Língua e literatura na era eletrônica.

 

A linguagem surgiu, cresceu e evoluiu com o homem, é viva por nós, e por nós muda e evolui, é ferramenta para um fim, não vive por si mas vive para nós. É importante pensar a língua, seus usos e sua capacidade, mas infelizmente muita mudança não é feita de forma racional, e sem que queiramos ou nos damos conta existem certos consensos no uso da língua que espalham e contaminam sem que sejam pensados ou benéficos. É inegável a influência do suporte na forma da língua e sua capacidade de comunicação, imaginem se ainda usássemos “tablets” de argila para escrever caracteres cuneiformes, grande parte da evolução social que conhecemos nunca aconteceria, como seria carregar um livro de oitocentas páginas de argila? O livro deixou o papel e agora é mais leve e prático no meio eletrônico, é inegável que haverá mudanças, mas cabe a nós verificar a verdadeira capacidade do meio digital para que a língua e literatura cresçam e não diminuam perante o passado que já tivemos.

Por falta de pensar a língua está espalhando-se uma versão capenga e mutilada que diz-se dominante por pura ignorância, ela é a versão contida nos manuais de redação e (falta de) estilo. As frases complexas compostas por subordinativos ou coordenativos, as vírgulas e definitivamente os ponto e vírgula, são recursos proscritos, e isso quando pretende-se comunicar assuntos complexos que tem diversas instâncias e vários níveis de hierarquia impossibilita a composição textual; desta maneira, o texto escrito que tem a propriedade de educar, pois pode conter assuntos em profundidade é sabotado, permitindo em sua versão mutilada expressar apenas assuntos simples ou a simplicidade leviana que mediocriza os assuntos complexos impedindo definitivamente qualquer possibilidade de real compreensão. O uso desta língua deturpada que já é norma em jornais e revistas de grande circulação tem dois efeitos: o primeiro é tornar levianos todos os assuntos que aborda uma vez que não pode aprofundar-se, antigamente liam jornais as pessoas que queriam ter um conhecimento mais profundo, hoje o conteúdo de jornais e telejornais é idêntico, com vantagens ao telejornal por ser mais rápido e atualizado; o segundo efeito diz respeito à educação do leitor, antes o jornal era uma iniciação do leitor na escrita complexa, assim ao encarar um texto de Machado de Assis o fosso não é tão grande, mas hoje com a escrita pobre dominando tudo, o leitor só encontrará alguma dificuldade nos livros, e a tarefa pode ser tão desafiadora que fará um leitor muito primário desistir. Evitar o uso da língua aleijada é uma espécie de “pièce de résistance” para não sucumbir à mediocridade geral, pode não parecer, mas muita gente bem educada e de vasta cultura, ao ler em computadores e tablets, sem perceber acabada desistindo ao meio de um texto mais exigente por cansaço, não percebem que é o meio que induz a esta imbecilidade programada; computadores e tablets não se prestam a literaturas complexas, não permitem atingir o nível de concentração necessário para decodificar estes textos, e assim, sem sequer perceber o leitor torna-se mais burro, incapaz. Talvez por isso muitos mantenham o hábito do papel, como nunca entenderam no meio eletrônico a diferença fundamental do e-reader e-ink para as outras mídias.

Existe um consenso dominante errado de que o leitor não deve ser desafiado, muito disto vem do reino da propaganda, onde um texto deve atingir o maior público possível, isto talvez o valha para quem quer vender limpadores de privada, mas é um tipo de texto que menospreza o leitor, pois considera o menor denominador comum e assim diminui o padrão de toda leitura, mas escrever é comunica-se, e dependendo do assunto, a quem se dirige o texto ou sua função, esta simplificação obrigatória é simplesmente ridícula; com isso o texto perde a função de educar o leitor, expandir seus horizontes e a capacidade de articulação lógica. As pessoas não percebem o quanto este uso de textos obrigatoriamente simplificados é degradante para a leitura, para os assuntos tratados e para o próprio poder de raciocínio. É um verdadeiro veneno que extermina todos os níveis da cultura.

