Língua e literatura na era eletrônica.

 

A linguagem surgiu, cresceu e evoluiu com o homem, é viva por nós, e por nós muda e evolui, é ferramenta para um fim, não vive por si mas vive para nós. É importante pensar a língua, seus usos e sua capacidade, mas infelizmente muita mudança não é feita de forma racional, e sem que queiramos ou nos damos conta existem certos consensos no uso da língua que espalham e contaminam sem que sejam pensados ou benéficos. É inegável a influência do suporte na forma da língua e sua capacidade de comunicação, imaginem se ainda usássemos “tablets” de argila para escrever caracteres cuneiformes, grande parte da evolução social que conhecemos nunca aconteceria, como seria carregar um livro de oitocentas páginas de argila? O livro deixou o papel e agora é mais leve e prático no meio eletrônico, é inegável que haverá mudanças, mas cabe a nós verificar a verdadeira capacidade do meio digital para que a língua e literatura cresçam e não diminuam perante o passado que já tivemos.

Por falta de pensar a língua está espalhando-se uma versão capenga e mutilada que diz-se dominante por pura ignorância, ela é a versão contida nos manuais de redação e (falta de) estilo. As frases complexas compostas por subordinativos ou coordenativos, as vírgulas e definitivamente os ponto e vírgula, são recursos proscritos, e isso quando pretende-se comunicar assuntos complexos que tem diversas instâncias e vários níveis de hierarquia impossibilita a composição textual; desta maneira, o texto escrito que tem a propriedade de educar, pois pode conter assuntos em profundidade é sabotado, permitindo em sua versão mutilada expressar apenas assuntos simples ou a simplicidade leviana que mediocriza os assuntos complexos impedindo definitivamente qualquer possibilidade de real compreensão. O uso desta língua deturpada que já é norma em jornais e revistas de grande circulação tem dois efeitos: o primeiro é tornar levianos todos os assuntos que aborda uma vez que não pode aprofundar-se, antigamente liam jornais as pessoas que queriam ter um conhecimento mais profundo, hoje o conteúdo de jornais e telejornais é idêntico, com vantagens ao telejornal por ser mais rápido e atualizado; o segundo efeito diz respeito à educação do leitor, antes o jornal era uma iniciação do leitor na escrita complexa, assim ao encarar um texto de Machado de Assis o fosso não é tão grande, mas hoje com a escrita pobre dominando tudo, o leitor só encontrará alguma dificuldade nos livros, e a tarefa pode ser tão desafiadora que fará um leitor muito primário desistir. Evitar o uso da língua aleijada é uma espécie de “pièce de résistance” para não sucumbir à mediocridade geral, pode não parecer, mas muita gente bem educada e de vasta cultura, ao ler em computadores e tablets, sem perceber acabada desistindo ao meio de um texto mais exigente por cansaço, não percebem que é o meio que induz a esta imbecilidade programada; computadores e tablets não se prestam a literaturas complexas, não permitem atingir o nível de concentração necessário para decodificar estes textos, e assim, sem sequer perceber o leitor torna-se mais burro, incapaz. Talvez por isso muitos mantenham o hábito do papel, como nunca entenderam no meio eletrônico a diferença fundamental do e-reader e-ink para as outras mídias.

Existe um consenso dominante errado de que o leitor não deve ser desafiado, muito disto vem do reino da propaganda, onde um texto deve atingir o maior público possível, isto talvez o valha para quem quer vender limpadores de privada, mas é um tipo de texto que menospreza o leitor, pois considera o menor denominador comum e assim diminui o padrão de toda leitura, mas escrever é comunica-se, e dependendo do assunto, a quem se dirige o texto ou sua função, esta simplificação obrigatória é simplesmente ridícula; com isso o texto perde a função de educar o leitor, expandir seus horizontes e a capacidade de articulação lógica. As pessoas não percebem o quanto este uso de textos obrigatoriamente simplificados é degradante para a leitura, para os assuntos tratados e para o próprio poder de raciocínio. É um verdadeiro veneno que extermina todos os níveis da cultura.

Aprender e desenvolver-se exige esforço por parte do leitor, não é possível ensinar sem desafiar o leitor, esforço não é necessariamente uma coisa ruim, muito ao contrário, assim como aprender, mas nos focamos em tamanha passividade por parte de leitores que cobrar um mínimo de esforço parece heresia, há esforço prazeroso, há desafios que trazem recompensa, e o aprendizado é um deles. Desta maneira em vez de escrever para aqueles que são tão vagabundos que abandonam um texto a meio caso este lhes ofereça qualquer desafio, o melhor é focar nos objetivos mais altos, pois quem ler o texto sai ganhando e temos leitores que valem a pena. E aí vem um imbecilzinho preguiçoso nos acusar de elitistas por não sermos condescendentes e desprezarmos a capacidade cognitiva de nossos leitores, oferecendo-lhes um texto que ao desafia-los os fará crescer; cabe aqui acabarmos esta mistificação grosseira: procure por aí os textos dos fabricantes de relógios que custam o preço de carros e carros que custam o preço de casas, verá que quem evidentemente produz itens para uma elite que pode dar-se ao luxo de pagar por objetos de status não usa textos complexos, muito ao contrário, são simplórios, portanto, onde está o tal texto “elitista”? Tudo isso para mascarar que a grande cultura humana hoje está gratuita a quem dispuser-se a ler, se a dois séculos foi um item de diferenciação de classes por conta do acesso restrito, hoje não é mais, assim acusar de elitista é imbecilidade a não ser que se refira a uma elite pensante, mas pensar ainda é de graça. Muito do que pensam é errado, escrever usando todo o potencial da língua não é um fator de exclusão, muito ao contrário, é a verdadeira inclusão, mas o leitor precisa fazer o esforço de desafiar-se para ser incluído. Um texto ruim exclui sem possibilidade oposta, pois mesmo que o leitor suceda na leitura está excluído, pois nunca oferece a oportunidade de crescimento.

Até aqui falei apenas de textos predominantes em jornais e revistas que ao optarem pela simplificação da língua perdem sua capacidade de tratar de assuntos com a complexidade merecida e assim falham em informar corretamente e formar o leitor. Mas e a literatura? Aí o caso é ainda mais grave: literatura antes de mais nada é arte, diria ainda uma das mais difíceis pois não tem guias, o artista que enveredar por esta modalidade terá que criar seu próprio caminho, as regras da gramática são paupérrimas perto de toda diversidade encontrada na literatura, que às vezes a desafia frontalmente e sai ganhando esplendorosa. Literatura aprende-se lendo, é uma vivência, só se aprende fazendo, não adianta, não existe outro caminho, e justamente por este particular fabricamos monstros estranhos: pegue um garoto nos seus dezessete anos e o enfie em um curso de letras, qual sua vivência como leitor? A maioria nenhuma, e aí o encha de livros aos quais deverá fazer uma “leitura técnica” como preconizam seus mestres, o garoto que não viveu a literatura agora vai ver o texto de forma mecânica ou ideológica, resultado depois de quatro anos de faculdade: alguém que não lê mais por prazer pois não teve tempo, quatro anos é muito pouco para tantos livros, mas ganhou o título de especialista em literatura. Especialista em quê, se não teve tempo de ler? Esse garoto agora com uns vinte e um anos vai ensinar língua e literatura… Já viram o desastre, não? É o que vemos hoje, mas tem lados piores, o rapaz em vez de ensinar nas escolas escolhe a vida acadêmica e vai ser um crítico literário: o pobre menino que não teve sua vivência com os livros vai agora falar sobre livros, não do ponto de vista do leitor, mas com os estudos acadêmicos que não interessam a ninguém que não sejam seus pares; resultado: ao encontrar o livro bem escrito mas sem experimentalismos inúteis vai logo taxa-lo de: “romanesco” em tom pejorativo, e se lhe cair em mãos um texto de Machado sem a assinatura do autor dirá que não é grande coisa, mas irá elogiar vilipendiando os adjetivos quando encontrar um texto experimental e ruim que não diz nada, não quer dizer nada, nem pode ser compreendido, o ápice do nada com a coisa nenhuma, a arte do nada!

