Verdades sobre leitura e literatura.

Livros acompanham homem e sociedade, se nossa herança animal está no código genético, guardado no alfabeto químico do DNA; a herança humana está no código das letras, guardada no interior dos livros. Se caminhamos, acrescentamos, e mudamos nossa sociedade, grande parte vem do acúmulo do conhecimento depositado em livros. De todas as mídias que transportam o pensamento humano, a maior parte da cultura está em livros e no papel, até a música antiga, só chegou a nosso tempo pois alguém inventou uma maneira de registra-la em papel. O livro e a escrita não só são a forma mais simples de registro do pensamento, como é ainda hoje a mais efetiva forma de transmissão da herança intelectual.

Desta maneira podemos ver o grau superlativo de importância que toma a alfabetização, é ela que nos insere da natureza como humanos, herdeiros do pensamento de gerações passadas. Mas a tarefa de ensinar o uso das letras para nossas crias está cada vez mais deteriorada, como doença genética que transmite a seu descendente morte e sofrimento físico prematuro. Além do descaso, e da intenção de manter o povo ignorante para que não se diferencie dos animais dóceis de carga, há a ideologização estúpida da educação, mistificando o que é realmente alfabetizar e através das letras educar.

Desaprendemos a ensinar, alfabetizar que era simples, agora virou tarefa impossível, tudo por conta de uma ideologia educacional ignorante, a cartilha que ajudou milhares a ler hoje é demonizada, um absurdo, um desserviço à educação, ou pior, crime. O curso de magistério que ensinava professoras a alfabetizar, foi substituído pelo curso de pedagogia, que tem status universitário mas não ensina a alfabetizar. A cartilha permitia até que professores leigos alfabetizassem, vai me dizer que isso não é incrível? Tentei de todo modo encontrar as bases do tal construtivismo que agora substitui de maneira ineficiente o que já funcionava, dizem vir de Piaget, garanto, não só não há nada do tal construtivismo em Piaget como o próprio cerne do trabalho, tanto desenvolvimentista, como o epistemológico, são contrários ao que prega esta ideologia. A criança constrói sua lógica com base na lógica causal à sua volta, e a cartilha traz para a criança a lógica fonética da nossa língua, simples assim, associando o signo fonético grafado na página com a linguagem oral já dominada. Você pode nunca ter visto ou ouvido a palavra ‘rafrileque”, mas você sabe como falar em voz alta. Esta estupidez de palavra inteira em vez da lógica fonética que é inerente da nossa língua só atrasa e atrapalha o estudante, que demora ter a fluência necessária para ler um livro. Ao contrário do chinês e japonês onde um símbolo representa uma palavra e a criança só vai ler um jornal com onze anos, com o uso da cartilha que traz a lógica fonética, a criança já pode ler com sete ou oito anos. Mas graças à maravilha da ideologia educacional moderna, as pessoas saem semi-analfabetas da universidade!

Vamos ser sinceros, ou existe uma burrice virulenta no sistema de ensino, ou há intenção explícita de deixar o povo ignorante. Não há outra hipótese. É tão óbvio, com cartilha, professoras do curso de magistério sem curso universitário, as crianças liam no máximo com oito anos, hoje saem analfabetos funcionais. Não é à toa que a maior dor de cabeça do governo militar eram os estudantes, problema resolvido, com estudantes ignorantes podemos voltar à ditadura sem oposição. E não é só isso, como é chato um mundo empesteado de ignorância, é tão mais divertido ter pessoas cultas para conversar, debater com opiniões qualificadas, apreciar nuances complexas invisíveis a olhos cegos. Há mais tecnologia, hoje o acesso à informação é muito mais simples, e com o e-reader e-ink, a informação de qualidade dos livros torna-se acessível a muita gente, mas é preciso educação. E o início de tudo, a porta de entrada, a chave para herdar humanidade, está na alfabetização.

Livros são o complemento indispensável, a outra parte, a pedra basilar da educação, se alfabetização é o meio, o livro é o fim. Não há propósito de alfabetização sem livros, a língua portuguesa é inútil sem livros, corpo sem vida; e isto já é conhecido há muito, a frase: “um aposento sem livros é como um corpo sem alma” foi dita por Cícero a mais de dois milênios, como eu sei? Livros! Se palavra é meio, o pensamento humano é o fim, livro seu guardião, depositário fiel do pensamento dos antepassados.