Aprender e desenvolver-se exige esforço por parte do leitor, não é possível ensinar sem desafiar o leitor, esforço não é necessariamente uma coisa ruim, muito ao contrário, assim como aprender, mas nos focamos em tamanha passividade por parte de leitores que cobrar um mínimo de esforço parece heresia, há esforço prazeroso, há desafios que trazem recompensa, e o aprendizado é um deles. Desta maneira em vez de escrever para aqueles que são tão vagabundos que abandonam um texto a meio caso este lhes ofereça qualquer desafio, o melhor é focar nos objetivos mais altos, pois quem ler o texto sai ganhando e temos leitores que valem a pena. E aí vem um imbecilzinho preguiçoso nos acusar de elitistas por não sermos condescendentes e desprezarmos a capacidade cognitiva de nossos leitores, oferecendo-lhes um texto que ao desafia-los os fará crescer; cabe aqui acabarmos esta mistificação grosseira: procure por aí os textos dos fabricantes de relógios que custam o preço de carros e carros que custam o preço de casas, verá que quem evidentemente produz itens para uma elite que pode dar-se ao luxo de pagar por objetos de status não usa textos complexos, muito ao contrário, são simplórios, portanto, onde está o tal texto “elitista”? Tudo isso para mascarar que a grande cultura humana hoje está gratuita a quem dispuser-se a ler, se a dois séculos foi um item de diferenciação de classes por conta do acesso restrito, hoje não é mais, assim acusar de elitista é imbecilidade a não ser que se refira a uma elite pensante, mas pensar ainda é de graça. Muito do que pensam é errado, escrever usando todo o potencial da língua não é um fator de exclusão, muito ao contrário, é a verdadeira inclusão, mas o leitor precisa fazer o esforço de desafiar-se para ser incluído. Um texto ruim exclui sem possibilidade oposta, pois mesmo que o leitor suceda na leitura está excluído, pois nunca oferece a oportunidade de crescimento.

Até aqui falei apenas de textos predominantes em jornais e revistas que ao optarem pela simplificação da língua perdem sua capacidade de tratar de assuntos com a complexidade merecida e assim falham em informar corretamente e formar o leitor. Mas e a literatura? Aí o caso é ainda mais grave: literatura antes de mais nada é arte, diria ainda uma das mais difíceis pois não tem guias, o artista que enveredar por esta modalidade terá que criar seu próprio caminho, as regras da gramática são paupérrimas perto de toda diversidade encontrada na literatura, que às vezes a desafia frontalmente e sai ganhando esplendorosa. Literatura aprende-se lendo, é uma vivência, só se aprende fazendo, não adianta, não existe outro caminho, e justamente por este particular fabricamos monstros estranhos: pegue um garoto nos seus dezessete anos e o enfie em um curso de letras, qual sua vivência como leitor? A maioria nenhuma, e aí o encha de livros aos quais deverá fazer uma “leitura técnica” como preconizam seus mestres, o garoto que não viveu a literatura agora vai ver o texto de forma mecânica ou ideológica, resultado depois de quatro anos de faculdade: alguém que não lê mais por prazer pois não teve tempo, quatro anos é muito pouco para tantos livros, mas ganhou o título de especialista em literatura. Especialista em quê, se não teve tempo de ler? Esse garoto agora com uns vinte e um anos vai ensinar língua e literatura… Já viram o desastre, não? É o que vemos hoje, mas tem lados piores, o rapaz em vez de ensinar nas escolas escolhe a vida acadêmica e vai ser um crítico literário: o pobre menino que não teve sua vivência com os livros vai agora falar sobre livros, não do ponto de vista do leitor, mas com os estudos acadêmicos que não interessam a ninguém que não sejam seus pares; resultado: ao encontrar o livro bem escrito mas sem experimentalismos inúteis vai logo taxa-lo de: “romanesco” em tom pejorativo, e se lhe cair em mãos um texto de Machado sem a assinatura do autor dirá que não é grande coisa, mas irá elogiar vilipendiando os adjetivos quando encontrar um texto experimental e ruim que não diz nada, não quer dizer nada, nem pode ser compreendido, o ápice do nada com a coisa nenhuma, a arte do nada!

A grande estupidez no meio acadêmico ou pseudo-acadêmico, é que não conseguem mensurar a extensão de sua ignorância, criando um universo analítico que tal como a taxonomia vê o livro não como vivo, mas como peça morta a ser dissecada, a verdade é que o todo é maior que as partes; leia uma análise semiológica, ela parece com um livro da mesma maneira que a descrição taxonômica de um gato parece com o animal vivo, a academia é muito boa em guardar o passado, mas inútil na criação artística. O viés cientificista é a causa desta cegueira, primeiro e mais importante: cientificismo não é ciência, é seu uso ignorante, pois a ciência dá conta do que são as coisas. A ciência observa o que é, a arte cria o que será; ciência é observação, arte criação. Desta maneira um acadêmico ao taxar algo de romanesco repete os mesmos preconceitos dos românticos ao criticar a literatura clássica, o modernismo ficou velho e o pós-modernismo ao desvencilhar-se da estética trouxe um viés ideológico que fez da não arte uma arte, assim tudo passa a ser arte e ao mesmo tempo nada mais é, não existe arte pós-modernista, pois criou-se uma falta de conceito, cabe ao observador ou leitor ter conceitos e decidir o que é arte, pós-modernismo em essência é o sofismo moderno, o discurso vazio, o relativismo, e ninguém representa melhor isso que o meio acadêmico, pois o que era para ser o ápice do conhecimento tornou-se uma panelinha de relativistas inúteis, apodrecidos e preocupados apenas com seus próprios salários em vez de seus objetos de estudo.