A grande estupidez no meio acadêmico ou pseudo-acadêmico, é que não conseguem mensurar a extensão de sua ignorância, criando um universo analítico que tal como a taxonomia vê o livro não como vivo, mas como peça morta a ser dissecada, a verdade é que o todo é maior que as partes; leia uma análise semiológica, ela parece com um livro da mesma maneira que a descrição taxonômica de um gato parece com o animal vivo, a academia é muito boa em guardar o passado, mas inútil na criação artística. O viés cientificista é a causa desta cegueira, primeiro e mais importante: cientificismo não é ciência, é seu uso ignorante, pois a ciência dá conta do que são as coisas. A ciência observa o que é, a arte cria o que será; ciência é observação, arte criação. Desta maneira um acadêmico ao taxar algo de romanesco repete os mesmos preconceitos dos românticos ao criticar a literatura clássica, o modernismo ficou velho e o pós-modernismo ao desvencilhar-se da estética trouxe um viés ideológico que fez da não arte uma arte, assim tudo passa a ser arte e ao mesmo tempo nada mais é, não existe arte pós-modernista, pois criou-se uma falta de conceito, cabe ao observador ou leitor ter conceitos e decidir o que é arte, pós-modernismo em essência é o sofismo moderno, o discurso vazio, o relativismo, e ninguém representa melhor isso que o meio acadêmico, pois o que era para ser o ápice do conhecimento tornou-se uma panelinha de relativistas inúteis, apodrecidos e preocupados apenas com seus próprios salários em vez de seus objetos de estudo.

A maior prova da impotência acadêmica na literatura é que a maioria dos bons escritores não vem de seus quadros, um leitor bronco mas não ignorante como o Faulkner é infinitamente mais capaz que a maioria acadêmica, é da realidade da escrita e da leitura. Escrever é a arte do ilusionismo com palavras, o leitor percebe o efeito mas não vê a mecânica, que na realidade é um conjunto de truques simples, por isso a maioria dos escritores não fala dos próprios escritos, por isso que não há manual. O escritor é um mágico que não gosta de revelar seus truques. Antes de estudar a literatura como um peixe morto é necessária vivência, deixar-se maravilhar com os truques dos vários autores, ver o texto vivo antes de partir para a dissecção, por isso criamos monstros deformados, os estudiosos nunca foram leitores, e sem ler não vêem o efeito das ilusões que formam o cerne da criação literária; o leitor vê o efeito sem conhecer o truque, o acadêmico procura o truque sem saber qual é o efeito. E assim criou-se todas essas distorções que vemos por aí, gente que louva textos ineficientes, sem efeito, trejeitosos e inúteis. Assim prospera uma literatura contemporânea estéril, inútil e enfadonha, que não cativa leitores nem cria nada de bom. Aposto mais na literatura taxada pejorativamente de entretenimento, pois há mais chances de ver real arte aí do que no lixo propagandeado pela crítica acadêmica.

Voltemos novamente ao meio, talvez por conta da influência de jornais e revistas ou pela escrita pobre de massa dos textos de propaganda, gerou-se um consenso não pensado onde o meio eletrônico só comporta textos curtos e linguagem simplória, lógico que em serviços como o twitter que limita as mensagens a grunhidos de poucos caracteres, é impossível, mas não é a realidade eletrônica, aliás, muito ao contrário, antes um livro de muitas páginas era difícil de ser impresso pois custava mais, livros comerciais eram sempre limitados a duzentas ou trezentas páginas, mais que isso só se já fosse um “bestseller” de venda garantida, caso contrário a publicação seria muito cara, no meio eletrônico não existe esta diferença, um ebook pode ter qualquer extensão que é replicado com o mesmo custo, isso é um ganho! Uma expansão da capacidade que tínhamos antes. Um texto de internet deve ser curto e de linguagem simples para que os leitores não desistam, por que focar-se em escrever um texto para quem não lê em vez de fazer ao contrário, escrever para os que lêem, tem capacidade ou não tem preguiça? Se não se está vendendo porcaria, mas se quer ter um diálogo de alto nível, não faz sentido escrever para os idiotas que não lêem. A língua em nosso cotidiano tem também a função de formar as estruturas lógicas do pensamento humano, foi analisando a conversa de crianças que Piaget percebeu que a estrutura lógica da língua induz ao pensamento complexo, se em crianças de seis anos as formulações lógicas são menos freqüentes e muitas vezes inconscientes, em garotos maiores há mais freqüência no uso lógico da língua, e sem esta vivência não há o desenvolvimento mental. Ao aleijar a língua evitamos que as pessoas treinem o intelecto e impossibilitamos o surgimento dos raciocínios complexos. O uso pobre da língua inviabiliza o pensamento complexo e mais que um estilo ou moda, induz à pobreza de pensamento, e isso reflete-se em toda cultura e vida social, é por este motivo que as visões dicotômicas e ignorantes imperam em nossa sociedade, pois qualquer complexidade além da imbecilidade binária, não tem capacidade de ser processada, todo assunto complexo que envolve mais de dois lados torna-se um problema insolúvel. Veja o uso de uma dessas simplificações ignorantes: em uma democracia todos temos direito à voz, liberdade de expressão, assim todos temos direito a uma opinião, seja ela verdade ou mentira, certa ou errada, mas tende-se a usar o “direito à opinião” como justificativa para cassar o direito de expressão do outro no caso de que discorde de nossa opinião, assim como alguém tem direito a dar uma opinião, esta opinião não impede o outro de manifestar-se contra, pois ele tem a mesma liberdade de expressão; é assim que funciona a argumentação, uma opinião recebe uma contra-opinião, um argumento recebe um contra-argumento, esta é a liberdade democrática. Quem não gosta de argumentação pois tem argumentos ruins tende a querer usar a opinião como direito de caçar a liberdade de expressão. Complicado? Não muito, mas é mais simplório dizer que “todos tem direito a uma opinião”, que é uma simplificação grosseira e que esconde a realidade do direito democrático.

Literatura é tudo menos simples, muito ao contrário, é justamente a diversidade e sua complexidade que faz sua riqueza, assim, veja como esta estrutura lingüística mutilada é derrogatória da apreciação artística da literatura que não cabe em qualquer dicotomia imbecilizante, um Hemingway não está acima de um Shakespeare, nem abaixo; é a existência de Faulkner, Cervantes, Goethe, Virginia Woolf, Defoe, Chaucer, Sterne, Conrad, Byron, Yates, Shelley, Walt Whitman, Chekov, Machado, Kafka entre muitos que faz da literatura a potência que é. E nenhum autor é uma unanimidade, veja Joyce em Ulysses e em Finnegans Wake, o primeiro foi ao limite, o segundo passou do limite, criou uma obra mutilada que perdeu o foco do leitor e empobreceu-se na língua, a soma de suas partes ficou menor que o todo. Imagine o quanto deste universo o garotinho estudante de letras já teve tempo de apreciar, quase nada, não há curso de quatro anos que substitua uma vida de leitura. Por isso a impotência acadêmica na literatura é tão gritante.

Ler, como tudo que vale a pena na vida, exige certo esforço, fazer um texto para preguiçosos que não querem ter o mínimo de esforço é escrever inutilidades, banalidades nunca farão ninguém crescer, cada grande autor criou o seu jeito de escrever, não é só questão de estilo, pois bom ou ruim todos tem um, o escritor artista criou um jeito que funciona, expande as possibilidades da linguagem para contar suas estórias, por isso cada novo autor é um novo aprendizado, um novo esforço e um novo universo expressivo, é assim que se cresce. Quem não consegue ler um bom autor confunde o ruim com o bom, não tem capacidade de diferenciar um do outro, por isso a literatura contemporânea é tão cheia de embusteiros, escritores incompetentes que mascaram sua ruindade com experimentalismo vazio.

