Dica de Escrita #6: Clichê Literário

Com a frase: “A marquesa saiu às cinco horas” Cortázar inicia seu livro “Os Prêmios”, a passagem ficou cunhada na história da literatura por um comentário de Valéry, que disse ser incapaz de escrever uma frase tão comum como esta. Dos começos vulgares de romance, o cunhado por Valéry virou paradigma, é o mais vulgar, mais estigmatizado e mal interpretado. Alguns acharam que o ineditismo é o valor máximo da criação literária, outros viram o absurdo da afirmação, se a marquesa sai às cinco horas, ela saiu às cinco horas, se José sai às sete horas para trabalhar, ele irá sair às sete horas toda semana de segunda a sábado, é a sua rotina, é parte da vida.

Esta obsessão com o novo foi marca dos críticos do romance, e de certa maneira acéfala passou incólume até a literatura pós-moderna; um preconceito, um chavão que é engolido e repetido sem pensamento, sem elaboração por parte do escritor. Os modernistas jogaram as últimas pás de terra no enterro da retórica, que hoje virou sinônimo de afetação vazia, uma vez que definia regras para afirmar o que era ou não um bom texto, as mesmas regras dos “manuais de redação e estilo”. Qualquer manual que defina um estilo, assim como qualquer escritor que copie o estilo de outro, é por definição falta de estilo. Muitas destas regras são seguidas, sem que o escritor entenda ou elabore o motivo de sua existência, desta maneira muitos autores não entendem o efeito da repetição de uma mesma palavra, pois a regra diz para evitar tais repetições; uma palavra dobrada, independente do contexto, enfatiza tal palavra, criando uma significação mais forte, mais enfática, quando acidental, acentua pontos indesejáveis como a repetição acima; mas ao outro lado a repetição é inestimável quando o autor quer enfatizar a palavra ou faze-la ecoar no texto incorporando os significados ou predicados a ela atribuídos. O uso da regra sem conhecer seus fundamentos deixa o escritor manco, privado de um recurso extremamente poderoso. Existem mais destas regras, que se não pensadas e entendidas, apenas seguidas, privam o escritor da elaboração intelectual necessária à formação de um estilo.

Em suas micro teses sobre o conto Piglia toma como base uma frase escrita por Chekov em um livro de apontamentos: “Um homem, em Montecarlo, vai ao Cassino, ganha um milhão, volta para casa e se suicida”, postula que a forma clássica do conto encontra-se nesta chamada, pois encerra duas estórias: ir ao cassino e ganhar (a estória evidente) e o suicídio (a estória secreta). Se Chekov tivesse escrito: “Uma homem, em Montecarlo, vai ao cassino, ganha um milhão, volta para casa e comemora”, aqui não teríamos matéria de conto, pois o corte, a tensão inesperada do final não existiria. Pode até ser interessante, mas esta necessidade do tal corte, acaba sendo um clichê literário: para ser considerado literário um texto deve ter estas incongruências, a ponto desta incoerência tornar-se central no texto, deixando de lado toda outra elaboração intelectual por parte do autor.

A incoerência é um recurso simples para um autor passar-se por literato, o chavão é execrado em toda literatura pelos eruditos, falham em perceber que a aberração dos textos é chavão mais comum do que a escrita estereotipada dos escritos paternalistas de auto-ajuda; inferior até à literatura de puro entretenimento, que teve o trabalho de elaborar uma coerência narrativa, por mais pobre que seja o linguajar do escritor.

Há uma confusão entre arte e literatura, impingindo à segunda estereótipos da primeira. Arte é uma palavrinha difícil, cheia de misticismos inúteis, e este pensamento supersticioso acaba impregnando a literatura. Até hoje a melhor definição que encontrei para arte é: significar alta habilidade artesã, ou um ideal estético elevado, também alcançado na artesania, e esta é a palavra que melhor define a escrita, manufaturada, mas nem tudo que é artesanal é bem feito, é preciso habilidade; e mais do que isto, é necessário pensar o uso das ferramentas para montar a sua própria “máquina narrativa”, será a invenção do autor, vai representar seu ego, não voltado a si, mas à sua devoção pelo trabalho.

Arte como artesanato na busca de um ideal estético elevado, pode ser entendida na habilidade do autor de pensar seu ofício, juntar palavras de forma consciente. Dentro de sua máquina narrativa existem diversas peças, se algumas funcionam bem para o efeito final, não é necessário trocar, assim, há algo de ordinário, mas pensado. O texto incoerente como “mais artístico” é apenas um clichê menos artístico, uma opção não pensada para aparentar arte, sem a complicada elaboração necessária ao pensamento profundo, ou a busca estética elevada.