A maior prova da impotência acadêmica na literatura é que a maioria dos bons escritores não vem de seus quadros, um leitor bronco mas não ignorante como o Faulkner é infinitamente mais capaz que a maioria acadêmica, é da realidade da escrita e da leitura. Escrever é a arte do ilusionismo com palavras, o leitor percebe o efeito mas não vê a mecânica, que na realidade é um conjunto de truques simples, por isso a maioria dos escritores não fala dos próprios escritos, por isso que não há manual. O escritor é um mágico que não gosta de revelar seus truques. Antes de estudar a literatura como um peixe morto é necessária vivência, deixar-se maravilhar com os truques dos vários autores, ver o texto vivo antes de partir para a dissecção, por isso criamos monstros deformados, os estudiosos nunca foram leitores, e sem ler não vêem o efeito das ilusões que formam o cerne da criação literária; o leitor vê o efeito sem conhecer o truque, o acadêmico procura o truque sem saber qual é o efeito. E assim criou-se todas essas distorções que vemos por aí, gente que louva textos ineficientes, sem efeito, trejeitosos e inúteis. Assim prospera uma literatura contemporânea estéril, inútil e enfadonha, que não cativa leitores nem cria nada de bom. Aposto mais na literatura taxada pejorativamente de entretenimento, pois há mais chances de ver real arte aí do que no lixo propagandeado pela crítica acadêmica.

Voltemos novamente ao meio, talvez por conta da influência de jornais e revistas ou pela escrita pobre de massa dos textos de propaganda, gerou-se um consenso não pensado onde o meio eletrônico só comporta textos curtos e linguagem simplória, lógico que em serviços como o twitter que limita as mensagens a grunhidos de poucos caracteres, é impossível, mas não é a realidade eletrônica, aliás, muito ao contrário, antes um livro de muitas páginas era difícil de ser impresso pois custava mais, livros comerciais eram sempre limitados a duzentas ou trezentas páginas, mais que isso só se já fosse um “bestseller” de venda garantida, caso contrário a publicação seria muito cara, no meio eletrônico não existe esta diferença, um ebook pode ter qualquer extensão que é replicado com o mesmo custo, isso é um ganho! Uma expansão da capacidade que tínhamos antes. Um texto de internet deve ser curto e de linguagem simples para que os leitores não desistam, por que focar-se em escrever um texto para quem não lê em vez de fazer ao contrário, escrever para os que lêem, tem capacidade ou não tem preguiça? Se não se está vendendo porcaria, mas se quer ter um diálogo de alto nível, não faz sentido escrever para os idiotas que não lêem. A língua em nosso cotidiano tem também a função de formar as estruturas lógicas do pensamento humano, foi analisando a conversa de crianças que Piaget percebeu que a estrutura lógica da língua induz ao pensamento complexo, se em crianças de seis anos as formulações lógicas são menos freqüentes e muitas vezes inconscientes, em garotos maiores há mais freqüência no uso lógico da língua, e sem esta vivência não há o desenvolvimento mental. Ao aleijar a língua evitamos que as pessoas treinem o intelecto e impossibilitamos o surgimento dos raciocínios complexos. O uso pobre da língua inviabiliza o pensamento complexo e mais que um estilo ou moda, induz à pobreza de pensamento, e isso reflete-se em toda cultura e vida social, é por este motivo que as visões dicotômicas e ignorantes imperam em nossa sociedade, pois qualquer complexidade além da imbecilidade binária, não tem capacidade de ser processada, todo assunto complexo que envolve mais de dois lados torna-se um problema insolúvel. Veja o uso de uma dessas simplificações ignorantes: em uma democracia todos temos direito à voz, liberdade de expressão, assim todos temos direito a uma opinião, seja ela verdade ou mentira, certa ou errada, mas tende-se a usar o “direito à opinião” como justificativa para cassar o direito de expressão do outro no caso de que discorde de nossa opinião, assim como alguém tem direito a dar uma opinião, esta opinião não impede o outro de manifestar-se contra, pois ele tem a mesma liberdade de expressão; é assim que funciona a argumentação, uma opinião recebe uma contra-opinião, um argumento recebe um contra-argumento, esta é a liberdade democrática. Quem não gosta de argumentação pois tem argumentos ruins tende a querer usar a opinião como direito de caçar a liberdade de expressão. Complicado? Não muito, mas é mais simplório dizer que “todos tem direito a uma opinião”, que é uma simplificação grosseira e que esconde a realidade do direito democrático.