O meio eletrônico traz novas possibilidades para a literatura, é preciso ver sua real capacidade e descartar os consensos ignorantes que mutilam a língua e os seres humanos, a literatura será o que faremos dela, é preciso conhecer a arte dos grandes homens, por prazer, criando assim a apreciação artística e o domínio da língua, seja no papel ou no e-reader e-ink mais acessível e democrático; depois de viver ler é a experiência mais próxima, vivemos uma vida, mas através da literatura vivemos milhares.

Alex

Tablets e Alfafa para Alimentar a Ignorância!

Se você está razoavelmente bem informado, viu que o governo pretende comprar 900.000 tablets para a educação, visto assim de relance parece algo bom, mas visto de perto é um dos golpes mais vigaristas e insidiosos a ser perpetrado contra a educação já combalida do brasileiro, calma, vou explicar em detalhe e tentar colocar luz no amontoado de bobagens que mantém nosso ensino em péssimas condições. Tome fôlego que este será longo, mas necessário, se está procurando leitura leve desistirá nos primeiros parágrafos.

O nosso universo de estudantes básicos é de mais de cinqüenta milhões, 900.000 diluídos neste universo é nada, vão fazer propaganda com crianças segurando tablets, para enganar os eleitores, mas não vão melhorar a educação, gastarão muito dinheiro e ainda desacreditarão iniciativas futuras que podem usar esta utilíssima ferramenta de forma apropriada. Em virtude de certa gritaria corrigiram dizendo que 600.000 destes tablets seriam para professores, pois não tem o aparelhinho, e assim nem sabem usar, sobram 300.000 para os alunos… quase nada, iniciativa estúpida! E pensar que pagamos o salário destes “gênios” educacionais, que por pura falta de competência, afundam dia a dia o nosso já naufragado sistema de ensino.

Vamos supor que você é um professor bem intencionado e razoavelmente bem formado, adentra a sala de aula, três dezenas de jovens em seu público cativo e forçado, o que você precisa para ensinar, dar uma boa aula? Primeiro e antes de tudo: conforto e segurança, não há como ter um bom ambiente sem isto; é bom que os alunos estejam bem alimentados e em boas condições de saúde, assim como o professor; diante destas variáveis o ensino torna-se secundário e o aprendizado infrutífero. Bem, estamos saudáveis, bem alimentados, confortáveis e seguros, podemos agora começar a nossa aula.

Posso entrar na sala, dizer bom dia, começar a encher a lousa de palavras que os alunos vão anotar no caderno; quem já não teve um professor assim? Não é o melhor exemplo da espécie, mas existem aos montes. O conteúdo que o professor coloca na lousa já está nos livros, muito já lá escrito a mais de uma centena de anos; se estivesse treinando uma turma de copistas medievais, produzindo livros em massa, este seria um bom treino, mas não, estou tentando educar, e este método além de improdutivo, é chato e desestimulante. Que tal em vez de copiar da lousa para caderno, ter um livro com tudo já escrito? Não é mais simples e produtivo? Mas para isto é necessário ter livro, para a tarefa o e-reader é perfeito, mas os estudantes precisam saber ler, e aqui vou entrar no enevoado debate da alfabetização: já foi algo simples, não mais, mais complexa, ineficiente; o sistema moderno contaminado de ideologia evita que o aluno leia de forma fluente aos oito anos, alguns até saem da escola sem ler, outros ainda terminam faculdades, com deficiência em leitura, por conseguinte em escrita.

Se na caixinha você já tem umas trinta ou mais velinhas de aniversário deve lembrar da famigerada e mal afamada cartilha, hoje em dia considerado um livro do demônio, excomungado e banido. Ela, a maldita, nos fez ler, rapidamente, e ainda escrever, nos obrigou a entender a lógica da escrita na língua portuguesa, com seus símbolos representando sons. Você pode não conhecer uma palavra, mas sabe ler e dize-la em voz alta, graças à simplicidade lógica da cartilha com seu método alfabético. Funcionou! Foi efetiva, mas foi substituído por um método sem lógica, sem eficiência e abundante em ideologia vigarista. Aqui entra o construtivismo bastardo, diz-se inspirado em Piaget, mas dá para ver que do grande cientista não leram nem um livro e se o fizeram não entenderam, Piaget pode até ser um mau escritor, mas é ótimo pensador, contrário do doutor Freud, excelente escritor, mas cientista muitíssimo inferior. Eu pergunto aos construtivistas de plantão: onde sua teoria, se assim pode ser chamada, apóia-se na obra de Piaget e não se opõe a suas descobertas empíricas? Pois, de minha leitura do suíço, mostra que se o mesmo hoje vivesse, desmascararia a vigarice do discurso construtivista.

É este construtivismo que está nas diretrizes educacionais brasileiras, apodrecendo a raiz do ensino. Piaget foi genial ao descobrir empiricamente como funciona o mecanismo de aprendizado, mas este construtivismo bastardo nada tem em comum, é falsidade contaminada de ideologia ignorante. E olha que nem entrei no Paulo Freire, uma jabuticaba nada doce, ideologia sem lógica, fazendo um desserviço ao ensino.

A cartilha funcionou e ainda funcionaria, pois a criança ao ser alfabetizada, já fala, ela não precisa recriar a estrutura da língua, é só ligar a fala aos símbolos gráficos, criança não é estúpida, entende a lógica da língua, aprendeu com o uso, só precisa entender a lógica da escrita que imita a fala, neste aspecto a cartilha é prática e faz o aluno ler rapidamente, é tão simples que permite seu uso por professores leigos. A cartilha explana de forma clara a lógica alfabética, silábica e fonética, foi substituída por algo que não funciona! Idéias bonitas sem uso prático, sem eficiência ou funcionalidade.

No ranking da estupidez do sistema de ensino está o desaparecimento dos cursos de magistério, que se focavam nas técnicas de alfabetização, e sua substituição pelo curso de pedagogia, mais direcionado para a administração escolar e extremamente falho na prática do letramento, que é a tarefa fundamental do professor primário. Por um suposto status universitário, supõe-se o curso de pedagogia superior ao de magistério, mas foram estas professoras, saídas do magistério que nos deram aulas e nos ensinaram a ler antes do primeiro ano terminar. Hoje você tem professoras com status universitário nas escolas primárias, mas estas não sabem alfabetizar, e o aluno sai deste ciclo sem domínio da leitura, muito menos desfrute da literatura.

Voltamos agora à nossa sala de aula, meus alunos já tem o domínio necessário da leitura, preciso de livros, não só com o conteúdo a ser ensinado, mas meus alunos precisam de livros para treinar a leitura, de forma prazerosa e lúdica, pois só assim vai desenvolver a habilidade, assim como a escrita. Quem lê invariavelmente irá escrever bem, pode não conhecer todas as regras gramáticas com seus nomes “científicos”, mas as conhece do seu uso, do uso culto da língua encontrado na literatura. Coitado do professor que se acha a única fonte de conhecimento e o despeja sobre o aluno, nada entende de educação. O aluno precisa ter acesso à fonte do conhecimento, que é o livro. Tudo está em livros!

O livro é e foi o grande democratizador do conhecimento, a prensa de Gutenberg trouxe a preocupação dos meios universitários com a difusão do conhecimento em livros, aqueles que quisessem aprender poderiam recorrer aos livros, sem freqüentar os bancos universitários, naquela época a educação universitária iniciava aos doze anos. Pode-se aprender apenas com livros, o professor é supérfluo; para divulgar conhecimento, o livro com QI de meia samambaia plástica é melhor que qualquer professor. O educador que se coloca nesta posição exclusiva de detentor do saber é um estúpido, como ser vivente e não papel inerte o professor deve poder muito mais.