Cada época tem uma moda, a escrita banal condenada por Valéry nas novelas, é hoje a narrativa incoerente, aberta, sem sentido ou aleatória, a marquesa agora sai e suicida-se.

O autor assim como artista é caprichoso, usa a linguagem de forma única e particular e para isto deve provar o trabalho dos vários escritores. Só se aprende literatura lendo, apreciando os diversos recursos criados pelos múltiplos autores, a sua escrita é a elaboração particular de tudo que leu, seja a imitar ou contestar, mas conhecer os predecessores é fundamental, experimentar a escrita como se experimenta uma iguaria culinária, é um contato pessoal que não pode ser substituído, só lendo as obras é que se tem este contato. Não adianta ouvir falar de um livro ou um autor, deve-se experimentar com os próprios sentidos, e avaliar com a própria consciência, é este contato íntimo que expande a cultura literária, necessária ao autor na hora de colocar “mãos à obra” e artesanalmente elaborar os próprios textos.

O clichê vem de uma cópia sem elaboração de qualquer elemento textual, tenta parecer o que não foi incubado na escrita. Um bom jeito de evitar clichês é aprender a identificá-los nos livros que lê. Escrever é unir forma e função, os mestres conseguiram reunir estes elementos para formar um todo coeso, sempre que ver um elemento que não se encaixa, aparece forçado no meio de um texto, e principalmente: está na moda, soe o alarme, estará diante de um clichê.

Alex

Ficção, Idéia e Enredo

Ficção, estórias, realidade e fantasia são matérias primas básicas do escritor, mas o resultado final materializa-se no papel na forma de palavras organizadas, como o escultor que cinzela sua visão na rocha ou o pintor que deposita tintas na tela. Imaginação pura não é suficiente, é preciso afiar as ferramentas e ter controle do resultado, isto significa dominar a linguagem.

A palavra escrita é uma brincadeira de códigos, existem muitos diferentes espalhados pelo mundo com suas particularidades, diferentes ferramentas que vão influenciar no resultado final do autor. Sem querer entrar em complicações semiológicas, é preciso perceber que há a idéia, sua materialização escrita (ou intermediário), e o receptor, que é o leitor, quem recebe a mensagem. Para escrever é preciso conhecer o código, ler significa decodificar a mensagem, em algum nível a apropriação da linguagem é particular de cada pessoa, mas como há comunicação, existe algo necessariamente em comum entre emissor e receptor, e este algo em comum é a associação do código, a linguagem, com o mundo real, é esta associação que permite a decodificação universal da linguagem. A lógica do mundo real é que sustenta a semântica do código, sem esta associação não há possibilidade de compreensão comum de qualquer código.

Visto que o escritor não pode ter controle sobre a apropriação particular de cada um sobre a linguagem, ele só pode dispor de sua relação com o mundo real, e em sua afinidade particular com o código, aproxima-lo com a realidade para que se assemelhe a uma compreensão universal. Um bom escritor irá tentar através da escrita materializar sua ficção em uma realidade grafada, mas aí há um problema, ele estará limitado ao universo em que vive o leitor. A grosso modo, não posso comunicar-me em português com quem só domina o chinês, e em casos mais simples, não posso entrar no universo da física quântica com quem não domina o assunto ou sua “realidade” básica. Tome como exemplo este texto, ele não é simples, e a maioria das pessoas não vai entender, pois não é de um universo comum, apenas do universo de quem preocupa-se com escrita e linguagem.

Aqui entramos em um dilema comum a quem começa a apropriar-se da linguagem, se o escritor limitar-se à apropriação mediana da linguagem na população, seu repertório estará limitado a um coletivo comum e mediocrizante. Ao explorar a linguagem o autor caminha por terrenos onde a média não freqüenta, distanciando-o do grande público. Quando lemos um autor de ponta, somos obrigados a nos educar na sua maneira de escrever, seja Dickens, Poe, Fitzgerald, Sterne ou Machado, cada um obriga o leitor a ampliar seu universo lingüístico.