Leitura sem liberdade nada mais é que doutrinação, tudo está em livros, cabe a nós escolher, e através destas escolhas, escolhas de vida, é que se define o ser humano, quem não escolhe, quem anda em brete, é gado, animal, não humano, pois a este a inteligência deu a possibilidade de escolha. Pegue um livro de um assunto que gosta e mesmo mal escrito será bom, pegue um livro de um assunto que não lhe interessa, e seja forçado a ler, e mesmo escrito por um mestre será um pânico; não existem universalidades, só liberdade. E é assim na república de livros, liberdade para descobrir seus gostos, liberdade para trilhar o seu caminho, e antes de tudo escolha consciente, a única fonte de iluminação do homem. E isto está em livros, veja Kant a mais de duzentos anos atrás.

Alfabetização como chave para o mundo dos livros, e livros como a porta de saída da ignorância. Mas não pense que todo livro é igual, ler é um aprendizado constante, progressivo, deve-se entender que existe escrita mais simples, para assuntos mais simples, e existe escrita mais complexa, para assuntos mais complexos, e não importa o livro, se o assunto não é de seu interesse pessoal, não importa quão bem ou mal escrito, quão simples ou complexo, o tal livro não vai lhe interessar, e não há pecado, não existem obras obrigatórias, o mundo dos livros é vasto e os caminhos são infinitos, para todas as pessoas diversas que caminham sobre a terra e que ainda irão caminhar.

Assim, qualquer literatura forçada é derrogatória ao prazer da leitura, ninguém pode obrigar um livro, mas podemos seduzir. Literatura forçada é pior que casamento arranjado, mas sedução, esta sim é garantia de união.

Pessoas alfabetizadas precisam treinar ler, desenvolver suas habilidades, e isto só acontece lendo, é uma jornada sem fim, quem abandona o caminho, deixa de lado a própria vida como humano, perde sua herança. E assim sem livros acessíveis, sem liberdade de escolha, não há leitura, muito menos literatura, nem humanidade. É preciso que as pessoas tenham acesso aos livros para que treinem a leitura, desde a idade mais nova; se não lerem, não praticam, não aprendem e permanecem semi-analfabetas; sem livros círculo vicioso, com livros virtuoso, e como para desfrutar da literatura é necessária liberdade, é preciso acesso a muitos livros para achar o que se deseja ler. A escassez monetária é limitante, era mais nos livros de papel, menor nos eletrônicos que podem ser replicados sem custo, lógico que o imposto é um empecilho, mas é a prova cabal da vergonha que mostra membros deste governo contra a educação. Embrulha-me o estômago só de pensar em como este governo do PT é mesquinho, mantendo os brasileiros ignorantes, em curral para animal, curral eleitoral, onde a única porta de saída, educação, está bloqueada!

A luta do iluminismo ainda não terminou, ou nem começou, e o caminho do esclarecimento está nos livros, lidos, experimentados, pensados com a própria cabeça e não engolidos e vomitados. É impressionante como encontraremos a mais pura ignorância disfarçada das mais variadas e nefastas ideologias, e mais assustador é ver como muitos ditos intelectuais são em realidade ignorantes funcionais que deixaram de pensar e raciocinar com a própria cabeça para recitar dogmas que não se deram o trabalho de elaborar com o próprio cérebro.

Escrever é meio, o que se escreve é fim, o assunto do qual queremos falar, a história que desejamos contar. Assim encontramos alguns casos: quem sabe escrever e tem algo a dizer, quem não sabe escrever e não tem nada a dizer, quem sabe escrever e não tem nada a dizer e quem não sabe escrever mas tem algo a dizer. E com um pouco mais de variação todos os livros caem nestas categorias. Em teoria o melhor livro obviamente é de quem sabe escrever e tem algo a dizer, mas não é o que se pensa hoje em dia, há uma virulenta falta de objetividade nos critérios para avaliar literatura, um pouco culpa de uma seqüência histórica ruim, outra parte da falta de senso que hoje persiste nesta seqüência ruim.

A grosso modo alguns dos chamados modernistas ainda olhavam para o passado, para a história, mas outra parte decidiu romper a linha e esquecer o passado, e foi tudo que sobrou no pós-modernismo, fim da arte, fim da vida. Uma maneira de libertar a arte foi ater-se exclusivamente à forma, e assim em nosso tempo a arte está livre, totalmente livre, do passado, da vida, da própria arte. E os pseudo-intelectuais andam por aí a propagar esta ideologia de morte, atendo-se à forma, à forma já estereotipada no passado modernista, e esquecendo que livros devem ter conteúdo, o fim para o qual se escrevia.

