Língua e literatura na era eletrônica.

 

A linguagem surgiu, cresceu e evoluiu com o homem, é viva por nós, e por nós muda e evolui, é ferramenta para um fim, não vive por si mas vive para nós. É importante pensar a língua, seus usos e sua capacidade, mas infelizmente muita mudança não é feita de forma racional, e sem que queiramos ou nos damos conta existem certos consensos no uso da língua que espalham e contaminam sem que sejam pensados ou benéficos. É inegável a influência do suporte na forma da língua e sua capacidade de comunicação, imaginem se ainda usássemos “tablets” de argila para escrever caracteres cuneiformes, grande parte da evolução social que conhecemos nunca aconteceria, como seria carregar um livro de oitocentas páginas de argila? O livro deixou o papel e agora é mais leve e prático no meio eletrônico, é inegável que haverá mudanças, mas cabe a nós verificar a verdadeira capacidade do meio digital para que a língua e literatura cresçam e não diminuam perante o passado que já tivemos.

Por falta de pensar a língua está espalhando-se uma versão capenga e mutilada que diz-se dominante por pura ignorância, ela é a versão contida nos manuais de redação e (falta de) estilo. As frases complexas compostas por subordinativos ou coordenativos, as vírgulas e definitivamente os ponto e vírgula, são recursos proscritos, e isso quando pretende-se comunicar assuntos complexos que tem diversas instâncias e vários níveis de hierarquia impossibilita a composição textual; desta maneira, o texto escrito que tem a propriedade de educar, pois pode conter assuntos em profundidade é sabotado, permitindo em sua versão mutilada expressar apenas assuntos simples ou a simplicidade leviana que mediocriza os assuntos complexos impedindo definitivamente qualquer possibilidade de real compreensão. O uso desta língua deturpada que já é norma em jornais e revistas de grande circulação tem dois efeitos: o primeiro é tornar levianos todos os assuntos que aborda uma vez que não pode aprofundar-se, antigamente liam jornais as pessoas que queriam ter um conhecimento mais profundo, hoje o conteúdo de jornais e telejornais é idêntico, com vantagens ao telejornal por ser mais rápido e atualizado; o segundo efeito diz respeito à educação do leitor, antes o jornal era uma iniciação do leitor na escrita complexa, assim ao encarar um texto de Machado de Assis o fosso não é tão grande, mas hoje com a escrita pobre dominando tudo, o leitor só encontrará alguma dificuldade nos livros, e a tarefa pode ser tão desafiadora que fará um leitor muito primário desistir. Evitar o uso da língua aleijada é uma espécie de “pièce de résistance” para não sucumbir à mediocridade geral, pode não parecer, mas muita gente bem educada e de vasta cultura, ao ler em computadores e tablets, sem perceber acabada desistindo ao meio de um texto mais exigente por cansaço, não percebem que é o meio que induz a esta imbecilidade programada; computadores e tablets não se prestam a literaturas complexas, não permitem atingir o nível de concentração necessário para decodificar estes textos, e assim, sem sequer perceber o leitor torna-se mais burro, incapaz. Talvez por isso muitos mantenham o hábito do papel, como nunca entenderam no meio eletrônico a diferença fundamental do e-reader e-ink para as outras mídias.

Existe um consenso dominante errado de que o leitor não deve ser desafiado, muito disto vem do reino da propaganda, onde um texto deve atingir o maior público possível, isto talvez o valha para quem quer vender limpadores de privada, mas é um tipo de texto que menospreza o leitor, pois considera o menor denominador comum e assim diminui o padrão de toda leitura, mas escrever é comunica-se, e dependendo do assunto, a quem se dirige o texto ou sua função, esta simplificação obrigatória é simplesmente ridícula; com isso o texto perde a função de educar o leitor, expandir seus horizontes e a capacidade de articulação lógica. As pessoas não percebem o quanto este uso de textos obrigatoriamente simplificados é degradante para a leitura, para os assuntos tratados e para o próprio poder de raciocínio. É um verdadeiro veneno que extermina todos os níveis da cultura.

Aprender e desenvolver-se exige esforço por parte do leitor, não é possível ensinar sem desafiar o leitor, esforço não é necessariamente uma coisa ruim, muito ao contrário, assim como aprender, mas nos focamos em tamanha passividade por parte de leitores que cobrar um mínimo de esforço parece heresia, há esforço prazeroso, há desafios que trazem recompensa, e o aprendizado é um deles. Desta maneira em vez de escrever para aqueles que são tão vagabundos que abandonam um texto a meio caso este lhes ofereça qualquer desafio, o melhor é focar nos objetivos mais altos, pois quem ler o texto sai ganhando e temos leitores que valem a pena. E aí vem um imbecilzinho preguiçoso nos acusar de elitistas por não sermos condescendentes e desprezarmos a capacidade cognitiva de nossos leitores, oferecendo-lhes um texto que ao desafia-los os fará crescer; cabe aqui acabarmos esta mistificação grosseira: procure por aí os textos dos fabricantes de relógios que custam o preço de carros e carros que custam o preço de casas, verá que quem evidentemente produz itens para uma elite que pode dar-se ao luxo de pagar por objetos de status não usa textos complexos, muito ao contrário, são simplórios, portanto, onde está o tal texto “elitista”? Tudo isso para mascarar que a grande cultura humana hoje está gratuita a quem dispuser-se a ler, se a dois séculos foi um item de diferenciação de classes por conta do acesso restrito, hoje não é mais, assim acusar de elitista é imbecilidade a não ser que se refira a uma elite pensante, mas pensar ainda é de graça. Muito do que pensam é errado, escrever usando todo o potencial da língua não é um fator de exclusão, muito ao contrário, é a verdadeira inclusão, mas o leitor precisa fazer o esforço de desafiar-se para ser incluído. Um texto ruim exclui sem possibilidade oposta, pois mesmo que o leitor suceda na leitura está excluído, pois nunca oferece a oportunidade de crescimento.