Se o bom escritor quiser fugir da média não escapa da sina de educar o leitor, há leitores abertos a tal jogo e outros não. Nos livros de auto-ajuda a linguagem é sempre paternalista, nunca há desafio, e se o autor usar de frases feitas, melhor, pois o leitor nem tem o trabalho de ler, pois já viu a frase milhares de vezes, é uma literatura de carícia ao ego, não pode desafiar o leitor, colocar obstáculos a serem vencidos para que cresça, assim, com esta bajulação cifras apreciáveis de venda são conseguidas. Há um tipo de leitor mais raro que deseja ser desafiado e crescer, mas mesmo este não está livre das armadilhas, ao desafiar um bom livro, há sempre o risco de ganhar ou perder, compreender ou não entender, ou ainda ter uma compreensão errada disfarçada de entendimento. Vou explicar: assim como o domínio completo da língua por parte do autor é impossível, pois significaria a compreensão completa do leitor, o mesmo é válido ao leitor, há sempre um nível de incompreensão que o leitor pode preencher com sua imaginação, esta imprecisão esta limitada pela habilidade do autor de materializar no texto sua intenção mesmo que de forma velada. No que o texto falha a imaginação do leitor impera e em seu extremo poderíamos ler páginas em branco, atividade do escritor. Um leitor muito crédulo encontrará significados onde não há, e um autor vigarista pode usar desta particularidade, escrevendo coisas sem sentido e deixando a interpretação por conta do leitor, uma espécie de teste de Rorschach onde o subconsciente projeta suas imagens. Tal armadilha é tentadora, pois materializa projeções do próprio leitor, inexistentes na intenção do autor, um tipo de texto que ajusta-se ao que o leitor quiser, abdicando da necessidade de compreensão textual e da relação autor leitor.

Se o autor escreve “carro” o leitor pode imaginar qualquer tipo de carro, mas se o autor diz: “um fusca verde, com a porta amassada, sem farol, com pneus carecas e vidro escurecido”, temos uma imagem muito mais precisa do tal carro. A cena na mente do autor é sempre mais detalhada do que é condensado no papel, cabe ao escritor escolher os elementos corretos para descrever e montar uma estória, cada palavra vai trazer uma imagem que será somada ao todo e funcionará em conjunto com todo texto. Muito particular de cada língua é o som de uma frase, o ritmo de um parágrafo, os sons também imprimem um efeito, na poesia é guia, na prosa escravo da compreensão do texto.

Há gente que advoga que há na escrita duas partes distintas, uma evidente e outra “secreta”, a “profundidade” do texto viria desta parte cifrada e isto seria obra dos bons autores, mas vamos pensar no contrário, seria fácil fazer um texto com um único e preciso significado? Certamente não, uma vez que o domínio absoluto da linguagem é impossível, pois significaria dominar a compreensão da linguagem do leitor.  Uma vez que o texto é apenas uma representação gráfica, é óbvio que seu significado só tem dimensão na mente de quem lê, assim o autor vai imprimindo no leitor com o uso das palavras idéias, de maneira mais ou menos precisa, mas nunca absoluta. Da matéria prima que existe na cabeça do escritor, a parte escrita é apenas uma pequena parte, mas a única visível pelo leitor, assim há uma grande parte da imaginação que não vai para a página, mas forma um todo do qual foi retirado partes.

Uma vez que não existe controle absoluto da linguagem, e a parte escrita é apenas pedaço de um universo imaginativo, sempre haverá uma segunda dimensão em um texto escrito. Aqui entramos em uma outra consideração, o enredo, que é a parte que liga a parte visível e subliminar do texto para coagular uma estória. Podemos ver como Chekhov é o mestre no seu enredo, interligando todas as partes de suas estórias em um todo.

Enredo não é a estória linear, é um todo que permeia a obra e só pode ser visto ao atingir o ponto final, pois ele compreende a integridade do texto. É engraçado como o enredo é a parte mais difícil para escritores e leitores, trabalhar o enredo por parte do autor e compreende-lo da parte do leitor. É um todo composto de todas as palavras, frases e parágrafos da obra, é a cola que junta tudo.

É engraçado como a falta de um enredo estraga completamente o que poderia ser uma boa estória, pois evidencia a falta de intenção ou planejamento do escritor. Com exemplos televisivos podemos mostrar isto bem, X Files e Lost, ambas séries com final estúpido que estraga todos os episódios anteriores, um blefe. Como já disse antes, é fácil capturar o leitor com o mistério, jogando elementos aleatórios e deixando que o leitor faça suas conexões, mas no momento das peças juntarem, não encaixam, aí fica evidente que não houve enredo, a farsa é desmascarada. Uma forma de não ser desmascarado é deixar o enredo em aberto, muito comum em escritores pós-modernos. É preciso cuidado para que um enredo aberto não seja apenas uma falta de enredo e nisto podemos voltar a nos referirmos a Checkov, mestre do enredo.

Uma bom enredo é um aspecto esquecido e desprezado nas estórias modernas, ao meu ver, fundamental para uma boa estória, é o ingrediente mais raro a encontrar de boa qualidade, mesmo em produções milionárias, a maioria dos enredos é paupérrima. O que o faz tão difícil e desafiador?

