aula de biblioteca de escola pública; estantes com livros divididos por série, carpete no chão e muitas almofadas, na estante da primeira série estavam os livros “próprios” para nossa idade, fininhos, cheios de patinhos amarelinhos, irk! Aquilo não me interessou, em outra estante tinha algo muito mais interessante, um polvo gigantesco brigando com três homens, era aquele que eu queria ler, não adiantava querer me empurrar o livro dos patinhos, aquilo não interessava a um garoto que brincava na rua. A professora não concordou, mas fizemos um trato, se eu lesse A Vaca Voadora, depois poderia ler o outro livro. O livro da vaca era engraçadinho, li em dupla como era o protocolo, eu e meu amigo Ciro, fizemos o trabalho, próxima parada: Julio Verne, não consegui me conter, pedi a meu pai que comprasse o livro, não sabia mas era o original, muito melhor que a versão recontada que líamos na biblioteca acarpetada. Finda a estória ficamos com gosto de quero mais, partimos para uma viagem à lua e depois para as profundezas da terra.

Através da leitura tive inúmeras aventuras, para quem gosta de ler o livro sempre supera o filme da mesma estória, não há comparação possível, assim, se um filme é baseado em livro, quase sempre leio antes, a experiência é milhares de vezes mais intensa. Afirmo categoricamente, ler é muito melhor que assistir um filme. Foi pela leitura que escalei as montanhas dos alpes com Lionel Terray, mesmo com seu pai dizendo que não encontraria lá no topo uma nota de cem francos; estive presente ao lado do capitão Slocum enquanto passava mal com queijos que comera, deixava o leme de sua embarcação nas mãos de um dos competentes marinheiros de Colombo; vagueei por Londres na companhia de Watson e me maravilhei com as magníficas faculdades dedutivas de nosso amigo Holmes; acompanhei um dia arquetipicamente heróico com o jovem Stephen Dedalus e o Sr. Bloom e ainda vi nas terras russas homens em paz procurarem a excitação da guerra e na guerra almejarem a quietude da paz; junto ao jovem Harry me maravilhei com o mundo da magia invisível aos lesados(muggles). Quem não lê será sempre um lesado, incapaz de ver a magia dos livros.

Alex