Até aqui falei apenas de textos predominantes em jornais e revistas que ao optarem pela simplificação da língua perdem sua capacidade de tratar de assuntos com a complexidade merecida e assim falham em informar corretamente e formar o leitor. Mas e a literatura? Aí o caso é ainda mais grave: literatura antes de mais nada é arte, diria ainda uma das mais difíceis pois não tem guias, o artista que enveredar por esta modalidade terá que criar seu próprio caminho, as regras da gramática são paupérrimas perto de toda diversidade encontrada na literatura, que às vezes a desafia frontalmente e sai ganhando esplendorosa. Literatura aprende-se lendo, é uma vivência, só se aprende fazendo, não adianta, não existe outro caminho, e justamente por este particular fabricamos monstros estranhos: pegue um garoto nos seus dezessete anos e o enfie em um curso de letras, qual sua vivência como leitor? A maioria nenhuma, e aí o encha de livros aos quais deverá fazer uma “leitura técnica” como preconizam seus mestres, o garoto que não viveu a literatura agora vai ver o texto de forma mecânica ou ideológica, resultado depois de quatro anos de faculdade: alguém que não lê mais por prazer pois não teve tempo, quatro anos é muito pouco para tantos livros, mas ganhou o título de especialista em literatura. Especialista em quê, se não teve tempo de ler? Esse garoto agora com uns vinte e um anos vai ensinar língua e literatura… Já viram o desastre, não? É o que vemos hoje, mas tem lados piores, o rapaz em vez de ensinar nas escolas escolhe a vida acadêmica e vai ser um crítico literário: o pobre menino que não teve sua vivência com os livros vai agora falar sobre livros, não do ponto de vista do leitor, mas com os estudos acadêmicos que não interessam a ninguém que não sejam seus pares; resultado: ao encontrar o livro bem escrito mas sem experimentalismos inúteis vai logo taxa-lo de: “romanesco” em tom pejorativo, e se lhe cair em mãos um texto de Machado sem a assinatura do autor dirá que não é grande coisa, mas irá elogiar vilipendiando os adjetivos quando encontrar um texto experimental e ruim que não diz nada, não quer dizer nada, nem pode ser compreendido, o ápice do nada com a coisa nenhuma, a arte do nada!

A grande estupidez no meio acadêmico ou pseudo-acadêmico, é que não conseguem mensurar a extensão de sua ignorância, criando um universo analítico que tal como a taxonomia vê o livro não como vivo, mas como peça morta a ser dissecada, a verdade é que o todo é maior que as partes; leia uma análise semiológica, ela parece com um livro da mesma maneira que a descrição taxonômica de um gato parece com o animal vivo, a academia é muito boa em guardar o passado, mas inútil na criação artística. O viés cientificista é a causa desta cegueira, primeiro e mais importante: cientificismo não é ciência, é seu uso ignorante, pois a ciência dá conta do que são as coisas. A ciência observa o que é, a arte cria o que será; ciência é observação, arte criação. Desta maneira um acadêmico ao taxar algo de romanesco repete os mesmos preconceitos dos românticos ao criticar a literatura clássica, o modernismo ficou velho e o pós-modernismo ao desvencilhar-se da estética trouxe um viés ideológico que fez da não arte uma arte, assim tudo passa a ser arte e ao mesmo tempo nada mais é, não existe arte pós-modernista, pois criou-se uma falta de conceito, cabe ao observador ou leitor ter conceitos e decidir o que é arte, pós-modernismo em essência é o sofismo moderno, o discurso vazio, o relativismo, e ninguém representa melhor isso que o meio acadêmico, pois o que era para ser o ápice do conhecimento tornou-se uma panelinha de relativistas inúteis, apodrecidos e preocupados apenas com seus próprios salários em vez de seus objetos de estudo.

A maior prova da impotência acadêmica na literatura é que a maioria dos bons escritores não vem de seus quadros, um leitor bronco mas não ignorante como o Faulkner é infinitamente mais capaz que a maioria acadêmica, é da realidade da escrita e da leitura. Escrever é a arte do ilusionismo com palavras, o leitor percebe o efeito mas não vê a mecânica, que na realidade é um conjunto de truques simples, por isso a maioria dos escritores não fala dos próprios escritos, por isso que não há manual. O escritor é um mágico que não gosta de revelar seus truques. Antes de estudar a literatura como um peixe morto é necessária vivência, deixar-se maravilhar com os truques dos vários autores, ver o texto vivo antes de partir para a dissecção, por isso criamos monstros deformados, os estudiosos nunca foram leitores, e sem ler não vêem o efeito das ilusões que formam o cerne da criação literária; o leitor vê o efeito sem conhecer o truque, o acadêmico procura o truque sem saber qual é o efeito. E assim criou-se todas essas distorções que vemos por aí, gente que louva textos ineficientes, sem efeito, trejeitosos e inúteis. Assim prospera uma literatura contemporânea estéril, inútil e enfadonha, que não cativa leitores nem cria nada de bom. Aposto mais na literatura taxada pejorativamente de entretenimento, pois há mais chances de ver real arte aí do que no lixo propagandeado pela crítica acadêmica.