Alex

Literatura em Teoria e Prática

Li, sempre li, e nunca me preocupei com o que lia, seu pedigree ou sua importância no panorama literário, nem ao menos importava-me com quem veio antes ou depois, eram apenas livros, bons ou ruins, bem escritos ou mal escritos, foram compostos para serem lidos, puro desfrute, sem nenhuma outra intenção. Tirando algumas desventuras em créditos eletivos, nunca adentrei o mundo das teorias literárias, eis que depois de um tempo dei-me conta que havia um buraco na minha literatura, lia coisas velhas e muito velhas e dos poucos mais novos, nenhum brasileiro. Tal percepção aguçou-me a curiosidade e fui procurar na crítica de jornal o que seria digno do investimento, meia dúzia de livros depois senti-me enganado, ludibriado, não consegui gostar de nada além de achar a maioria dos livros muito mal escritos, comecei a questionar a validade da crítica que incensava tais obras e uma nova pergunta surgiu-me: o que é escrever bem contemporâneo? Parecia uma pergunta fácil, fui tirar a dúvida com alguns acadêmicos e não obtive uma resposta direta, muito menos a crítica podia ajudar-me.

Resolvi colocar mãos à obra e ver na prática o que os professores de escrita dizem: mais confusão, será que não consigo uma simples resposta para minha pergunta? Machado de Assis escreve bem, o mesmo posso dizer de Lima Barreto, mas o seu jeito ficou atrás no tempo e alguém que hoje os imitasse não seria considerado um bom escritor e ainda correria o sério risco de um pastiche caricato.

Apesar de parecer que toda a teoria literária vem de épocas imemoriais, ela é relativamente recente e em sua maioria segue linha historiográfica, agrupando autores segundo suas épocas e modismos. Ainda mais recente é a semiologia, mas acaba sendo auto-referente, preocupando-se em classificar um livro dentro dos próprios padrões artificiais que criaram, sem responder nenhuma questão fora de seu universo.

A linha historiográfica é simples e lógica, cria uma seqüência bastante inteligível do que seria a história da literatura e tenta por este prisma qualificar e classificar as obras, inserindo-as em sua linha temporal. Vista de longe é perfeita, explica tudo, mas quando você lê toma contato íntimo com as obras e passa enxergar o que os especialistas chamam “fraturas”, aquele todo coeso da teoria começa a rachar, evidenciando nas obras diferenças irreconciliáveis que as impede de serem agrupadas da maneira historicista sem que a classificação pareça forçada e sem sentido.

É óbvio que as pessoas de um mesmo tempo tem traços em comum, posso afirmar com toda certeza que Dickens nem nenhum de seus contemporâneos viajou em um avião a jato, não esquentaram comida no micro-ondas, nem navegaram na internet; são pontos em comum, mas nada explicam a obra do autor, absolutamente única. Dickens é fruto de seu tempo assim como todos os outros nascidos em datas semelhantes, e portanto carregam afinidades que vão aparecer em suas obras, mas se algo faz de “ A Tale of Two Cities” uma obra especial, não é o que tem de comum com o seu tempo, mas o que tem de diferente, de mágico, de sublime na habilidade e imaginação do escritor.

Talvez a historiografia explique todos os autores medíocres, pois seu método medianiza os escritores, mas perde o essencial ao tentar classificar os notáveis. Ao ler uma obra percebemos tudo que a classificação historiográfica deixou de entender, podemos mergulhar nas minúcias detalhadas e únicas criadas pelos grandes escritores.

Desta maneira, não importa o quão versado você seja em teoria literária, literatura em seu cerne é coisa prática e só podemos entender tomando contato direto com a obra de um autor. Acontece que como tudo na vida, de todos os livros que lemos, esquecemos muitos, assim como esquecemos passagens de nosso cotidiano, mas de alguma maneira uma experiência mais profunda fica da vivência de uma obra. Ao ler o livro o autor cria em ti uma impressão e esta é indelével, lembro que quando assisti ao filme do “Senhor dos Anéis”, mais de uma dezena de anos após ler a obra, à parte o que foi mudado, muitas cenas nem lembrava, e foi um dos livros que mais gostei de ler. Raramente releio um livro, prefiro novas aventuras aos trilhos já caminhados, atualmente com a facilidade do e-reader reli algumas obras no original; não passaria na minha cabeça ter duas versões do mesmo livro que já li em português, mas o e-reader tornou o processo sem custo nas obras de domínio público, e mais barata em alguns não tão velhos. Dickens é um que no original é muitíssimo melhor que a tradução, até parece outro livro, é outro contato com a obra, sem intermediários, mais puro e exponencialmente mais intenso; em inglês é um grande escritor a olhos vistos, traduzido é muito menor.