Professor não aprende por aluno, já sabe, apenas ajuda, é um mero facilitador, um interlocutor qualificado. É esta interação que livro ou tablet não podem fazer, pois só o ser vivente, dotado de inteligência pode perpetrar tal tarefa. Não é pouca, cabe ao professor passar ao aluno a paixão pelo conhecimento, o desafio do aprendizado, manter acesa a curiosidade natural do homem em conhecer o mundo onde vive. De todo “roll” de professores que tive ao longo da vida, poucos se elevam ao panteão dos bons, aqueles que me inspiraram com sua paixão. Muitas vezes fiquei inclinado a pensar que professores são seres que nascem por geração espontânea, pois muitos parecem que nunca foram alunos, brotam professores sem passarem pelas salas de aula, livros, dúvidas ou a juventude. Esquecem ou nunca foram alunos, e assim não conseguem entender aquilo que um dia foram, e ficam sem compreender os alunos, viram mini-ditadores com o menor reino do mundo: a sala de aula. Se um professor tem autoridade, esta deriva exclusivamente de sua sabedoria e da lógica, não de sua autoridade ditatorial em sala de aula.

Esta educação é vista como um processo passivo, onde o aluno é uma peça que não importa, não influencia; muda de ano outro ocupa o mesmo banco e repete-se o mesmo ritual. É preciso acabar com a passividade do estudante, ele é peça ativa e deveria ser o mais interessado em sua própria educação. É o método estúpido de educação que torna alunos interessados, curiosos e ávidos a aprender em imbecis passivos em potencial. É esta mentalidade tacanha que aumenta o número de aulas inúteis, não permitindo ao estudante o espaço necessário para pensar sozinho e seguir seus próprios projetos e interesses. Eu e meus contemporâneos tivemos muito menos carga horária do que os estudantes atuais e nossa educação não foi inferior, muito ao contrário, pode-se traçar um gráfico e mostrar claramente que junto com o aumento da carga horária veio a derrocada da qualidade do ensino. Aí os educadores idiotas, pagos com dinheiro do governo, acham que precisa ocupar a já atribulada vida do estudante com mais tempo inútil em sala de aula. Não adianta aumentar o tempo, tem que melhorar a qualidade, e para isto precisamos de uma proposta mais inteligente, que conta com o aluno como parte ativa da educação. Além disto, precisamos de melhores professores.

A arte de educar já foi muito mais valorizada, com os professores ocupando local de destaque e sua devida importância na sociedade, nas últimas três ou quatro décadas vimos uma desmoralização da classe detonada principalmente pelos baixos salários e más condições de trabalho. Hoje ninguém que se preze e que tenha um mínimo de capacidade se presta ao ofício de professor, pode auferir melhores salários em qualquer outra atividade, existem pouquíssimos que ainda se mantém por amor à profissão, são minoria, discriminados mesmo dentro de seu próprio meio. O baixo salário fez com que se direcionassem para o magistério aqueles incapazes de ocupar melhores posições, infestam os quadros escolares públicos, estáveis, imutáveis, e contra qualquer melhoria salarial dependente de mérito. Infelizmente hoje não é uma questão de aumentar salários, pois não adianta premiar estes que nunca tiveram compromisso com a educação e só a praticam por conta da estabilidade no serviço público e a incapacidade de serem cobrados por resultados. Ao mesmo tempo não é possível atrair os jovens, pois o professor iniciante só tem vaga nas piores escolas, aquelas esquecidas do poder público, só lembradas na hora de mendigar por votos em uma eleição, e logo novamente esquecidas, abandonadas, largadas à própria sorte.

Não adianta aumentar os salários dos professores enquanto esta escumalha que marca o passo do atraso na educação ainda ocupa os lugares de quem quer ensinar, com inteligência, competência e habilidade. Qual professor minimamente comprometido não vê o absurdo acontecendo em sua escola? Faltas abonadas em detrimento dos alunos e todo tipo de falha de compromisso, sem contar a baixíssima habilidade dos professores. Posso entender que são mal remunerados, mas se aceitaram o trabalho é para fazer direito ou cair fora, os alunos são vítimas e não são os culpados dos baixos salários.

O professor desvalorizado na sociedade e desvalorizando-se por sua própria incompetência, aos olhos do aluno é um fracassado, incapaz de inspirar os estudantes e sem autoridade real para manter a menor disciplina em sala de aula. É este o professor que guia o ensino, o pivô central da educação, é fácil entender o motivo da péssima qualidade de ensino, só o comprometimento com a qualidade e excelência de todas as partes pode mudar este quadro, enquanto houver complacência com a mediocridade os alunos estão condenados à ignorância.

Ao mesmo tempo o construtivismo bastardo prega uma forma de nativismo educacional, afirmando que o aluno pode por si mesmo chegar às respostas de tudo sozinho. A humanidade levou aí uns três ou quaro mil anos para aprender o que ensinamos em sala, o aluno só dispõe de uma vida, não tem como dedicar-se como Darwin e Mendel, para aprender apenas uma ínfima parcela do que deve conhecer o homem moderno. O aluno deve apoiar-se nos gigantes que nos precederam e se possível ir além, reinventar a roda não é prático, e este nativismo povoado de estúpida boa intenção só leva ao atraso, nosso conhecimento é a herança de muitas gerações de pensadores, é de suprema estupidez pensar que o aluno dispondo de apenas uma vida possa recriar tudo; deve saber procurar, pesquisar e encontrar as respostas já encontradas e as criticar de forma lógica. Isto é ensino: herança e autonomia, diferente da doutrinação estúpida comum nas salas de aula.

Professores já pouco preparados e mal pagos encontram-se na guerra entre o construtivismo utópico Paulo Freiriano e a doutrinação vagabunda pura e simples. A inteligência ou a lógica não tem espaço nesta disputa.

Não adianta inserir uma ferramenta cara e poderosa em um sistema que já desperdiça seus recursos por orientar-se por ideologia estúpida. Os tablets, assim como todos os recursos já desperdiçados serão apenas mais dinheiro jogado fora, afundando mais a educação. É preciso pensar, pensar com lógica e inteligência as bases da educação.

A primeira pergunta é: Você acredita que este governo tenha qualquer compromisso verdadeiro com a educação? Se ainda acredita nesta baboseira vou mostrar como o descaso com a educação é evidente. Houve alguma medida efetiva de tentar melhorar a educação feita pelo MEC? Não! E olha que já são quase dez anos desta farsa, qual a dificuldade? O governo tem toda a base para aprovar o que quiser, se não aprova é por que não quer. Veja que absurdo esta copa que nada deixará além de dívidas, estão até mudando as leis brasileiras para acomodar os vagabundos da FIFA, gastando dinheiro público, que falta na educação, para uma entidade privada, veja a velocidade com que ocorre e as somas gastas. Não é revoltante? O que é mais prioritário para o Brasil, uma copa estúpida de futebol ou a melhoria da educação do país?

Vou lhe dar outro exemplo ainda mais vergonhoso, a constituição em seu texto proíbe o imposto sobre livros, e para garantir que o imposto não seja cobrado de forma indireta, também isenta os insumos destinados à produção dos livros. É uma medida para proteger a indústria do papel? Não! É uma medida para permitir a livre circulação de livros, veículo de educação e idéias, é esta livre circulação que nos caracteriza como democracia. Se o governo fosse a favor da educação já teria liberado o imposto sobre o livro eletrônico e seus insumos, ou o seja: o e-reader, necessário para a leitura eletrônica. Eles não precisam mudar leis no congresso, pois a lei já está na constituição, é só querer ser a favor da educação, em vez de priorizar a copa, que tal priorizar a educação? Este atraso mostra que os especialistas do governo, regiamente pagos, não querem a melhoria da educação do brasileiro, se quisermos que isto mude deveremos fazer pressão ativa, exigir o nosso direito que é sonegado pelo governo. Cobre, exija, é seu direito, e se conseguirmos vitória será por pressão, não pelo entendimento do governo que livro é educação, pois se este existisse, o livro eletrônico já estaria sem imposto.