Voltemos novamente ao meio, talvez por conta da influência de jornais e revistas ou pela escrita pobre de massa dos textos de propaganda, gerou-se um consenso não pensado onde o meio eletrônico só comporta textos curtos e linguagem simplória, lógico que em serviços como o twitter que limita as mensagens a grunhidos de poucos caracteres, é impossível, mas não é a realidade eletrônica, aliás, muito ao contrário, antes um livro de muitas páginas era difícil de ser impresso pois custava mais, livros comerciais eram sempre limitados a duzentas ou trezentas páginas, mais que isso só se já fosse um “bestseller” de venda garantida, caso contrário a publicação seria muito cara, no meio eletrônico não existe esta diferença, um ebook pode ter qualquer extensão que é replicado com o mesmo custo, isso é um ganho! Uma expansão da capacidade que tínhamos antes. Um texto de internet deve ser curto e de linguagem simples para que os leitores não desistam, por que focar-se em escrever um texto para quem não lê em vez de fazer ao contrário, escrever para os que lêem, tem capacidade ou não tem preguiça? Se não se está vendendo porcaria, mas se quer ter um diálogo de alto nível, não faz sentido escrever para os idiotas que não lêem. A língua em nosso cotidiano tem também a função de formar as estruturas lógicas do pensamento humano, foi analisando a conversa de crianças que Piaget percebeu que a estrutura lógica da língua induz ao pensamento complexo, se em crianças de seis anos as formulações lógicas são menos freqüentes e muitas vezes inconscientes, em garotos maiores há mais freqüência no uso lógico da língua, e sem esta vivência não há o desenvolvimento mental. Ao aleijar a língua evitamos que as pessoas treinem o intelecto e impossibilitamos o surgimento dos raciocínios complexos. O uso pobre da língua inviabiliza o pensamento complexo e mais que um estilo ou moda, induz à pobreza de pensamento, e isso reflete-se em toda cultura e vida social, é por este motivo que as visões dicotômicas e ignorantes imperam em nossa sociedade, pois qualquer complexidade além da imbecilidade binária, não tem capacidade de ser processada, todo assunto complexo que envolve mais de dois lados torna-se um problema insolúvel. Veja o uso de uma dessas simplificações ignorantes: em uma democracia todos temos direito à voz, liberdade de expressão, assim todos temos direito a uma opinião, seja ela verdade ou mentira, certa ou errada, mas tende-se a usar o “direito à opinião” como justificativa para cassar o direito de expressão do outro no caso de que discorde de nossa opinião, assim como alguém tem direito a dar uma opinião, esta opinião não impede o outro de manifestar-se contra, pois ele tem a mesma liberdade de expressão; é assim que funciona a argumentação, uma opinião recebe uma contra-opinião, um argumento recebe um contra-argumento, esta é a liberdade democrática. Quem não gosta de argumentação pois tem argumentos ruins tende a querer usar a opinião como direito de caçar a liberdade de expressão. Complicado? Não muito, mas é mais simplório dizer que “todos tem direito a uma opinião”, que é uma simplificação grosseira e que esconde a realidade do direito democrático.

Literatura é tudo menos simples, muito ao contrário, é justamente a diversidade e sua complexidade que faz sua riqueza, assim, veja como esta estrutura lingüística mutilada é derrogatória da apreciação artística da literatura que não cabe em qualquer dicotomia imbecilizante, um Hemingway não está acima de um Shakespeare, nem abaixo; é a existência de Faulkner, Cervantes, Goethe, Virginia Woolf, Defoe, Chaucer, Sterne, Conrad, Byron, Yates, Shelley, Walt Whitman, Chekov, Machado, Kafka entre muitos que faz da literatura a potência que é. E nenhum autor é uma unanimidade, veja Joyce em Ulysses e em Finnegans Wake, o primeiro foi ao limite, o segundo passou do limite, criou uma obra mutilada que perdeu o foco do leitor e empobreceu-se na língua, a soma de suas partes ficou menor que o todo. Imagine o quanto deste universo o garotinho estudante de letras já teve tempo de apreciar, quase nada, não há curso de quatro anos que substitua uma vida de leitura. Por isso a impotência acadêmica na literatura é tão gritante.

Ler, como tudo que vale a pena na vida, exige certo esforço, fazer um texto para preguiçosos que não querem ter o mínimo de esforço é escrever inutilidades, banalidades nunca farão ninguém crescer, cada grande autor criou o seu jeito de escrever, não é só questão de estilo, pois bom ou ruim todos tem um, o escritor artista criou um jeito que funciona, expande as possibilidades da linguagem para contar suas estórias, por isso cada novo autor é um novo aprendizado, um novo esforço e um novo universo expressivo, é assim que se cresce. Quem não consegue ler um bom autor confunde o ruim com o bom, não tem capacidade de diferenciar um do outro, por isso a literatura contemporânea é tão cheia de embusteiros, escritores incompetentes que mascaram sua ruindade com experimentalismo vazio.

O meio eletrônico traz novas possibilidades para a literatura, é preciso ver sua real capacidade e descartar os consensos ignorantes que mutilam a língua e os seres humanos, a literatura será o que faremos dela, é preciso conhecer a arte dos grandes homens, por prazer, criando assim a apreciação artística e o domínio da língua, seja no papel ou no e-reader e-ink mais acessível e democrático; depois de viver ler é a experiência mais próxima, vivemos uma vida, mas através da literatura vivemos milhares.

Alex

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Crise de Validação

Nos tempos modernos usar a palavra crise é quase um sacrilégio: crise dos bancos, crise do capitalismo, crise da ética, crise na política e crise econômica; resulta do agravamento de uma situação incômoda, mas a percepção de uma crise pode ser algo bom, indicando uma consciência de que mudanças devem ser feitas para alterar o estado das coisas; são problemáticas quando não resolvidas, mas sua resolução nos leva a melhores planos. Quanto mais adiamos a mudança, mais a crise se agrava.

Validação e sua crise é um assunto muito discutido nos círculos de mídia e crítica profissionais, e o agente que detonou esta crise de validação é o acesso dado às pessoas de fora do círculo de validação pela internet, e agora pelo ebook, lido no e-reader. Quando alguém escreve em um jornal, espera-se que tenha propriedade para tanto, assim, mesmo sem ler o escrito, só o fato do texto figurar em um jornal lhe confere validade, uma certa autoridade compulsória do meio onde o texto figura; o mesmo pode ser dito do livro em papel: confere certa autoridade. A crise resulta do contato entre as mídias de acesso irrestrito e a tradicional. Qualquer um pode escrever um blog, existem bilhares, dos piores aos melhores, se todos os blogs fossem mal escritos, não haveria crise de validação na mídia atual, mas existem os muito bons, muitíssimo superiores aos textos que encontram-se impressos em jornais, revistas e livros de papel.