Nestas andanças minha visão começou a clarear e obtive respostas às minhas perguntas, respostas que a mim parecem práticas. Por que não leio antigos e contemporâneos na mesma proporção? Aqui a resposta é muito simples, o que existe na literatura em quinhentos anos é muito mais do que esta janela de cinqüenta anos, e muito mais se compararmos o mundo com o que é produzido apenas no Brasil, assim, ler escritores brasileiros em demasia seria de uma miopia policarpista extrema. Não há de se ter preconceitos em literatura, além disto, pensem em uma data, quantos livros memoráveis associados a ela? Não muitos? Ou nenhum? Desta maneira, mesmo livros laureados com prêmios anuais, são mera titica, perto do conjunto da literatura mundial em todos os tempos. Por que devo dar-me ao trabalho de ler porcaria quando tenho uma grande quantidade de tesouros ainda a ler?

A segunda pergunta do que é escrever bem contemporâneo, é um pouco mais complicada, pois não existe um escrever contemporâneo; escrever bem é escrever bem em qualquer época, tem a ver com a habilidade do autor de usar a linguagem para causar um efeito no leitor, cada grande autor usou sua língua de maneira diferente, assim escrever bem é ser efetivo com a linguagem no que se pretende dizer. Copiar grandes escritores não é escrever bem, deve-se criar seu jeito, um que expresse da melhor maneira o que pretende dizer.

Não importa quão bem escrito seja um livro, se ele não tratar de assuntos de seu interesse, não irá gostar, só os interessados em literatura pura gostam de bons autores que nada tem a dizer. Literatura, na simplicidade da relação autor e leitor é apenas desfrute, e precisa ser experimentada “in natura”, não há teoria que substitua a prática; às vezes a teoria pode suscitar discussões interessantes, mas sem o contato direto e íntimo com as obras, é material inútil. O fundamental a saber de literatura é: Leia! Apenas leia, não se deixe intimidar por textos difíceis, enfrente-os, e não se deixe cair nas armadilhas dos vigaristas, tenha um contado direto com o livro, não se deixe enganar, é a sua experiência que conta.

Alex

Palavras: O Quanto Baste

Conto, novela e romance são considerados artigos distintos, mas a única e verdadeira diferença está na extensão do texto, difícil passar por qualquer classificação que não cruze com esta verdade óbvia, e ainda assim, a fronteira entre os universos não é uma linha bem definida. Qual o limite de tamanho de um conto para chamar-se romance? Impossível dizer.

Muito da existência do conto deve-se ao espaço a ele destinado nos periódicos, que não se prestavam à publicação de livros de grandes dimensões, mas podem, sem problema, apresentar grandes romances ao público de forma serializada, o que não é o caso do conto, onde início e fim da estória estão encerrados nos restritos limites a ele permitidos.

Pela disponibilidade do espaço, os escritores começaram a experimentar a forma, dentre os grandes contistas modernos estão Dickens e Poe, o primeiro abusou também da forma serial, instrumentalizando os textos para deixar no leitor a ânsia para ler o próximo, este “gancho” foi uma de suas grandes obras. Poe já foi mais prolixo na forma curta e única, escreveu até um pequenino ensaio onde descreve a mecânica da composição de seu poema “The Raven”, mestral. Apesar do “The Philosophy of Composition” falar de um poema, é fácil ver o raciocínio de Poe na elaboração de seus contos, ele procura um efeito, e este irá culminar no desfecho da estória. Como este ensaio é um dos poucos a tratar do assunto, marcou o estudo da forma e de certa maneira definiu para os estudiosos o que seria o conto “clássico”. Para Poe o formato curto é bom, pois é impossível manter o leitor em estado excitado por mais de duas horas, assim o texto deve neste espaço criar o maior efeito possível, ele advoga um tipo de conto “One Shot”, onde todos os elementos da estória contribuem para o desfecho final.

Poe é considerado principalmente em sua terra natal como um dos melhores maus escritores, o que não posso corroborar, pois se analisada sua habilidade com a escrita, não é obra de escritor menor, pode haver uma irregularidade na qualidade de seus textos, mas qual grande autor não tem altos e baixos? Parece que o grande problema é ter-se dedicado a um tema menos “literário” que seria o horror, o mistério, considerados gêneros menores, puro preconceito estúpido. Não é preciso lembrar que “The Murders in The Rue Morgue” iniciou todo o gênero policial investigativo. Além de seus contos de terror, que como prega em seu ensaio, criam um efeito forte. Não se deixe enganar, Poe foi grande.