Literatura é tudo menos simples, muito ao contrário, é justamente a diversidade e sua complexidade que faz sua riqueza, assim, veja como esta estrutura lingüística mutilada é derrogatória da apreciação artística da literatura que não cabe em qualquer dicotomia imbecilizante, um Hemingway não está acima de um Shakespeare, nem abaixo; é a existência de Faulkner, Cervantes, Goethe, Virginia Woolf, Defoe, Chaucer, Sterne, Conrad, Byron, Yates, Shelley, Walt Whitman, Chekov, Machado, Kafka entre muitos que faz da literatura a potência que é. E nenhum autor é uma unanimidade, veja Joyce em Ulysses e em Finnegans Wake, o primeiro foi ao limite, o segundo passou do limite, criou uma obra mutilada que perdeu o foco do leitor e empobreceu-se na língua, a soma de suas partes ficou menor que o todo. Imagine o quanto deste universo o garotinho estudante de letras já teve tempo de apreciar, quase nada, não há curso de quatro anos que substitua uma vida de leitura. Por isso a impotência acadêmica na literatura é tão gritante.

Ler, como tudo que vale a pena na vida, exige certo esforço, fazer um texto para preguiçosos que não querem ter o mínimo de esforço é escrever inutilidades, banalidades nunca farão ninguém crescer, cada grande autor criou o seu jeito de escrever, não é só questão de estilo, pois bom ou ruim todos tem um, o escritor artista criou um jeito que funciona, expande as possibilidades da linguagem para contar suas estórias, por isso cada novo autor é um novo aprendizado, um novo esforço e um novo universo expressivo, é assim que se cresce. Quem não consegue ler um bom autor confunde o ruim com o bom, não tem capacidade de diferenciar um do outro, por isso a literatura contemporânea é tão cheia de embusteiros, escritores incompetentes que mascaram sua ruindade com experimentalismo vazio.

O meio eletrônico traz novas possibilidades para a literatura, é preciso ver sua real capacidade e descartar os consensos ignorantes que mutilam a língua e os seres humanos, a literatura será o que faremos dela, é preciso conhecer a arte dos grandes homens, por prazer, criando assim a apreciação artística e o domínio da língua, seja no papel ou no e-reader e-ink mais acessível e democrático; depois de viver ler é a experiência mais próxima, vivemos uma vida, mas através da literatura vivemos milhares.

Alex

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O E-book é uma Festa

Anos vinte, Paris, artistas e escritores convergem para a capital cultural do mundo, alguns para passar uns meses, outros já planejam anos, muitos a vida. As ruas sempre vivas da cidade fervilham de gente, de todos os níveis, de todo mundo; artistas maduros, aprendizes, jornalistas, escritores, curiosos, deslumbrados, moradores e turistas encontram-se nos cafés, restaurantes, praças e museus da cidade. Almas libertas fugindo da incompreensão de suas províncias natais, jovens em busca de sonhos, dirigem-se para aquele local específico, em busca de inspiração, interlocução. Dizem que se você viveu naquele meio, ele nunca mais te larga, viaja contigo, é uma festa móvel, acompanhando-te para onde for, plantando sementes em seu caminho que espalharão o espírito da cidade mais cosmopolita de seu tempo.

Construtores, pintores, atores, autores, poetas, jornalistas, golpistas, bêbados, encontram-se nos cafés, conversam, trocam idéias, conhecem grandes artistas, grandes pessoas, e os que conseguem ao mesmo tempo serem artistas e pessoas; o mestre encontra o aprendiz e logo estão trocando impressões do mundo, usando dos recursos da cidade para criar: os momentos de solidão necessários ao trabalho, os passeios pelas belas paisagens da cidade e o encontro com pessoas diversas vindas dos mais distantes cantos do globo. Do mais humilde ao mais rico, do miserável de espírito ao pobre de dinheiro, todos tinham acesso à cultura, naquele meio ela entrava em ti junto com o ar que respirava, não importando se estivesse ou não interessado, estar em Paris era uma educação compulsória, poderia não saber ler, mas conhecia o nome dos poetas e talvez ouvisse seus versos, muitas vezes do lábio do portador da pena que os escreveu.

Foi uma época mais simples, tempos mais ingênuos, onde o homem ainda ousava sonhar, vivia-se com pouco dinheiro, o mínimo do conforto, mas banhado em arte, paixão, vida. Mais do que nunca as pessoas estavam vivas, apreciando todos os momentos, independente de suas posses, vivia-se ao máximo em Paris, um modesto e honesto vinho nos bancos do jardim de Luxemburgo era mais saboroso que os caríssimos em um grande restaurante, a cidade pulsava com os que a sabiam apreciar.