Antes, a mídia tradicional era única, não encontrava voz de contestação, assim o que nela se escrevia, era automaticamente tido como superior à voz solitária de um zé ninguém sem acesso aos canais de validação, mesmo que seu argumento fosse bom e superior. O conflito de idéias já vem da raiz da filosofia, com Sócrates desmascarando os artifícios do discurso sofista. Esta habilidade de argumentar e contra-argumentar virou até disciplina, chamada dialética, e sobre ela Schopenhauer escreveu um pequeno ensaio desmascarando as tentativas de golpe à lógica, perpetrados pela técnica dialética; como diz no livro: a argumentação é um modo de chegar à verdade comparando argumentos, o melhor modo de prevalecer em um debate é estar ao lado da lógica, com o melhor argumento, mas se quer fazer vencer uma proposta falsa, ou seja, prevalecer sem ter razão, ele mostra os recursos escusos da técnica dialética. É um livrinho instrutivo de ler, está em domínio público, e uma tradução em inglês está disponível no Projeto Gutenberg.

Por muitos anos desenvolveram a técnica dialética para o debate oral e suas peculiaridades: os debatedores estão em igualdade de condições, e argumento e falas logo perdem-se da memória, deixando margem aos vários truques dialéticos, um dos truques mais comuns é chamado “argumentum ad verecundiam”; o homem normal prefere a crença ao exercício intelectual da lógica, assim acreditar em alguém, em uma mídia impressa, é mais fácil que julgar a pertinência dos argumentos. Jornais, rádios e TVs tem a credibilidade ao seu lado, ou ao menos tinham, pois dia a dia o acesso livre da internet permite a aberta contestação de idéias, fazendo com que a validação dos jornais seja ativamente contestada.

É comum ouvir da boca dos participantes da antiga mídia termos como: “os blogs por aí” , para generalizar pejorativamente tudo que é escrito em blogs independente de sua pertinência, e assim valorizar o texto das mídias tradicionais. Mas o público, vendo sua crença esvair-se cada vez mais, vê pertinência e propriedade em muitos que escrevem na internet, seus textos estão aí, fáceis de acessar e ao alcance do olho, coisa que antes não acontecia, fazendo a mídia tradicional hegemônica.

Muito do que se escreve na mídia tradicional é uma grande baboseira, e hoje, com a mídia venal a serviço do governo, até a credibilidade factual tem sido contestada. Há verdade, há mentira, não existem lados com pesos iguais e este é um dos exemplos comuns da vigarice jornalística. Se pararmos para pensar a faculdade de jornalismo deve ser a maior maravilha, pois com o mesmo período de estudo de um químico o jornalista pode discorrer com propriedade sobre química, física, biologia, matemática, sociologia, psicologia, medicina e todas as disciplinas cultivadas pelo homem. Muito do que encontra-se em blogs não é escrito por jornalistas, mas por médicos, engenheiros, químicos, biólogos além de muitos outros, quem tem mais propriedade no assunto? Veja os suplementos de tecnologia, e veja a informação que se obtém na internet sobre o mesmo assunto.

Bons e ruins, mentira e verdade, tudo misturado na internet força o leitor a abandonar a crença e adotar uma relação de análise com aquilo que lê, e esta crítica passa a ser exercida ao ler os textos jornalísticos, e sua pertinência ou propriedade pode ser abertamente contestada, gerando a crise de validação.

Se vocês já leram o livro “Nove Noites” de Bernardo Carvalho, não terão dúvidas que é um escritor acima da média; aos domingos, a Folha tem um suplemento batizado “Ilustríssima” que normalmente traz textos de caráter ensaístico com dimensões superiores aos textos regulares. Dia destes encontrei um ensaio sobre fotografia escrito pelo referido autor, leiam: http://sergyovitro.blogspot.com/2011/10/fome-de-ver-bernardo-carvalho.html, este foi o único link eletrônico que encontrei para o texto. Um bom escritor, um suplemento em teoria respeitado e um ensaio que de fotografia nada fala, pura bobagem, Lacam, Freud e nada pertinente à fotografia, incomoda-me, pois fotografia é assunto que preso, e o texto em questão é de uma vigarice impar, não importando quantos validadores incondicionais tem, ao analisar o escrito vê-se claramente o amontoado de bobagens e a falta de referência a qualquer parâmetro pertencente ao mundo fotográfico. Quando uma bobagem destas é escrita em um blog, webpage ou o que o for, passa despercebida na imensidão de porcarias, e é culpa exclusiva do escritor; mas quando um texto destes chega em um jornal, há uma cadeia de incompetências, de escritor a editor que evidencia-se. Poderia citar montanhas de porcarias do mesmo gênero, jornais divulgando notícia falsa e todo tipo de sortilégio, só chamo atenção a um exemplo que chamou minha atenção, por tratar-se de meu universo.

O mesmo ocorre com a crítica literária e os prêmios, que também representam uma forma automática de validação. Críticos tradicionais gostam de ter este poder de elevar ou afundar um livro, enquanto alguns usam esta responsabilidade com propriedade, escrevendo críticas pertinentes ao livro, muitos não tem sequer bons argumentos e apóiam-se exclusivamente na validação do meio em que escrevem, mas com a internet, varrem abaixo do tapete a credibilidade do veículo quando suas análises mal feitas são desmascaradas. E isto só corre pois aí está a liberdade a dar voz aos argumentos contraditórios. Um sambista famoso escreve um livro muito ruim e é aclamado como escritor, um político nefasto escreve um livro péssimo e vira imortal, são validados pelo meio, mas ao mesmo tempo invalidam e retiram propriedade do meio, gerando o que agora chamamos crise de validação.