Logo a seguir da morte de Poe, nasce a criança que será o maior contista de todos os tempos: estou falando de Anton Checkov. Se o conto de Poe era “One Shot”, as estórias de Checkov mostram uma sofisticação de personagens e uma trama de enredo que é tudo, menos linear, pelo menos à primeira vista. Enquanto Poe procura um efeito forte e evidente, com todos elementos contribuindo para o desfecho, o “efeito” nos contos de Checkov não é menor, mas vem de um caminho labiríntico enredado na estória. Advindo de uma tradição de escrita iniciada com Pushkin e Gogol, seus temas são menos fantásticos, refletindo a vida de pessoas normais, assim como Dickens que retratava os pobres em sua obra, antes personagens ignorados, Checkov mostra pobreza não como chaga, mas apenas como uma face “normal” da vida da pessoa comum.

Ricardo Piglia, um estudioso argentino tem uma teoria pelo qual nos contos existem duas estórias, uma evidente e outra escondida, a primeira está ali literal no texto do autor, a segunda é fragmentária e, nos contos clássicos, vai encontrar a parte literal no final para culminar no tal efeito dito por Poe. Já em Checkov, considerado um contista “moderno”, as duas estórias tem andamento independente e não necessariamente encontram-se no final, ambas estórias são contadas ao mesmo tempo. Hemingway compara uma estória com um iceberg, onde a parte que se vê é menor que a submersa. Em certa parte a definição do Forster de personagem arredondado e plano, traz a mesma consideração, pois o personagem arredondado é um conjunto complexo e turbulento onde não é possível prever com precisão as ações, assim surpreende o leitor de uma forma convincente; tem um lado não visível (secreto), que floresce em uma surpresa para o leitor.

Tendo a considerar a classificação “taxonômica” de Piglia como uma artificialidade acadêmica, mera classificação intelectual inútil ao escritor, e ainda tenho dificuldades em imaginar qualquer escritor fazendo crochê com duas estórias. Um texto é um elemento figurativo, e em sua essência nada representa que não sejam borrões de tinta em papel, é óbvio que há uma tentativa linear de contar uma estória, mas mesmo no contexto literal, o texto apresenta uma bidimensionalidade que não pode ser representante da vida real, tridimensional. Assim, como bem explica Hemingway, a parte visível da estória: o texto, é ínfimo perto do universo imaginativo que condensou tais palavras no papel. Desta maneira, não existem duas estórias, mas apenas uma, com sua parte literal e subliminar imbricadas, representando o mesmo universo, a imaginação do autor.

Em outras alusões feitas não por estudiosos mas por autores, o conto é considerado uma forma difícil por seu tamanho limitado, esta é uma consideração prática muito interessante, que foi expressa por Faulkner, Capote, Updike e Steinbeck dos que me lembro. Um conto tem menos palavras, consequentemente menos frases, desta maneira uma frase ruim sobressai; em textos mais longos a frase ruim pode ficar escondida, é uma fração menor do todo. Assim, quanto mais curto o texto, maior é a exigência com a linguagem. Cada frase em um texto de meia página é muito mais valiosa que no meio de cinqüenta páginas, onde uma escolha ruim passa despercebida.

Mas aí vem a questão que importa ao escritor: qual o tamanho do texto? Acredito que um texto deva ter as palavras que bastem para seu efeito, seja em quinhentas páginas ou meia, faz parte da arte do autor escolher as palavras, organiza-las em frases para contar uma estória, e não nos cabe aqui colocar qualquer tipo de cabresto, mas notar que as escolhas devem ser mais cuidadosas na medida que o texto é menor, mas ao mesmo tempo um texto longo, escrito com a mesma intensidade de um Checkov ou uma Alice Munro, pode tornar-se demasiado intenso, perdendo sua efetividade. Muitas vezes penso no texto como uma linha de jazz, onde momentos de tensão e relaxamento devem ser intercalados para conseguir um resultado final, que necessariamente não está no final do texto, pois às vezes uma parte mais fraca depois da forte pode tornar a música mais efetiva, em vez de deixar o forte cair no vazio do silêncio.

Alex

Dica de Escrita #5: Escrita Literária

Ao produzir um texto o autor permeia as palavras, mas não de forma direta; ao contar uma estória a personalidade do autor não é evidente, e nem deve ser, mas na escrita dita literária, uma versão mais artesanal e pensada da escrita cotidiana, duas figuras literárias mostram com mais clareza a personalidade e habilidade do autor: metáfora e metonímia.