Livros eram lidos, devorados, aos montes; discutidos, apreciados, criticados, cultivados. Mas não se engane, os habitantes não tinham enormes bibliotecas pessoais, quem estava de passagem não podia comprometer-se com o peso de alguns livros, não eram carregados nas bagagens, mas sim na memória, eram emprestados em bibliotecas particulares, para serem devolvidos e novamente lidos por milhares, o mesmo exemplar passou pelas mãos de Hemingway, Joyce, Fitzgerald e muitos outros, conhecidos e desconhecidos. Livros estrangeiros chegavam à cidade trazidos por viajantes que os esqueciam em seus quartos de hotéis e eram vendidos pelos funcionários da limpeza, para ter alguns francos a mais.

Não era barato viajar a Paris, mas o que a cidade tinha a oferecer, valia mais do que o dinheiro gasto com as passagens, para aqueles que buscavam a vida da cultura. O e-reader ainda não é barato, mas para quem gosta de ler, seu preço vale mais que a passagem, ele lhe permite viver a literatura mais intensamente. Quem hoje tem no Brasil um e-reader, o tem pois quer mais da literatura, já leitor ávido não deixou-se engessar com o estúpido fetiche do papel, são as palavras do livro que importam, não sua materialidade, pois só se leva aquilo que deixou do livro entrar em ti. O aparelhinho encarna o espírito, sem o peso do papel, os livros ainda são os mesmos da velha Paris, ou os novos do mundo inteiro, ainda livros, ainda palavras.

Alex

A Pequena Estória do Conto

Na escola peguei certa birra com o gênero conto, professores nos impingiram vários volumes da famigerada coleção “Para Gostar de Ler”, que todos nós alunos apelidávamos de: “Para odiar ler”; muitos irão contestar-me, não existe o “gênero conto”, pois conto significa apenas uma estória curta, contos de Tolstoi tem mais de duas centenas de páginas, outros contistas nem meia, gênero bem difícil de catalogar; mas posso afirmar, no Brasil, o conto virou um gênero, pois na categoria não há humor, policial, ficção científica, fantasia, é apenas o gênero conto. Stanislaw Ponte Preta escrevia estórias curtas, eram contos, mas desta maneira não eram chamados, assim como outros que também gosto: Conan Doyle, Poe, Lovecraft. Não sei quando este gênero conto brasileiro iniciou, mas era a definição de conto da escola e ainda hoje é o estereótipo predominante.

O conto já foi apenas a imprecisa definição de uma estória curta, com a explosão das revistas no século dezoito e dezenove, o espaço nas publicações para estórias curtas foi grande e serviu para início de carreira para muitos grandes escritores. A estória curta era o entretenimento dos periódicos e logo publicações especializadas apenas em estórias curtas proliferaram, eram estórias para se ler em “uma sentada”. Existiram publicações especializadas em estórias curtas de vários gêneros, sci-fi, policial, estórias românticas, até revistas especializadas em “contos literários”, algumas de muito prestígio, promovendo novos autores antes desconhecidos do grande público.

Com o tempo as estórias curtas foram desaparecendo, havia mais opções de entretenimento, o papel foi encarecendo, as matérias jornalísticas encolhendo em palavras profundidade e conteúdo, o espaço da estória curta desapareceu, restando quase que apenas o conto literário já estereotipado e a estória pornô.

É difícil saber se a explosão do conto deu-se pelo espaço dado à estória curta ou à profusão de autores, mas, eis que agora, com o e-reader, a fôrma literária embutida no papel desvaneceu, o meio eletrônico aceita sem preconceito todo tamanho de texto, de uma a milhares de páginas sem o aumento do custo de impressão, distribuição e toda cadeia física que a diferencia do papel, mas com o conforto e intimidade da leitura em papel.

O conto é uma grande fonte de entretenimento, por seu limitado tamanho pode encaixar-se nos momentos do dia roubados dos afazeres cotidianos, acho que está na hora das pequenas estórias policiais, ficção científica, fantasia e muitos outros gêneros que não seja apenas o conto brasileiro voltarem a circular, só é preciso quem as escreva com um mínimo de habilidade. É um formato difícil, exige do autor concisão e consciência, é um treino ideal para as grandes estórias.

Alex

Forma e Função

A grande diferença entre e-reader e tablet é sua tela, enquanto o primeiro utiliza e-ink onde a luz ambiente é refletida em uma imagem estática, o outro utiliza uma tela retro-iluminada com a imagem piscando em alta velocidade. Para o leitor assíduo de livros este pequeno detalhe traz aos aparelhos funcionalidades completamente distintas. Quem gosta de ler e já manuseou um e-reader, não viu diferença entre o aparelho e o livro, é tão díspar quanto uma edição em papel é de outra. Particularidade que passa despercebida a quem nunca usou o aparelho.