Crises são boas, podem nos conduzir a planos melhores, a contestação de idéias na internet faz com que as pessoas tenham que exercer o discernimento em vez da crença, e isto gera um aumento de consciência, educação. No debate escrito é mais fácil pesar com calma as idéias, e ver quem tem propriedade, desmascarando os vigaristas. O ebook com o conforto do e-reader chega agora no ponto de gerar a crise de validação da literatura, qualquer um com um bom texto está em pé de igualdade com todo outro escritor, sim, há propaganda ativa na internet, e muito da crítica é apenas propaganda disfarçada, mas no contato autor leitor, não há intermediários, e quem por um livro se apaixona, torna-se seu grande divulgador, isto acontece comigo, pode não gostar de minhas indicações, mas são sinceras, só indico o que gostei. Anseio o mesmo de meus amigos, mais que um livro, espero o testemunho de uma alma.

Alex

Novo, Ano Novo

Lá vamos nós em mais uma volta em torno do sol, e apesar de novo, percorreremos o mesmo caminho do ano passado e de nossos antepassados, realizaremos os mesmos rituais, as mesmas superstições, vamos colocar o pé direito no chão no primeiro minuto do novo ano e pular mais três ondinhas, mesmo com a fatídica meia-noite mudada em uma hora. Como perfazemos sempre a mesma cerimônia, qual o motivo de chamar de novo?

Na literatura podemos dizer que há algo novo? É o e-reader novo ou novo é o tablet? Mais um ano de velhas novidades? Para quem não leu Victor Hugo, é novo; Tolstoi? Novíssimo! Até Dante, Cervantes e Shakespeare, novinhos, cheios de velhas novidades para quem não os leu. O novo é bom o velho é ruim, mas sem o velho o novo não existiria, é o que chamamos causalidade; desde que me lembre são as mesmas leis da física que estão em vigor, nenhuma novidade, nem uma modificação, não seria interessante uma pequena modificaçãozinha? Nada muito grande, bem pequenina, uma novidadezinha na maneira que ligam-se quarks. Seria divertido, e também o fim de toda existência do que conhecemos.

O velho, tão execrado, nos é absolutamente necessário, dependemos da tal causalidade que do velho faz o novo que vira velho e escreve a nossa história, e desta causalidade também depende a literatura; Mis Stein tentou aboli-la, do texto nada restou a não ser fragmentos mínimos, pois se o texto imita a vida, é a causalidade também sua matéria-prima. E como perseguiram o novo estes modernistas, com tal afinco que quase acabaram com a causalidade, com toda a vida em busca do novo transitório, que quando se atinge já ficou velho.

Dos clássicos tivemos a consolidação da relação entre literatura e leitor, nos românticos a aproximação dos textos com o leitor e o mundo terreno e com o modernismo tivemos o rompimento com todos os anteriores. O clássico é um valor congelado no tempo, o romantismo um ideal grafado na história, mas o moderno é transitório, pois quando aparece, logo deixa de ser moderno, fica velho, e a modernidade desaparece. O que seria o mundo pós-moderno? Um mundo em desaparecimento? Pois o novo não mais é moderno, e tão pouco não pode mais ser história.

Hoje, na era da ciência, reverenciamos o deus pagão: tecnologia. Se no panteão a ciência é a mãe da tecnologia, como nos antigos gregos, o filho destrona o pai, e a tecnologia passa a existir sem ciência. Logo teremos tablets agradáveis ao olho como o papel e nosso pequeno maravilhoso e-reader deixará de existir; segundo a mídia brasileira, já não existe, é só o tal tablet, a volta ao passado dos processadores que nunca precisamos e o futuro das telas que nunca existirão.

Em relação aos processadores já vemos o que ocorre, chegaram no limite da tecnologia e tiveram que voltar atrás, os núcleos de quatro giga não mais são encontrados, mas não superados, e a velocidade do processador dos tablest é a do meu computador de uma dezena de anos atrás, mesmo os computadores novos não melhoraram muito seu desempenho, mas sempre há algo novo, moderno, para ser comprado e logo descartado.

Nossos futurólogos, sacerdotes do deus tecnologia, anunciam as novas telas que substituirão o e-ink, sem darem-se conta das antigas lições do deus ciência. Existem basicamente duas tecnologias para mostrar imagens, uma que depende de adição de luzes e outra de subtração, e isto é por conta do meio físico em que cada uma impera: RGB, CMYK, o princípio da tela que produz luz é RGB, a que reflete é CMYK, mesmo que nos e-readers atuais tenhamos apenas o K. São meios físicos diferentes, no RGB temos a velocidade da luz no CMYK dependemos de matéria para refletir luz; na superfície dos e-readers, são “bolinhas” pretas ou brancas que vão à superfície e refletem a luz, é esta luz difusa, ou a falta dela  que faz com que vejamos as letras na tela, enquanto o outro emite luz, mais rápido para mudar a imagem, mas depende de maior energia enquanto está sendo lido pois a emissão é contínua, além de projetar um feixe de luz direcionado, para ser difuso gastaria muito mais energia. São variáveis físicas, científicas, e uma inferência errada do deus tecnologia ao afirmar que logo uma substituirá a outra, pois nada na ciência mostrou-se possível.

E-ink colorido? Pode até ser, mas uma tela tem 800×600 de definição, em preto e branco isto dá uma boa resolução, mas se tivermos que dividir os “pixels” em cores vamos ficar com uma tela de resolução medíocre. Se tiverem que reduzir a resolução fico com meu e-ink preto e branco de resolução superior e baixo consumo de energia.

Vencidos os problemas técnicos, ou pelo menos esclarecidos, podemos ir ao mercadológico, mais místico e errático. Se o brasileiro lê em média cinco livros ao ano, dá para ler em um tablet, duas páginas ao dia? Nada! Portanto para manter o Brasil na ignorância o tablet é o instrumento perfeito! Mas se ao contrário quisermos fomentar a leitura, o aparelhinho não serve, e não serve mesmo! Como qualquer leitor que já pegou um e-ink na mão pode comprovar com facilidade.