Vamos voltar agora à nossa sala de aula, espero que muitos mitos que emperram nossa educação já tenham sido desfeitos, assim posso continuar minha aula e usar das novas tecnologias para ajudar o aluno. O que é um tablet? Nada mais que um simples computador, lembrem-se que as escolas já possuem esta peça de mobiliário e o motivo de ser chamado de PC (personal computer) é o de ser pessoal, é para o aluno ter o seu, ainda não temos, e as iniciativas educacionais usando o aparelho são pífias, alunos sabem usar redes sociais por iniciativa própria, mas ainda não usam a ferramenta com fins educacionais, ou seja, para buscar conhecimento de forma autônoma. Algo muda com o tablet? Talvez; se todo aluno tiver o seu, pois mais enfático que o computador de mesa o tablet é ainda mais pessoal. Pode mostrar vídeos, qual o grande conteúdo educacional que temos em vídeo? Pode rodar programas educacionais, quais são estes programas? Pode acessar a internet, se tivermos conexão para todos e soubermos o que procurar. Pode ler livros; pode? O nosso conhecimento vem de uma longa tradição, está nos livros, Newton não produziu vídeos, assim como o “A Origem das espécies” está em livro, os experimentos com ervilhas de Mendel foram esquecidos, mas recuperados do livro. O que o aluno precisa para educar-se minimamente está nos livros, e novamente afirmo: para isto o e-reader é melhor ferramenta. Para o aluno primário o tablet por suas características visuais e pictóricas pode ser mais útil que o e-reader, mas a partir da terceira série o aluno precisa ter contato com a literatura de forma lúdica, para treinar leitura, a ferramenta necessária para tirar o sentido dos textos usados para transmitir conhecimento.

É preciso entender os aparelhos por sua funcionalidade e não por mistificação ignorante, o tablet me é útil em sala de aula? Sim, posso indicar material de consulta na internet para o aluno, expandir o conceito de cultura, se souber usar. Ao outro lado quero que meus estudantes leiam, por prazer e para pesquisar, encontrar conteúdo, extrair significado, e para isto o e-reader é a ferramenta, quem tem um sabe, não dá para ler textos extensos e complexos no tablet, não é confortável, só quem rivaliza com o livro é o e-reader. Dizem que estes aparelhinhos são dedicados à leitura, são! Mas o livro também não é um aparelho dedicado à leitura? Uma aparelho totalmente dedicado à leitura de um único texto? Não é a leitura a habilidade fundamental que levamos dos bancos escolares? Quem é o analfabeto? Aquele que não sabe escrever nem ler, daí não se tira a importância da literatura? Não justifica-se um aparelho a ela dedicado? O governo já gasta fortunas todo ano com livros muito mais dedicados, de conteúdo ruim, sem possibilidade do aluno “trocar” de texto.

Se você já me seguiu até aqui, podemos ir adiante, pois é necessário desmascarar todas as bobagens educacionais antes que possamos usar de forma efetiva as novas tecnologias. Já pegou um livro didático moderno? Estes que os alunos usam? Já pousei a mão em vários, o teor é uma vergonha, são livros feitos por compiladores de conteúdo, sem um texto lógico que permita ao aluno seguir o raciocínio dos pensadores que fizeram as grandes descobertas; mesmo que o aluno queira estudar sério não pode pois estes livros não dão subsídio ao aprendizado consciente, apenas à estúpida memorização sem lógica, da mesma maneira que memoriza uma letra de música, sem entender memoriza a fórmula da gravidade, e daí? Entendeu? Tem como compreender o raciocínio de Newton? Como ver onde ele estava equivocado para chegar nas descobertas de Einstein?

Estes livros didáticos são descartáveis, o conteúdo é tão inútil que não podem ser guardados como livros para consulta futura, só servem para engordar uma máquina editorial viciada no dinheiro do governo e dos pais encurralados a pagar o preço extorsivo deste material infame, sem lógica ou utilidade na verdadeira educação consciente.

O uso de tablets implica na existência de material didático apropriado, mas este não existe, assim como inexistem livros didáticos modernos bem feitos, não adianta um tablet que pode tocar vídeos, áudio, interatividade, se o material educacional não existe. Mas viemos de uma longa tradição de material em livros, tudo necessário à boa educação está em livros, foi transmitido em livros, aprendemos em livros, já está pronta, só precisamos de acesso aos livros, e novamente: nada mais útil para isto que o e-reader.

Se vamos usar um tablet para educação precisamos ver suas características com olhar técnico, o que deve ter o aparelho para ser efetivamente usado nos meios educacionais? A primeira questão é a obsolescência programada, estes dispositivos não duram muito e logo já não rodam os programas que encontram-se por aí, o governo vai substituir os aparelhos anualmente? Provavelmente não, portanto precisamos de um aparelho pensado a dar continuidade no processo educacional independente da obsolescência de mercado, muitas vezes programada, para que o consumidor seja obrigado a gastar em um novo aparelho. É necessário definir um padrão, isto o governo ainda não fez e nem tem competência para tanto. É necessário que o aparelho tenha um teclado físico, pois o virtual não é funcional, mesmo no ipad; o aluno vai precisar digitar texto, pois não tem em casa um computador pessoal. O tablet deverá ser resistente, muito mais do que os existentes no mercado, estes aparelhinhos não vão durar meses na mão dos estudantes, também minimamente à prova de umidade.  Entradas e saídas padrão, ou seja, USB e SD. Bateria para agüentar todas as aulas e ainda o estudo em casa, ampla rede de manutenção, só para falar o básico. Você viu alguém falando sobre isso? Não? Então esta compra de tablets é apenas uma piada de mau gosto, e olha que nem estou falando do software e sistema operacional que já deve vir com o aparelho, além da conectividade com internet. Veja, há muito que pensar para acolher com eficiência estes aparelhinhos na sala de aula. É muito interessante o aluno ter estas funcionalidades, mas para a educação ser universal tudo deve estar à disposição do aluno carente. Já fui ativista dos livros, mas com os preços do papel não há quem possa ter este gasto, não importando o quão entusiasmado o aluno esteja, a ele os livros são proibidos, caros, fora de seu universo.

Em sala de aula, o que mais sinto, é a falta dos livros, eles são o material de consulta, a matéria prima da educação, sem eles não há muito o que fazer, nem da parte do professor, nem da parte do aluno que não pode educar-se se tiver um professor ruim. Às vezes comentamos entre nós que esta derrocada educacional não é casual, é causal, e entramos nas mais tresloucadas teorias conspiratórias, mas se fosse casual era de esperar ao longo dos anos alguma melhora mesmo que aleatória, não ocorre, no ensino todas as iniciativas fazem a qualidade despencar, sempre. Não consigo imaginar o grau de estupidez e incompetência para não conseguir uma melhora ao menos casual, é preciso muito esforço e gasto inútil para se conseguir ser tão ruim. Os pais que colocam os filhos em caríssimos colégios particulares também não estão protegidos da estupidez, pois a ideologia eqüina do MEC permeia todo o ensino, é preciso mudar, mudar com inteligência, pois se existe um pré-requisito básico em educação este é a inteligência. Burros não ensinam nada a não ser comer alfafa, capim ou o que tiver, seja com tablets, e-readers, lousas ou apenas bons professores, é preciso pensar a educação em suas bases, sem isto toda iniciativa está fadada ao fracasso, e nossos estudantes condenados à ignorância que afundará o país.

Alex

Novo, Ano Novo

Lá vamos nós em mais uma volta em torno do sol, e apesar de novo, percorreremos o mesmo caminho do ano passado e de nossos antepassados, realizaremos os mesmos rituais, as mesmas superstições, vamos colocar o pé direito no chão no primeiro minuto do novo ano e pular mais três ondinhas, mesmo com a fatídica meia-noite mudada em uma hora. Como perfazemos sempre a mesma cerimônia, qual o motivo de chamar de novo?

Na literatura podemos dizer que há algo novo? É o e-reader novo ou novo é o tablet? Mais um ano de velhas novidades? Para quem não leu Victor Hugo, é novo; Tolstoi? Novíssimo! Até Dante, Cervantes e Shakespeare, novinhos, cheios de velhas novidades para quem não os leu. O novo é bom o velho é ruim, mas sem o velho o novo não existiria, é o que chamamos causalidade; desde que me lembre são as mesmas leis da física que estão em vigor, nenhuma novidade, nem uma modificação, não seria interessante uma pequena modificaçãozinha? Nada muito grande, bem pequenina, uma novidadezinha na maneira que ligam-se quarks. Seria divertido, e também o fim de toda existência do que conhecemos.