Departamentos de marketing ficam pensando em como colocar traquitanas nos dispositivos e esquecem do básico: sua funcionalidade. Tudo que um Steve Jobs fez foi priorizar este item, ficou famoso com o ipad e muito antes o visicalc do apple II. Todos estes aparelhos não existem per si, são apenas ferramentas para outras tarefas.

No mundo da leitura já existem livros, revistas e jornais. Livros são mais longevos, exigem maior intimidade do leitor, revistas e jornais são descartáveis, acabam indo embrulhar mamão na feira. Seria possível ler um livro impresso como um jornal? Possível sempre é, mas não é confortável, aí é que está o ponto: conforto. Não usamos o computador da mesma maneira que a TV, apesar de parecidos a atitude ao usar os equipamentos é diferente, assistimos televisão inclinados para trás, relaxados; no computador estamos inclinados para frente, atentos. Esta consideração não é minha, faz toda diferença no conteúdo que porta a tela de computador e o aparelho de televisão.

Computador e principalmente a internet nos trouxeram mais ferramentas que usos e a inovação muitas vezes esquece o conforto. O início da internet não foi para público “civil”, os primeiros usos abarcavam a comunidade científica, onde a livre discussão de idéias e os amplos debates poderiam impulsionar a atividade, era ferramenta de discussão, livre, sem fronteiras, imediata, um mail substituía uma carta ou um caríssimo telefonema, quando a internet popularizou-se pensaram até em criar uma rede separada para o uso científico exclusivo. O problema é que a ferramenta era muito melhor que a comunidade científica, acostumada a viver em feudos não se adaptou ao debate aberto e o mundo da internet. A ferramenta é poderosa, idealmente democrática, mas a comunidade científica é essencialmente medíocre, não tem o preparo para usar ferramentas tão poderosas como os fóruns de internet. Imagine o debate entre Einstein e Bohr aberto, diário, na internet! Infelizmente a mente da comunidade é menos iluminada que seu ideário.

Depois tivemos as homepages e mais recentemente seus irmãos blogs. Fazer uma página, normalmente implica em imiscuir-se, no mínimo, em códigos HTML e outros domínios de programadores e designers, se tem necessidade muito específica, não há outro caminho para um bom trabalho, mas o blog, que é uma página já pronta e com máscaras  que excluem o usuário leigo do mundo dos códigos faz uma página minimamente estética e funcional. Jornais e revistas tem esta diagramação padronizada de blogs e nem por isso são piores, lhes confere identidade visual limpa e identificável. Apesar de ler em tela de computador ser menos agradável, blogs comportam com facilidade o mesmo conteúdo de jornais e revistas onde os textos são cada vez mais curtos pela limitação do papel, foi-se o tempo em que ler jornal lhe dava maior base por artigos mais fundamentados; blogs podem portar mais texto sem o limite do papel, acho isto excelente, não me é desconfortável ler um texto mais longo em um blog, é engraçado notar que o formato periódico, com textos descartáveis virou estereótipo de blog, apesar de poderem abrigar textos perenes em seu formato.

Para blogs, revistas e jornais o tablet é excelente, não para o livro mais longo, é a desgraça da retro-iluminação. O conforto da leitura tem alguns fatores: a posição em que se lê, inclinado para frente, em textos menores ou técnicos, ou inclinado para trás, entretenimento ou literatura mais complexa. A coluna de texto também influencia, se muito fina ou larga interfere na leitura, páginas de livros são estáticas, o esquema de “scroll down” é irritante para leitura longa. Mesmo os “hiperlinks” são inoportunos em textos de literatura e devem ser evitados. Leitura consome tempo, baterias de curta duração atrapalham. São fatores de conforto que irão determinar o sucesso ou fracasso dos dispositivos, independentes de bobagens que departamentos de marketing inventam.

Para todos os séculos de literatura que me precederam acho o e-reader perfeito, ficam inventando traquitanas, livros interativos com filmes, música, jogos, comunidades, terceira dimensão. Encantem os tecno-maníacos, mas por favor, deixem nós leitores em paz com e-reader e e-ink.

Alex

Fantasticon 2011 e a Literatura de Entretenimento

Semana passada fui à Fantasticon (13-14/08), não estava na minha previsão, ao ler a folha de sábado que traz algumas páginas sobre literatura, normalmente insípidas e enfadonhas, não vi nada sobre o tal encontro de literatura fantástica, foi o gatilho, quem sabe lá há algo de bom, algo novo.