Muitas vezes temos a impressão que toda esta tecnologia nos torna mais ignorantes, em parte nos tornamos mais conscientes da gigantesca dimensão da nossa ignorância, pois à medida que conhecemos o mundo sabemos que há muito mais a conhecer, o que sabemos torna-se menor perto do que existe a conhecer. Ao longo da história a literatura foi ocupação de poucos, as vendas de Cervantes em seu tempo nunca despertariam a cobiça de nossas editoras, eram poucos a ler, menos a apreciar literatura. Com o tempo o número de leitores foi aumentando, mas pouco, e literatura ainda era ofício elitista, coisa de gente estudada e educada, hoje mais gente tem acesso às letras, mas poucas à literatura, que é ofício mais lento que a própria alfabetização, como o bê-a-bá, exige treino. O público das mil cópias de Ulysses que quase levaram sua editora à falência, já lera Victor Hugo, Tolstoi e Dostoievski, além de muitos outros, a eles o modernismo de Joyce fazia sentido, pois era uma reação a estes que foram lidos anteriormente, cheio de referências aos mesmos, assim como piadas internas contemporâneas marcadas por uma escrita impecável.

A novidade está aí: o e-reader, o novo para quem não leu está aí: em domínio público, grátis. É só perfazer o mesmo velho ritual de nossos antepassados: ler.

Feliz velho ano novo.

Alex

Um Minuto de Silêncio para o Livreiro

Será que estou sendo precipitado? São poucos no Brasil que tem um e-reader. Em realidade estou atrasado, mais de vinte anos! Foi ainda na década de oitenta que o senhor livreiro faleceu.

Quem freqüentou o centro de São Paulo nas décadas de setenta e oitenta, se puxar um pouco pela memória vai lembrar de uma grande quantidade de pequenas livrarias, muitas apenas uma portinha, escura, empoeirada, atulhada de livros do chão ao teto, dos assuntos mais diversos; muitas vezes o dono era o único “funcionário”, senhor livreiro. Tínhamos nossas preferências, freqüentávamos três ou quatro, poderíamos dizer que mais do que clientes éramos amigos, uma amizade diferente, não conversávamos sobre o tempo, a família ou qualquer outro aspecto de nossas vidas pessoais, o assunto era sempre livros, e sobre isto estes senhores tinham muito a dizer, recomendar, até instruir. De todas obras que lhes eram oferecidas, compravam ao menos uma cópia, pois acreditavam que a livraria mais que um ponto de venda era um ponto de cultura, para encontrar a maior diversidade possível, a eles cada venda importava, cada cliente satisfeito. Aproveitei muito da experiência destes senhores, grandes indicações, boa leitura.

No início ainda sem idade para caminhar sozinho pelas ruas do centro acompanhava meu pai em sua peregrinação às livrarias, sempre terminando na Rosov, no alto de um edifício antigo, de portas fechadas, falando Russo,o idioma dos livros lá vendidos, cresci e pude traçar meus próprio caminhos e escolher as livrarias de minha preferência, devo muito à paciência destes senhores em ajudar um cliente interessado em assuntos pouco corriqueiros. Eram livreiros por profissão, alimentavam suas famílias com os lucros de suas pequenas livrarias, e além disso, gostavam de livros, o que os aproximava de seu público, quem ainda lembra do movimento da madrugada na banca cidade jardim dos que esperavam os periódicos importados? Revistas que chegavam ao Brasil três meses depois de sua publicação, com as “últimas” novidades.

O livreiro já foi peça atuante no mundo do livro, e podemos citar uma das mais famosas “livreiras”: a autodenominada Sylvia Beach, grande incentivadora de Hemingway e muitos outros autores de língua inglesa que viviam em Paris, sua livraria alugava livros e também os vendia, foi ela que decidiu editar Ulysses de Joyce, e sem isto talvez nunca conhecêssemos esta obra. Quem já o leu sabe que não é simples e isento de polêmicas ainda hoje, Sylvia tomou o risco e quase foi a falência, mas guarda o crédito de visionária, até passou ao outro lado e escreveu um livro, mas nunca deixou sua condição de livreiro.

Nos anos oitenta lembro vividamente um dos meus amigos livreiros reclamar que não podia competir com as novas cadeias de livrarias que estavam crescendo –“Está vendo este livro? Eu compro três, até cinco, pago muito mais caro que a Siciliano, quem vem aqui vê um preço, e lá mais barato. Como posso viver assim? Esta vendo este? – pegou um livro de auto-ajuda – a diferença de preço é ainda maior! Pego um apenas para ter, pois com este preço sei que não vou vender.” Foi a política das editoras que matou a maioria dos livreiros, sem dó nem choradeira as pequenas livrarias foram fechando, os livreiros preteridos pelas editoras foram esquecidos, a literatura sofreu, mas lágrima não verteu.

Pergunte-me se fico condoído com esta chorumela da indústria do papel? Não! Quem gostava dos livros foi morto por estes vendedores de papel, espero que meus antigos amigos saboreiem o prato frio da vingança, e que os livros deixem de ser produto para transformarem-se em cultura.

Alex

O E-book é uma Festa

Anos vinte, Paris, artistas e escritores convergem para a capital cultural do mundo, alguns para passar uns meses, outros já planejam anos, muitos a vida. As ruas sempre vivas da cidade fervilham de gente, de todos os níveis, de todo mundo; artistas maduros, aprendizes, jornalistas, escritores, curiosos, deslumbrados, moradores e turistas encontram-se nos cafés, restaurantes, praças e museus da cidade. Almas libertas fugindo da incompreensão de suas províncias natais, jovens em busca de sonhos, dirigem-se para aquele local específico, em busca de inspiração, interlocução. Dizem que se você viveu naquele meio, ele nunca mais te larga, viaja contigo, é uma festa móvel, acompanhando-te para onde for, plantando sementes em seu caminho que espalharão o espírito da cidade mais cosmopolita de seu tempo.