É preciso ter claro o caminho historicista que levou ao abismo, à morte da arte. A história é velha, o historicismo é novo; historiadores tem milhares de anos, historicismo poucas centenas. É preciso notar o quanto de ideologia e inutilidade vem embutido no historicismo, e quando uma ferramenta, um meio, por ignorância vira fim. Grande parte da culpa está na visão hegeliana que lambuzou o maxismo, e o subseqüente marxismo empesteou quase toda dita “ciência” social. O relativismo histórico hegeliano, infundiu-se na idéia boba da inevitabilidade do desfecho das doutrinas marxistas, e assim levou a esta cisma estúpida que emporcalha o pensamento moderno. Não que o pensamento de Hegel e Marx seja inútil, são importantes como todos dogmas passados, e assim como Aritóteles usado pela igreja de forma dogmática foi um mal, o uso dogmático do hegelianismo camuflado em Marx, deu origem a este historicismo que substitui a história, a ferramenta como fim e não como meio.

O abismo desta linha historicista foi bem desfrutado por Gertrude Stein, mas ela, ao contrário de muitos modernistas que esqueceram a história, conhecia o seu passado, experimentou até chegar ao abismo, a morte da escrita no momento que aboliu o tempo, a relação causal da escrita, nada sobrou, ser estéril que não logra deixar descendentes de tão mutilado, fim de uma linhagem. O incrível é como hoje em dia ainda insistem que todos os caminhos da literatura devem levar ao abismo, a intensidade da vida alardeada por Baudelaire, é mais desfrutada se com a consciência preconizada por Kant, não há vida intensa sem ser consciente para perceber, entender e desfrutar dos sabores e gostos superlativos.

Literatura como arte, como fim último da escrita e leitura precisa desvencilhar-se de seu passado niilista, entender de onde vem seus genes, e saber que sem eles nada há. O ineditismo narrativo tem cobrado preço alto da literatura, e vimos o fim no trabalho de Miss Stein. Construir máquinas narrativas inéditas acaba virando um clichê que repele o conteúdo, prioriza a forma, e de certa maneira perde o objetivo da escrita, como a comida que levou muito sal, passa do ponto. Podemos ver bem este dilema na obra de Joyce que culmina com Ulysses e declina abruptamente em Finnegans Wake, que perde o apelo ao leitor normal e só cativa a quem estuda literatura pura ou aprecia apenas arte narrativa. É preciso entender que escrever ainda é um meio de comunicação e quando deixa de comunicar, perdeu sua função, há que existir um equilíbrio, um balanço, e é neste equilíbrio que encontra-se a arte última, ou apenas arte. Qualquer artífice escreve, e se dotado de grande habilidade, produz arte. A exclusiva prioridade da forma pura já mostrou sua infertilidade, cabe a seus ideólogos perceberem que trilham o caminho de morte e mudar a rota.

Às vezes não percebemos como alfabetização, educação, leitura, literatura e arte estão completamente intrincados, compartimentalizamos o conhecimento em vasos estanques e impermeáveis que fermentaram seu próprio miasma, longe da exuberância da vida que permeia toda a obra humana, o diagnóstico último da patologia vem quando somos presenteados com ferramentas de imensa capacidade e ficamos impotentes, é assim com a internet e o e-reader, se um dia a prensa de Gutenberg nos permitiu sair de uma escuridão de mil anos, precisamos novamente achar a luz do iluminismo, e não deixar-se de forma passiva cair novamente na escuridão da ignorância. As ferramentas estão disponíveis, só nos resta usar, criar, ousar, desafiar, e só assim teremos a intensidade da vida almejada pro Baudelaire, sem mentiras, sem porres homéricos, mas plena. Se há algo que sabemos é que esta vida não veio com manual de instruções, e é nossa obrigação e prazer usa-la da melhor forma possível, afinal, quando acabar-se, aí sim nada teremos. Vivemos pois a vida merece, não desperdicemos o legado, e aproveitemos da sabedoria e cultura de nossos antepassados para viver mais, com maior intensidade, plenitude e consciência, e é nos livros que se encontram estes legados, nos permite viver e deixar a outros nossa contribuição, para que do que tivemos, eles tenham mais, por isso o passado é importante, a história e sua compreensão, o fim da história é o fim da vida.

Leia, aprenda, desfrute, divirta-se e viva.

Alex