A organização do evento montou um panorama bem variado na composição das mesas, tinham editores, acadêmicos, escritores e tecnólogos. O ebook foi astro na palestra do tecnólogo e lembrança incômoda na mesa de editores e escritores. Há no mercado que publica em papel brasileiro uma negação em relação ao meio eletrônico, é um espanto, visto que as casas editoriais tradicionais dos EUA também foram pegas de calças curtas quando empresas de tecnologia tomaram de assalto o mercado editorial, já abocanhando fatias significativas do mercado em velocidade mais rápida do que a prevista.

Uma coisa muito interessante de notar é que entre as diversas mesas falava-se língua diversa, comunicação tribal do meio em que transita cada convidado. Na mesa dos editores o jargão era do marketing, aprendi uma palavra nova, o mercado “youngadult” ou o jovem adulto, um ser entre dezesseis e trinta anos e que pelo paternalismo nos textos a ele dedicados, ainda não saiu da adolescência e nem aprendeu a ler. Sempre acreditei que literatura infantil, a partir de sete anos pode ser Monteiro Lobato, Jules Verne, Robert Louis Stevenson com “A Ilha do Tesouro”, Rudyard Kipling ou coisas do gênero, assim não vejo motivo de usar escrita mais pobre e condescendente para público de dezesseis a trinta anos.

É incrível notar que editoras começaram a perceber que existe mercado para fantasia no Brasil, coisa que já era realidade há vinte anos, naquele tempo editoras ficavam perplexas quando este gênero dava certo, e ainda ficam. A realidade é que o mercado de livros brasileiro é tão ínfimo e com números tão ridículos que é muito fácil ultrapassar a venda de autores conhecidos.

Nas mesas mais acadêmicas era fácil de notar uma abordagem quase alienígena com a literatura fantástica, por parte dos participantes era óbvio a total falta de conhecimento do gênero, é como se Dostoievski e Tolkien não pudessem compartilhar estantes, o que diria JK Rowling, tocada apenas com pinças ou lida escondido no banheiro. Não acredito nesta exclusão, há de se ler entretenimento sem pretensão de grande escrita, é mais divertido que a telenovela que um participante pseudo-acadêmico confessou assistir.

A mesa dos escritores foi voltada para literatura de entretenimento, foi uma boa escolha, é um tipo de literatura desprezada no Brasil, a fantasia é apenas mais um gênero. Não se espera do escritor de entretenimento grandes revoluções na escrita, mas acredito que um certo cuidado vem a bem do leitor. O estilo romanesco tão desprezado pela academia é perfeito à literatura de entretenimento, uma escrita mais pobre torna o livro menos divertido, é depreciativa na imagem que criamos ao ler a história, ainda mais no gênero fantástico, onde boas descrições podem ser extremamente saborosas.

Já sou leitor de fantástico de longa data e o que mais desgosto são clichês baratos e batidos, as aventuras “out of gods” são as piores, a literatura fantástica internacional não é paternalista veja o Ray Bradbury, apesar de na última década o gênero misturar-se com literatura infantil, o que acredito não deveria lhe tirar o mínimo cuidado no texto. Não é pecado notar que a JK Rowling é boa contadora de estórias, mas má escritora, Rick Riordam é sem dúvida um péssimo escritor e também tem seu público, suas estórias beneficiar-se-iam de uma escrita mais cuidadosa e os leitores só teriam a agradecer.

Literatura de entretenimento mesmo mal escrita vende, ótimo, não tem obrigação de querer impostar alta literatura, pode ficar no romanesco execrado pela academia e fugir dos “fluxos de consciência” e diálogos internos tão clichês como os românticos, mas apreciados pela academia, mesmo quando pobres e caricatos.

O evento mostrou um começo de efervescência que promete chacoalhar a literatura brasileira, aliado ao ebook quando os e-readers tornarem-se populares, podemos ter um futuro alvissareiro, quem sabe com muita coisa saborosa de qualidade para ler.

Alex

Ebooks, E-readers e Alta Literatura

Quando você dedica um pouco mais de seu tempo para leitura logo começa a notar certo empobrecimento nos livros mais novos, é como se os mestres da literatura tivessem ficado sem herdeiros ou desafiantes. Há uma morneza enfadonha naquilo que é publicado em nosso tempo, será que o homem moderno tornou-se mais tedioso que o de setenta anos atrás? Vivemos em mundo mais diverso, temos acesso a cultura e conhecimento em velocidade que nossos antepassados não imaginariam, e ainda assim, somos mais aborrecidos?

Há algo que não se encaixa nesta equação, os sinais estão invertidos, deveríamos ter literatura mais viva, inovadora, provocando o leitor. Novos escritores desafiando Hemingway, Virginia Woolf, Joyce, Faulkner e Pessoa. Tudo que vejo são escritos ajoelhados de fronte aos mestres sem nunca levantar os olhos para tentar ver-lhes a face, uma grande quantidade de impostores, bem ou mal intencionados. Não é exatamente culpa do escritor, mas sim do livro e deste animal estranho e raro chamado alta literatura.