O velho, tão execrado, nos é absolutamente necessário, dependemos da tal causalidade que do velho faz o novo que vira velho e escreve a nossa história, e desta causalidade também depende a literatura; Mis Stein tentou aboli-la, do texto nada restou a não ser fragmentos mínimos, pois se o texto imita a vida, é a causalidade também sua matéria-prima. E como perseguiram o novo estes modernistas, com tal afinco que quase acabaram com a causalidade, com toda a vida em busca do novo transitório, que quando se atinge já ficou velho.

Dos clássicos tivemos a consolidação da relação entre literatura e leitor, nos românticos a aproximação dos textos com o leitor e o mundo terreno e com o modernismo tivemos o rompimento com todos os anteriores. O clássico é um valor congelado no tempo, o romantismo um ideal grafado na história, mas o moderno é transitório, pois quando aparece, logo deixa de ser moderno, fica velho, e a modernidade desaparece. O que seria o mundo pós-moderno? Um mundo em desaparecimento? Pois o novo não mais é moderno, e tão pouco não pode mais ser história.

Hoje, na era da ciência, reverenciamos o deus pagão: tecnologia. Se no panteão a ciência é a mãe da tecnologia, como nos antigos gregos, o filho destrona o pai, e a tecnologia passa a existir sem ciência. Logo teremos tablets agradáveis ao olho como o papel e nosso pequeno maravilhoso e-reader deixará de existir; segundo a mídia brasileira, já não existe, é só o tal tablet, a volta ao passado dos processadores que nunca precisamos e o futuro das telas que nunca existirão.

Em relação aos processadores já vemos o que ocorre, chegaram no limite da tecnologia e tiveram que voltar atrás, os núcleos de quatro giga não mais são encontrados, mas não superados, e a velocidade do processador dos tablest é a do meu computador de uma dezena de anos atrás, mesmo os computadores novos não melhoraram muito seu desempenho, mas sempre há algo novo, moderno, para ser comprado e logo descartado.

Nossos futurólogos, sacerdotes do deus tecnologia, anunciam as novas telas que substituirão o e-ink, sem darem-se conta das antigas lições do deus ciência. Existem basicamente duas tecnologias para mostrar imagens, uma que depende de adição de luzes e outra de subtração, e isto é por conta do meio físico em que cada uma impera: RGB, CMYK, o princípio da tela que produz luz é RGB, a que reflete é CMYK, mesmo que nos e-readers atuais tenhamos apenas o K. São meios físicos diferentes, no RGB temos a velocidade da luz no CMYK dependemos de matéria para refletir luz; na superfície dos e-readers, são “bolinhas” pretas ou brancas que vão à superfície e refletem a luz, é esta luz difusa, ou a falta dela  que faz com que vejamos as letras na tela, enquanto o outro emite luz, mais rápido para mudar a imagem, mas depende de maior energia enquanto está sendo lido pois a emissão é contínua, além de projetar um feixe de luz direcionado, para ser difuso gastaria muito mais energia. São variáveis físicas, científicas, e uma inferência errada do deus tecnologia ao afirmar que logo uma substituirá a outra, pois nada na ciência mostrou-se possível.

E-ink colorido? Pode até ser, mas uma tela tem 800×600 de definição, em preto e branco isto dá uma boa resolução, mas se tivermos que dividir os “pixels” em cores vamos ficar com uma tela de resolução medíocre. Se tiverem que reduzir a resolução fico com meu e-ink preto e branco de resolução superior e baixo consumo de energia.

Vencidos os problemas técnicos, ou pelo menos esclarecidos, podemos ir ao mercadológico, mais místico e errático. Se o brasileiro lê em média cinco livros ao ano, dá para ler em um tablet, duas páginas ao dia? Nada! Portanto para manter o Brasil na ignorância o tablet é o instrumento perfeito! Mas se ao contrário quisermos fomentar a leitura, o aparelhinho não serve, e não serve mesmo! Como qualquer leitor que já pegou um e-ink na mão pode comprovar com facilidade.

Muitas vezes temos a impressão que toda esta tecnologia nos torna mais ignorantes, em parte nos tornamos mais conscientes da gigantesca dimensão da nossa ignorância, pois à medida que conhecemos o mundo sabemos que há muito mais a conhecer, o que sabemos torna-se menor perto do que existe a conhecer. Ao longo da história a literatura foi ocupação de poucos, as vendas de Cervantes em seu tempo nunca despertariam a cobiça de nossas editoras, eram poucos a ler, menos a apreciar literatura. Com o tempo o número de leitores foi aumentando, mas pouco, e literatura ainda era ofício elitista, coisa de gente estudada e educada, hoje mais gente tem acesso às letras, mas poucas à literatura, que é ofício mais lento que a própria alfabetização, como o bê-a-bá, exige treino. O público das mil cópias de Ulysses que quase levaram sua editora à falência, já lera Victor Hugo, Tolstoi e Dostoievski, além de muitos outros, a eles o modernismo de Joyce fazia sentido, pois era uma reação a estes que foram lidos anteriormente, cheio de referências aos mesmos, assim como piadas internas contemporâneas marcadas por uma escrita impecável.

A novidade está aí: o e-reader, o novo para quem não leu está aí: em domínio público, grátis. É só perfazer o mesmo velho ritual de nossos antepassados: ler.

Feliz velho ano novo.

Alex

O E-book é uma Festa

Anos vinte, Paris, artistas e escritores convergem para a capital cultural do mundo, alguns para passar uns meses, outros já planejam anos, muitos a vida. As ruas sempre vivas da cidade fervilham de gente, de todos os níveis, de todo mundo; artistas maduros, aprendizes, jornalistas, escritores, curiosos, deslumbrados, moradores e turistas encontram-se nos cafés, restaurantes, praças e museus da cidade. Almas libertas fugindo da incompreensão de suas províncias natais, jovens em busca de sonhos, dirigem-se para aquele local específico, em busca de inspiração, interlocução. Dizem que se você viveu naquele meio, ele nunca mais te larga, viaja contigo, é uma festa móvel, acompanhando-te para onde for, plantando sementes em seu caminho que espalharão o espírito da cidade mais cosmopolita de seu tempo.

Construtores, pintores, atores, autores, poetas, jornalistas, golpistas, bêbados, encontram-se nos cafés, conversam, trocam idéias, conhecem grandes artistas, grandes pessoas, e os que conseguem ao mesmo tempo serem artistas e pessoas; o mestre encontra o aprendiz e logo estão trocando impressões do mundo, usando dos recursos da cidade para criar: os momentos de solidão necessários ao trabalho, os passeios pelas belas paisagens da cidade e o encontro com pessoas diversas vindas dos mais distantes cantos do globo. Do mais humilde ao mais rico, do miserável de espírito ao pobre de dinheiro, todos tinham acesso à cultura, naquele meio ela entrava em ti junto com o ar que respirava, não importando se estivesse ou não interessado, estar em Paris era uma educação compulsória, poderia não saber ler, mas conhecia o nome dos poetas e talvez ouvisse seus versos, muitas vezes do lábio do portador da pena que os escreveu.

Foi uma época mais simples, tempos mais ingênuos, onde o homem ainda ousava sonhar, vivia-se com pouco dinheiro, o mínimo do conforto, mas banhado em arte, paixão, vida. Mais do que nunca as pessoas estavam vivas, apreciando todos os momentos, independente de suas posses, vivia-se ao máximo em Paris, um modesto e honesto vinho nos bancos do jardim de Luxemburgo era mais saboroso que os caríssimos em um grande restaurante, a cidade pulsava com os que a sabiam apreciar.

Livros eram lidos, devorados, aos montes; discutidos, apreciados, criticados, cultivados. Mas não se engane, os habitantes não tinham enormes bibliotecas pessoais, quem estava de passagem não podia comprometer-se com o peso de alguns livros, não eram carregados nas bagagens, mas sim na memória, eram emprestados em bibliotecas particulares, para serem devolvidos e novamente lidos por milhares, o mesmo exemplar passou pelas mãos de Hemingway, Joyce, Fitzgerald e muitos outros, conhecidos e desconhecidos. Livros estrangeiros chegavam à cidade trazidos por viajantes que os esqueciam em seus quartos de hotéis e eram vendidos pelos funcionários da limpeza, para ter alguns francos a mais.