Recursos fortes que devem ser usados com parcimônia, pois seu exagero, ao contrario do que se pensa, em vez de tornar o texto mais forte o enfraquece e deixa chato, metáforas lançadas uma atrás da outra são cansativas para o leitor, não contribuem para a força do texto.

Ao sair da escrita coloquial para o pântano escorregadio da escrita literária corre-se o risco de atolar no lamaçal da banalidade, são águas turvas, perigosas, para os que não dominam a arte de caminhar em terreno inseguro. Corre-se menos risco com uma escrita plana, sem adornos ou malabarismos, não compromete, não denuncia a imperícia do escritor, pois na escrita “plana” não há muito espaço para o autor diferenciar-se, exibir proficiência.

Muito já foi discutido sobre metáforas e alguns grandes nomes chegaram à conclusão que as melhores já foram usadas, deixando pouca margem para a criatividade dos novos autores. Em uma metáfora repetida e já conhecida deve-se pensar que ela carrega em si o contexto original, pode-se brincar com isto, usando como referência ao texto primeiro; no mesmo sentido acaba ficando pobre, cópia, repetição. Antes uma boa metáfora do que muitas ruins, a única que vale perde-se no meio das ruins. Não existem regras para dizer o que seria uma boa metáfora, no meu entender elas parecem naturais, uma comparação óbvia, mas não trivial.

Quando na metonímia um texto aparece voando, trotando em assuntos diferentes com a velocidade de um bólido, os distintos contextos confundem o leitor, e a não ser que este seja seu propósito explícito, deve ser evitado; um galope rápido ou um trote cuidado deixa o texto mais suave quando os recursos “similies” vem do mesmo universo, onde a comparação não explícita refere-se a uma mesma imagem.

O autor corre muitos riscos ao adentrar a escrita literária, se pretende apenas contar uma estória, e não tem o treino nem a erudição para entrar neste pântano, evite! Não há pecado, uma boa estória pode ser contada em linguagem simples, de maneira muito mais efetiva do que em uma má forma pretendendo ser literária.

Alex

Tablets e Alfafa para Alimentar a Ignorância!

Se você está razoavelmente bem informado, viu que o governo pretende comprar 900.000 tablets para a educação, visto assim de relance parece algo bom, mas visto de perto é um dos golpes mais vigaristas e insidiosos a ser perpetrado contra a educação já combalida do brasileiro, calma, vou explicar em detalhe e tentar colocar luz no amontoado de bobagens que mantém nosso ensino em péssimas condições. Tome fôlego que este será longo, mas necessário, se está procurando leitura leve desistirá nos primeiros parágrafos.

O nosso universo de estudantes básicos é de mais de cinqüenta milhões, 900.000 diluídos neste universo é nada, vão fazer propaganda com crianças segurando tablets, para enganar os eleitores, mas não vão melhorar a educação, gastarão muito dinheiro e ainda desacreditarão iniciativas futuras que podem usar esta utilíssima ferramenta de forma apropriada. Em virtude de certa gritaria corrigiram dizendo que 600.000 destes tablets seriam para professores, pois não tem o aparelhinho, e assim nem sabem usar, sobram 300.000 para os alunos… quase nada, iniciativa estúpida! E pensar que pagamos o salário destes “gênios” educacionais, que por pura falta de competência, afundam dia a dia o nosso já naufragado sistema de ensino.

Vamos supor que você é um professor bem intencionado e razoavelmente bem formado, adentra a sala de aula, três dezenas de jovens em seu público cativo e forçado, o que você precisa para ensinar, dar uma boa aula? Primeiro e antes de tudo: conforto e segurança, não há como ter um bom ambiente sem isto; é bom que os alunos estejam bem alimentados e em boas condições de saúde, assim como o professor; diante destas variáveis o ensino torna-se secundário e o aprendizado infrutífero. Bem, estamos saudáveis, bem alimentados, confortáveis e seguros, podemos agora começar a nossa aula.