Esta resma de papel chamada livro já foi veículo de idéias, literatura, inovação, agora infelizmente é apenas um produto, como outro qualquer, com o mesmo objetivo de todos produtos: vender mais.

Produto para ter mercado e vender mais precisa agradar a maior percentagem do público possível, é por isto que filmes modernos empacotam na mesma estória aventura, romance, comédia e drama, um pouco para todos, mas nada do melhor para um. O livro também é produto, e alta literatura é algo que atrai poucos, se o autor já é famoso muitos vão comprar o livro, mas não irão ler. E se o autor de alguma maneira não tiver fama, a dificuldade inerente na linguagem dos que desafiem os velhos cânones, será obstáculo intransponível para sua divulgação.

O livro não é mais veículo de alta literatura, ela tem uma escala menor do que exigem os editores. A boa notícia é que o ebook e o e-reader não tem estas limitações, autores podem ousar experimentar, inovar e assim desafiar os velhos clássicos que ficariam encantados com esta batalha. Já pode o autor escrever pensando na arte, esquecer tabelas mercadológicas ou a visão comercial dos editores; não dá para viver disto, mas dá para viver por isto.

Alex

E-Reader Não é Livro, é Biblioteca

A maioria dos que agora já possuem um e-reader são leitores freqüentes, pessoas cultas e conectadas com a tecnologia e seus benefícios. Os usuários de tablets podem ser apenas tecno-aficionados, mas o e-reader só supera outros aparelhos em seu conforto de leitura, é para o leitor já habituado a ler no papel que a novidade tem apelo. O preço do e-reader no Brasil ainda é absurdo, mas mesmo neste patamar extorsivo, se o leitor é grande consumidor de livros o meio digital ainda é grande economia. Ter na mão um e-reader é poder ler todos os livros em domínio público, a maior parte da alta literatura encontra-se neste status, é como se adquirisse ao mesmo tempo uma enciclopédia com todos os clássicos mais importantes da literatura.

Se não me engano o kindle tem 3Gb de memória e a Amazon lhe atribui capacidade de 3500 livros, dependendo de sua idade é uma vida de leitura, mas se quiser exorbitar tem leitores que aceitam expansão para até 64Gb, são 75000 livros pelas mesmas contas da Amazon. É muito livro! Se comprar o e-reader e não gastar nada em livros, só no domíno público pode ficar lendo por alguns anos, há para todos os gostos, alta literatura para momentos de mente fresca, livros mais leves para a cabeça cansada ou os períodos antes do sono.

Quem já tem o hábito de passear por aí com um livro sabe quanto três títulos pesam, 3500 livros assim como 75000 são apenas números, certos confortos modernos nos atingem e nem percebemos, achamos simplesmente normal. Sou do tempo do LP, saíamos para a casa dos amigos para escutar música e quando muito carregávamos cinco discos debaixo do braço; quando saíram os mp3s, um aparelho que portasse vinte LPs já era um absurdo, ia viajar com o meu walkman com três K7s quando muito e várias baterias, hoje meu aparelhinho é do tamanho de um dedo, cabe mais de uma centena de álbuns e a única bateria AAA recarregável dura umas 16 horas. Às vezes imagino a cena patética de andar por aí carregando uma centena de LPs todo dia. Em minhas estantes cabem cem livros por prateleira ou duzentos em fila dupla, cada uma tem cerca de sete prateleiras, tenho cinco estantes, só no kindle cabe duas estantes e meia! Nos 64Gb cabe dez vezes o que possuo de livros! Com um e-reader ganho um cômodo extra em minha casa.

Enquanto nos preocupamos com mazelas indecentes de uma FIFA, com uma copa que nada nos trará além de dívidas, o livro está esquecido, preterido. A simples normatização do que já prega o espírito da constituição tem andamento muito menos preferencial que as questões da bola, cada dia que passa com acesso restrito à literatura é um passo no nosso subdesenvolvimento em um mundo em constante mudança de requerimentos crescentes, cada dia o brasileiro é menos cidadão.

Há em nossa carta extrema boa intenção:

“DAS LIMITAÇÕES DO PODER DE TRIBUTAR
Art. 150. Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:
VI – instituir impostos sobre:
d) livros, jornais, periódicos e o papel destinado a sua impressão.”

O e-reader é o espírito contemporâneo do livro, através dele podemos ter uma porta de popularização da literatura, não podemos continuar um país onde literatura é item de status, não é o que reza nossa carta.

Alex