Construtores, pintores, atores, autores, poetas, jornalistas, golpistas, bêbados, encontram-se nos cafés, conversam, trocam idéias, conhecem grandes artistas, grandes pessoas, e os que conseguem ao mesmo tempo serem artistas e pessoas; o mestre encontra o aprendiz e logo estão trocando impressões do mundo, usando dos recursos da cidade para criar: os momentos de solidão necessários ao trabalho, os passeios pelas belas paisagens da cidade e o encontro com pessoas diversas vindas dos mais distantes cantos do globo. Do mais humilde ao mais rico, do miserável de espírito ao pobre de dinheiro, todos tinham acesso à cultura, naquele meio ela entrava em ti junto com o ar que respirava, não importando se estivesse ou não interessado, estar em Paris era uma educação compulsória, poderia não saber ler, mas conhecia o nome dos poetas e talvez ouvisse seus versos, muitas vezes do lábio do portador da pena que os escreveu.

Foi uma época mais simples, tempos mais ingênuos, onde o homem ainda ousava sonhar, vivia-se com pouco dinheiro, o mínimo do conforto, mas banhado em arte, paixão, vida. Mais do que nunca as pessoas estavam vivas, apreciando todos os momentos, independente de suas posses, vivia-se ao máximo em Paris, um modesto e honesto vinho nos bancos do jardim de Luxemburgo era mais saboroso que os caríssimos em um grande restaurante, a cidade pulsava com os que a sabiam apreciar.

Livros eram lidos, devorados, aos montes; discutidos, apreciados, criticados, cultivados. Mas não se engane, os habitantes não tinham enormes bibliotecas pessoais, quem estava de passagem não podia comprometer-se com o peso de alguns livros, não eram carregados nas bagagens, mas sim na memória, eram emprestados em bibliotecas particulares, para serem devolvidos e novamente lidos por milhares, o mesmo exemplar passou pelas mãos de Hemingway, Joyce, Fitzgerald e muitos outros, conhecidos e desconhecidos. Livros estrangeiros chegavam à cidade trazidos por viajantes que os esqueciam em seus quartos de hotéis e eram vendidos pelos funcionários da limpeza, para ter alguns francos a mais.

Não era barato viajar a Paris, mas o que a cidade tinha a oferecer, valia mais do que o dinheiro gasto com as passagens, para aqueles que buscavam a vida da cultura. O e-reader ainda não é barato, mas para quem gosta de ler, seu preço vale mais que a passagem, ele lhe permite viver a literatura mais intensamente. Quem hoje tem no Brasil um e-reader, o tem pois quer mais da literatura, já leitor ávido não deixou-se engessar com o estúpido fetiche do papel, são as palavras do livro que importam, não sua materialidade, pois só se leva aquilo que deixou do livro entrar em ti. O aparelhinho encarna o espírito, sem o peso do papel, os livros ainda são os mesmos da velha Paris, ou os novos do mundo inteiro, ainda livros, ainda palavras.

Alex

A Pequena Estória do Conto

Na escola peguei certa birra com o gênero conto, professores nos impingiram vários volumes da famigerada coleção “Para Gostar de Ler”, que todos nós alunos apelidávamos de: “Para odiar ler”; muitos irão contestar-me, não existe o “gênero conto”, pois conto significa apenas uma estória curta, contos de Tolstoi tem mais de duas centenas de páginas, outros contistas nem meia, gênero bem difícil de catalogar; mas posso afirmar, no Brasil, o conto virou um gênero, pois na categoria não há humor, policial, ficção científica, fantasia, é apenas o gênero conto. Stanislaw Ponte Preta escrevia estórias curtas, eram contos, mas desta maneira não eram chamados, assim como outros que também gosto: Conan Doyle, Poe, Lovecraft. Não sei quando este gênero conto brasileiro iniciou, mas era a definição de conto da escola e ainda hoje é o estereótipo predominante.

O conto já foi apenas a imprecisa definição de uma estória curta, com a explosão das revistas no século dezoito e dezenove, o espaço nas publicações para estórias curtas foi grande e serviu para início de carreira para muitos grandes escritores. A estória curta era o entretenimento dos periódicos e logo publicações especializadas apenas em estórias curtas proliferaram, eram estórias para se ler em “uma sentada”. Existiram publicações especializadas em estórias curtas de vários gêneros, sci-fi, policial, estórias românticas, até revistas especializadas em “contos literários”, algumas de muito prestígio, promovendo novos autores antes desconhecidos do grande público.

Com o tempo as estórias curtas foram desaparecendo, havia mais opções de entretenimento, o papel foi encarecendo, as matérias jornalísticas encolhendo em palavras profundidade e conteúdo, o espaço da estória curta desapareceu, restando quase que apenas o conto literário já estereotipado e a estória pornô.

É difícil saber se a explosão do conto deu-se pelo espaço dado à estória curta ou à profusão de autores, mas, eis que agora, com o e-reader, a fôrma literária embutida no papel desvaneceu, o meio eletrônico aceita sem preconceito todo tamanho de texto, de uma a milhares de páginas sem o aumento do custo de impressão, distribuição e toda cadeia física que a diferencia do papel, mas com o conforto e intimidade da leitura em papel.

O conto é uma grande fonte de entretenimento, por seu limitado tamanho pode encaixar-se nos momentos do dia roubados dos afazeres cotidianos, acho que está na hora das pequenas estórias policiais, ficção científica, fantasia e muitos outros gêneros que não seja apenas o conto brasileiro voltarem a circular, só é preciso quem as escreva com um mínimo de habilidade. É um formato difícil, exige do autor concisão e consciência, é um treino ideal para as grandes estórias.