Não era barato viajar a Paris, mas o que a cidade tinha a oferecer, valia mais do que o dinheiro gasto com as passagens, para aqueles que buscavam a vida da cultura. O e-reader ainda não é barato, mas para quem gosta de ler, seu preço vale mais que a passagem, ele lhe permite viver a literatura mais intensamente. Quem hoje tem no Brasil um e-reader, o tem pois quer mais da literatura, já leitor ávido não deixou-se engessar com o estúpido fetiche do papel, são as palavras do livro que importam, não sua materialidade, pois só se leva aquilo que deixou do livro entrar em ti. O aparelhinho encarna o espírito, sem o peso do papel, os livros ainda são os mesmos da velha Paris, ou os novos do mundo inteiro, ainda livros, ainda palavras.

Alex

Forma e Função

A grande diferença entre e-reader e tablet é sua tela, enquanto o primeiro utiliza e-ink onde a luz ambiente é refletida em uma imagem estática, o outro utiliza uma tela retro-iluminada com a imagem piscando em alta velocidade. Para o leitor assíduo de livros este pequeno detalhe traz aos aparelhos funcionalidades completamente distintas. Quem gosta de ler e já manuseou um e-reader, não viu diferença entre o aparelho e o livro, é tão díspar quanto uma edição em papel é de outra. Particularidade que passa despercebida a quem nunca usou o aparelho.

Departamentos de marketing ficam pensando em como colocar traquitanas nos dispositivos e esquecem do básico: sua funcionalidade. Tudo que um Steve Jobs fez foi priorizar este item, ficou famoso com o ipad e muito antes o visicalc do apple II. Todos estes aparelhos não existem per si, são apenas ferramentas para outras tarefas.

No mundo da leitura já existem livros, revistas e jornais. Livros são mais longevos, exigem maior intimidade do leitor, revistas e jornais são descartáveis, acabam indo embrulhar mamão na feira. Seria possível ler um livro impresso como um jornal? Possível sempre é, mas não é confortável, aí é que está o ponto: conforto. Não usamos o computador da mesma maneira que a TV, apesar de parecidos a atitude ao usar os equipamentos é diferente, assistimos televisão inclinados para trás, relaxados; no computador estamos inclinados para frente, atentos. Esta consideração não é minha, faz toda diferença no conteúdo que porta a tela de computador e o aparelho de televisão.

Computador e principalmente a internet nos trouxeram mais ferramentas que usos e a inovação muitas vezes esquece o conforto. O início da internet não foi para público “civil”, os primeiros usos abarcavam a comunidade científica, onde a livre discussão de idéias e os amplos debates poderiam impulsionar a atividade, era ferramenta de discussão, livre, sem fronteiras, imediata, um mail substituía uma carta ou um caríssimo telefonema, quando a internet popularizou-se pensaram até em criar uma rede separada para o uso científico exclusivo. O problema é que a ferramenta era muito melhor que a comunidade científica, acostumada a viver em feudos não se adaptou ao debate aberto e o mundo da internet. A ferramenta é poderosa, idealmente democrática, mas a comunidade científica é essencialmente medíocre, não tem o preparo para usar ferramentas tão poderosas como os fóruns de internet. Imagine o debate entre Einstein e Bohr aberto, diário, na internet! Infelizmente a mente da comunidade é menos iluminada que seu ideário.

Depois tivemos as homepages e mais recentemente seus irmãos blogs. Fazer uma página, normalmente implica em imiscuir-se, no mínimo, em códigos HTML e outros domínios de programadores e designers, se tem necessidade muito específica, não há outro caminho para um bom trabalho, mas o blog, que é uma página já pronta e com máscaras  que excluem o usuário leigo do mundo dos códigos faz uma página minimamente estética e funcional. Jornais e revistas tem esta diagramação padronizada de blogs e nem por isso são piores, lhes confere identidade visual limpa e identificável. Apesar de ler em tela de computador ser menos agradável, blogs comportam com facilidade o mesmo conteúdo de jornais e revistas onde os textos são cada vez mais curtos pela limitação do papel, foi-se o tempo em que ler jornal lhe dava maior base por artigos mais fundamentados; blogs podem portar mais texto sem o limite do papel, acho isto excelente, não me é desconfortável ler um texto mais longo em um blog, é engraçado notar que o formato periódico, com textos descartáveis virou estereótipo de blog, apesar de poderem abrigar textos perenes em seu formato.

Para blogs, revistas e jornais o tablet é excelente, não para o livro mais longo, é a desgraça da retro-iluminação. O conforto da leitura tem alguns fatores: a posição em que se lê, inclinado para frente, em textos menores ou técnicos, ou inclinado para trás, entretenimento ou literatura mais complexa. A coluna de texto também influencia, se muito fina ou larga interfere na leitura, páginas de livros são estáticas, o esquema de “scroll down” é irritante para leitura longa. Mesmo os “hiperlinks” são inoportunos em textos de literatura e devem ser evitados. Leitura consome tempo, baterias de curta duração atrapalham. São fatores de conforto que irão determinar o sucesso ou fracasso dos dispositivos, independentes de bobagens que departamentos de marketing inventam.

Para todos os séculos de literatura que me precederam acho o e-reader perfeito, ficam inventando traquitanas, livros interativos com filmes, música, jogos, comunidades, terceira dimensão. Encantem os tecno-maníacos, mas por favor, deixem nós leitores em paz com e-reader e e-ink.

Alex

Livro, Censura e Mercado

Gutenberg inventou a imprensa, e depois viveram felizes para sempre, não, não é assim que diz a história, afinal os contos de fada ainda não tinham sido criados. Sabemos que o primeiro livro impresso foi a bíblia, a bíblia de Gutenberg, posse milionária de qualquer colecionador nos dias de hoje e nada acessível na época que foi impressa, com seu preço alguém poderia viver por três ou quatro anos, sua confecção foi tão elaborada que levou nosso herói inventor à falência, a tragédia grega já é antiga.

Imaginamos que a igreja ficou honrada em ter a bíblia distribuída entre seus fiéis, novamente estamos enganados, a palavra de deus pertencia ao clero como também sua interpretação, se a bíblia inacessível de Gutenberg não apresentava muito perigo, outras prensas resolveram distribuir cópias mais “populares”, assim preocupavam a igreja que poderia perder o monopólio da interpretação da palavra divina. A prensa passou a ser objeto de perseguição, além de quebrar o monopólio da palavra divina em favor de alguns poucos que sabiam ler, que outras idéias perigosas poderiam difundir-se no meio do povo?

Os livros levemente mais populares causaram a revolução que conhecemos na história, até começo do século XVIII livros entravam como posses no inventário dos falecidos, ainda não eram baratos ou populares. Enrique VIII vendo o perigo da prensa em difundir idéias contra a coroa ou a igreja, resolveu colocar em vigilância todas as prensas, aprovando ou desaprovando o que seria impresso. Surgiram prensas clandestinas, dispostas a distribuir conhecimento proibido, idéias proscritas.

O preço do livro também garantia sua baixa difusão, era inicialmente feito em pergaminho de pele de cabra, uma bíblia de Gutenberg usava cerca de cento e setenta cabras, foi o papel de origem chinesa que permitiu os livros baratearem, inicialmente era feito de restos de roupa usada de linho o que garantia a grande qualidade do papel. Com o aumento da popularidade do livro mais papel começou a ser produzido, o que diminuiu seu preço, até passou a ser feito de polpa de madeira; nesta saga, até nossa era, o livro já chegou a custar muito barato, portanto popular, não aqui.