Alex

Educação, Computadores, E-readers e a Vida Contemporânea

Dias passam, semanas, meses e anos e tudo que vemos é a ruína progressiva do nosso sistema educacional, no intuito de evitar o inevitável, colocamos nossos filhos em escolas particulares, pagamos caro, muitas vezes com sacrifício, mas a derrocada não é exclusividade do sistema público, atinge todo o ensino, mesmo o particular, de forma mais lenta. Há algo de muito errado em nossa escola e universidades.

O cotidiano é que faz esta percepção mais evidente, o ensino vem a séculos no mesmo trilho, é o mundo moderno tão rápido e dinâmico que agora se choca com os antigos ideais escolares. Em tempos passados o acesso a informação não era tão simples, hoje qualquer um com um celular conectado pode encontrar a informação mais complicada nas páginas da web, da mesma maneira como se carregasse o livro abaixo do braço o tempo todo, com a grande diferença que este livro contém toda a informação do conhecimento mundial.

É imperativo salientar que muito do tempo gasto nos bancos escolares e no conseqüente estudo caseiro é dedicado à simples e estúpida tarefa da memorização, conteúdo que será vomitado momentos mais tarde em uma prova que exige apenas isto do aluno. É um modelo viciado, ineficaz, que as páginas dos mecanismos de busca tornaram completamente obsoleto.

Hoje mais do que nunca, o que diferencia as pessoas não é a quantidade de informação que acumulam, mas como processam seus conteúdos. Tive um professor de matemática que dizia: “memorizar é tarefa que qualquer folha de papel faz melhor que o ser humano, mesmo tendo o QI de meia samambaia plástica”. Não ouso discordar, é a mais profunda realidade, por mais que decoradores de lista telefônica possam ser inteligentes de salão, declamando tudo de forma maquinal, ficaram obsoletos diante da rede; é a pessoa que sabe tirar sentido, pensar criticamente e operacionalizar os conteúdos que faz a diferença.

Os computadores invadem as escolas, em vez de usarmos o seu grande potencial, usamo-los como propagandas pirotécnicas com propostas educacionais medíocres, joguinhos coloridos e barulhentos para fazer o mesmo que os cansados professores não deveriam. E eis a grande realidade, computadores são meras ferramentas, se não souber como usa-los para educação efetiva, não só não vão auxiliar como vão atrapalhar. Às vezes pergunto a um aluno o motivo de algo, e com freqüência a resposta que recebo é: “ isto é assim pois o professor disse que é assim…”, não há crítica, nem pensamento a elaborar uma resposta lógica, a fala do professor foi o único material de consulta, aceito de forma passiva sem qualquer processamento, upload do professor e download do aluno, atividade que o computador QI de meia samambaia plástica faz melhor que nós.

As crianças hoje ficam cinco a seis horas diárias na sala de aula, se perguntar o que descobriram não saberão dizer, divagaram, conversaram com colegas, tudo menos envolver-se com os conteúdos propostos pelo professor, não é para menos, muitos alunos entram mudos e saem calados, muitos professores não gostam de perguntas, outros ainda, entram, enchem um quadro negro, os alunos copiam em seus cadernos e a aula termina. Que me condene ao fogo eterno quem nunca viu isto acontecer. Comum? Sim! Correto? Nunca!

Os meios informáticos são benção ou maldição, ainda ontem vi professores fazendo abaixo assinado para não usar tablets nas escolas, pois os alunos sabiam utilizar estes aparelhos melhor que seus professores. Isto é atitude de um mestre? Nas escolas mais preparadas o aluno terá um livro didático para auxiliá-lo, é a informação lá contida que será toda sua fonte. Os tais livros didáticos são derivações de conteúdo, quando passamos a aprender de maneira correta sempre nos foi ensinado a ir à fonte original, está longe do livro didático que na maioria das vezes estripa toda a lógica dos raciocínios, apresentando conteúdo sem sentido racional, na melhor das hipóteses só serve para ser decorado. O e-reader permite a biblioteca na ponta dos dedos com uma grande variedade de textos, todos originais e em domínio público, a física de colégio tem apenas trezentos anos… Qual o motivo dos livros didáticos serem atualizados anualmente se o conteúdo não muda em décadas? Lógico, fomentar a venda do livro didático, o maior mercado editorial do Brasil. Assim o irmão mais novo terá que comprar novos livros, não poderá usar o do mais velho, apesar do conteúdo não ser diferente dos livros utilizados por seus pais.

Tablet ou e-reader? O e-reader permite ler por períodos prolongados sem cansar a vista, é análogo ao papel utilizado por anos, pode portar os livros de leitura e textos de estudo, mas não é colorido e não mostra vídeos, coisa que o tablet faz tão bem. Qual motivo de não ter todas as aulas do ano já gravadas em vídeo? Existem professores que ano após ano entram em sala e falam as exatas mesmas coisas, tem até bons, quem duvidar do que digo, ouça uma aula gravada a muito tempo de um tal Feynman, intitulada “Lectures on Physics”, mestral e ainda atual e útil. Não gostou de um professor? Pode ter seis versões da mesma aula com professores diferentes para assistir quando tiver atenção e não no primeiro horário da manhã ainda com sono. Sim, o tablet tem vantagens, mas não tem teclado e portanto pode ser substituído pelo laptop, mas não há o que substitua o e-reader, sem ele conteúdos mais complexos que exigem leitura intensa do aluno não podem ser acessados. A escolha cai para laptop e e-reader em conjunto.

E agora? O que sobra para os professores fazerem? O que sempre deveriam ter feito, conversar com os alunos, responder perguntas, contamina-los com o prazer pelo conhecimento, partilhar esta paixão. O computador, o tablet e o e-reader com QI de meia samambaia plástica não podem substituir o professor, deve fazer o que estes dispositivos nunca poderão, nunca reduzir-se a mera máquina. Assim teremos bom ensino, estimulante para professores e alunos.

Alex