Nesta história o Brasil é um caso a parte, só nos foi permitido ter imprensa em 1808 com a chegada da família real portuguesa, antes era terminantemente proibida a publicação de livros ou jornais. A educação no país já começou prejudicada pela falta proposital de livros, objetos perigosos, capazes de carregar idéias. Enquanto nossa colônia se manteve livre de educação e livros, nossos amigos do norte estavam aí adiantados quase trezentos anos, com livros sendo impressos e pessoas aprendendo a ler. Hoje os EUA se ressentem que 30% de sua população não seja leitora, aqui, quando muito 30% lêem, sem ressentimentos.

Machado de Assis, autodidata em seu tempo foi um escritor pouco lido, não existiam muitos leitores, livros, cultura e educação eram privilégios. Nosso país mudou, o mundo mudou, mas infelizmente o pensamento do tempo de Machado e o de hoje não é muito diferente. O livro ainda é muito caro. O primo rico do norte, que ganha mais, paga por sua literatura muito menos, e olha que já foi muito mais barato, lá como aqui houve uma concentração do mercado editorial, o que diminuiu títulos e aumentou preços, mas nossa situação é muito, muitíssimo pior.

Sempre fui leitor ávido, guardava o dinheiro do lanche da escola para gastar em livros, freqüentava as inúmeras livrarias do centro com sua imensidão de títulos, era amigo dos livreiros, que sabiam de meu gosto e sempre podiam indicar-me boa leitura. Foi na década de oitenta, uma lógica mercadológica terrível abateu-se sobre os livros, grandes cadeias de livrarias compravam mais, pagavam menos e vendiam mais barato, tinham menos títulos, só os mais vendidos e mesmo assim começaram a sufocar os antigos livreiros. O preço do livro subiu repentinamente, antes podia comprar um livro por semana, depois apenas dois ao mês. Logo após surgiu a auto-ajuda e a coisa toda degringolou, quase não se achava nada para ler que não fosse esta praga.

Se hoje não existisse o ebook e o ereader com e-ink acho que a perspectiva da leitura e da literatura poderia ser muito pior. Nosso mercado editorial impresso joga contra o leitor, imprimem produtos de papel não livros, seu recheio é mera função estética. Não estou agora reclamando da inexpressividade dos escritores contemporâneos brasileiros ou até mundiais, apesar de acreditar que parte deste marasmo literário seja culpa deste modelo editorial que vê livro como produto, nada mais, nada menos.

Livro, papel, até tinta é mercado mundial, nos países ditos desenvolvidos o mercado para livros é grande, aqui é pequeno, lá investem em educação aqui em alienação. O preço alto do livro o faz inacessível, propagando a ignorância, aqui mais caro que lá. O mercado editorial do papel não mais comporta a literatura, alta literatura nunca será popular, é preciso erudição que poucos tem para a entender, mesmo alta literatura já consagrada, fica automaticamente fora do mercado, vende mais por consagração do que por compreensão, consagração funciona apenas como propaganda, a maioria compra e nem lê, dura realidade.

Empresários são criaturas covardes, poucos levemente mais ousados destacam-se, e muitos mais se sobressaem por sorte em vez de competência. Não é possível esperar que sejam mecenas, não é de sua natureza, literatura não pode depender destas criaturas, o livro eletrônico com seu baixo custo de publicação é a única saída da literatura. Mesmo no próprio ramo de ganhar dinheiro empresários são tapados completos, JK Rowlling  foi rejeitada quatorze vezes, foi uma garotinha de oito anos que implorou a seu pai, dono de editora para publicar o livro, o resto já sabemos, incompetentes para fazer dinheiro incompetentes para promover literatura. Isto foi nos EUA, aqui no Brasil não temos quatorze editoras para rejeitar, aliás, literatura de gêneros no Brasil nem interessa os editores, fornecemos apenas um gênero: literatura brasileira, impostores de alta literatura ou com regionalismo estereotipado: seca, floresta amazônica e favelas, com bom tempero de pobreza de dinheiro e de espírito.

Nossas editoras preferem o certo, mesmo que incerto, são leitores impotentes, incapazes de diferenciar um bom de um mau texto, crescem os olhos para escritor que lá vendeu milhão, e não entendem que aqui estes números nunca existirão, pelo menos neste mesmo rumo. O escritor brasileiro no mercado nacional é comparado com o de mercados com números maiores, quem vence?

Como a prensa contra os monges copistas, hoje o ebook enfrenta o papel, livros de papel não vão morrer, mas é no eletrônico que estará a nata da literatura, a diversidade, a liberdade, novas idéias, um novo mundo. Nisto o Brasil começou com o pé esquerdo, aqui o preço de um leitor de livro eletrônico é quatro vezes mais caro que em países onde o salário base é quatro vezes maior. Isto tem que mudar para o bem do país, se somos inferiores é por sermos menos leitores, leitura é educação, única maneira de o brasileiro melhorar sua condição.

Alex

Espírito de Gutenberg


Livros, renascimento, conhecimento, palavras em íntima ligação, será que o artesão que inventou a prensa de tipos móveis poderia imaginar que de todos os seres humanos foi o maior responsável por mudar o mundo? Forço em afirmar que foi a tal prensa que findou uma era de trevas de mil anos. Como foi denominado o período após as trevas? Renascimento. Quem renasceu? A antiga cultura grega. Como? Com a prensa, difundindo livros antes proscritos em monastérios.

Livros dependem da educação, só os lêem os que foram alfabetizados, e para isto são necessários livros, a prensa de Gutenberg tornou mais acessível o conteúdo dos livros, permitiu sua produção em massa. Antes livros eram escritos e copiados a mão, um a um, processo caríssimo, restrito a poucos. Foram bibliotecas monásticas que preservaram a sabedoria da sociedade antiga, livros que depois da impressão em massa puderam espalhar-se, fecundar mentes, cativar seguidores e continuar a tradição da sabedoria ocidental iniciada nas polis de Atenas, inspirando os Romanos e fornecendo o Organon base da escolástica católica forçada por um milênio.

Livros e educação, receita antiga, eficiente contra as vicissitudes da vida, combatendo os males da ignorância. Foram universidades do século 17 que deram origem à ciência moderna, o homem descobriu a prova de sua existência: “cogito ergo sum” disse Descartes, penso logo existo, está no livro, registrando em palavras o pensamento de existência deste incrível matemático e filósofo.

Além dos textos filosóficos, matemáticos e científicos, estes livros puderam ser usados para o entretenimento, homens munidos de sua inventividade, imaginação e criatividade, tornaram as palavras escritas no livro um lazer, espalhando e aperfeiçoando a antiga arte de contar estórias e histórias.

Vivemos e convivemos com o papel, ele tem sido o veículo dos textos impressos nos livros, nos afeiçoamos às estórias dos livros, nos afeiçoamos ao livro, ao papel; não é o cheiro ocre do mofo que cresce no papel, seu peso e sua textura que nos fizeram apaixonar por esta forma, foram as estórias ali contidas, o fruto de mentes deliciosas. O livro eletrônico já existe a bom tempo, mas era desconfortável, ler em posição de atenção sentado de fronte a uma tela não tem o mesmo apelo do cantinho aconchegante cuidadosamente iluminado. Apesar de ser fácil e barato de distribuir, ler no formato eletrônico não permitia o conforto necessário para obras literárias. O papel ainda reinava supremo, como reinavam os monges copistas.

Surge o ebook reader com tela e-ink, e friso bem, e-ink. Talvez quem ainda não conheça esta tecnologia, confunda o e-ink com a tela de LCD ou agora LED, mas para o leitor de literatura a diferença é monstruosa, agradável de ler, não cansa a vista, confortável para Harry Potter, Joyce ou Tolstoi. A febre moderna da tecnologia já está substituindo os computadores complicados pelos modernos e mais intuitivos tablets, estes podem ser usados para ler livros, muito provavelmente bom para o leitor eventual, mas para o leitor freqüente de literatura, só o e-ink é capaz de satisfazer.

O leitor e-ink é o verdadeiro corpo para encarnar o espírito de Gutenberg, a partir daí vem muita mudança para leitores e escritores. Discutir a literatura em sua forma e conteúdo é tudo que será encontrado neste blog.

Alex