Posso entrar na sala, dizer bom dia, começar a encher a lousa de palavras que os alunos vão anotar no caderno; quem já não teve um professor assim? Não é o melhor exemplo da espécie, mas existem aos montes. O conteúdo que o professor coloca na lousa já está nos livros, muito já lá escrito a mais de uma centena de anos; se estivesse treinando uma turma de copistas medievais, produzindo livros em massa, este seria um bom treino, mas não, estou tentando educar, e este método além de improdutivo, é chato e desestimulante. Que tal em vez de copiar da lousa para caderno, ter um livro com tudo já escrito? Não é mais simples e produtivo? Mas para isto é necessário ter livro, para a tarefa o e-reader é perfeito, mas os estudantes precisam saber ler, e aqui vou entrar no enevoado debate da alfabetização: já foi algo simples, não mais, mais complexa, ineficiente; o sistema moderno contaminado de ideologia evita que o aluno leia de forma fluente aos oito anos, alguns até saem da escola sem ler, outros ainda terminam faculdades, com deficiência em leitura, por conseguinte em escrita.

Se na caixinha você já tem umas trinta ou mais velinhas de aniversário deve lembrar da famigerada e mal afamada cartilha, hoje em dia considerado um livro do demônio, excomungado e banido. Ela, a maldita, nos fez ler, rapidamente, e ainda escrever, nos obrigou a entender a lógica da escrita na língua portuguesa, com seus símbolos representando sons. Você pode não conhecer uma palavra, mas sabe ler e dize-la em voz alta, graças à simplicidade lógica da cartilha com seu método alfabético. Funcionou! Foi efetiva, mas foi substituído por um método sem lógica, sem eficiência e abundante em ideologia vigarista. Aqui entra o construtivismo bastardo, diz-se inspirado em Piaget, mas dá para ver que do grande cientista não leram nem um livro e se o fizeram não entenderam, Piaget pode até ser um mau escritor, mas é ótimo pensador, contrário do doutor Freud, excelente escritor, mas cientista muitíssimo inferior. Eu pergunto aos construtivistas de plantão: onde sua teoria, se assim pode ser chamada, apóia-se na obra de Piaget e não se opõe a suas descobertas empíricas? Pois, de minha leitura do suíço, mostra que se o mesmo hoje vivesse, desmascararia a vigarice do discurso construtivista.

É este construtivismo que está nas diretrizes educacionais brasileiras, apodrecendo a raiz do ensino. Piaget foi genial ao descobrir empiricamente como funciona o mecanismo de aprendizado, mas este construtivismo bastardo nada tem em comum, é falsidade contaminada de ideologia ignorante. E olha que nem entrei no Paulo Freire, uma jabuticaba nada doce, ideologia sem lógica, fazendo um desserviço ao ensino.

A cartilha funcionou e ainda funcionaria, pois a criança ao ser alfabetizada, já fala, ela não precisa recriar a estrutura da língua, é só ligar a fala aos símbolos gráficos, criança não é estúpida, entende a lógica da língua, aprendeu com o uso, só precisa entender a lógica da escrita que imita a fala, neste aspecto a cartilha é prática e faz o aluno ler rapidamente, é tão simples que permite seu uso por professores leigos. A cartilha explana de forma clara a lógica alfabética, silábica e fonética, foi substituída por algo que não funciona! Idéias bonitas sem uso prático, sem eficiência ou funcionalidade.

No ranking da estupidez do sistema de ensino está o desaparecimento dos cursos de magistério, que se focavam nas técnicas de alfabetização, e sua substituição pelo curso de pedagogia, mais direcionado para a administração escolar e extremamente falho na prática do letramento, que é a tarefa fundamental do professor primário. Por um suposto status universitário, supõe-se o curso de pedagogia superior ao de magistério, mas foram estas professoras, saídas do magistério que nos deram aulas e nos ensinaram a ler antes do primeiro ano terminar. Hoje você tem professoras com status universitário nas escolas primárias, mas estas não sabem alfabetizar, e o aluno sai deste ciclo sem domínio da leitura, muito menos desfrute da literatura.

Voltamos agora à nossa sala de aula, meus alunos já tem o domínio necessário da leitura, preciso de livros, não só com o conteúdo a ser ensinado, mas meus alunos precisam de livros para treinar a leitura, de forma prazerosa e lúdica, pois só assim vai desenvolver a habilidade, assim como a escrita. Quem lê invariavelmente irá escrever bem, pode não conhecer todas as regras gramáticas com seus nomes “científicos”, mas as conhece do seu uso, do uso culto da língua encontrado na literatura. Coitado do professor que se acha a única fonte de conhecimento e o despeja sobre o aluno, nada entende de educação. O aluno precisa ter acesso à fonte do conhecimento, que é o livro. Tudo está em livros!

O livro é e foi o grande democratizador do conhecimento, a prensa de Gutenberg trouxe a preocupação dos meios universitários com a difusão do conhecimento em livros, aqueles que quisessem aprender poderiam recorrer aos livros, sem freqüentar os bancos universitários, naquela época a educação universitária iniciava aos doze anos. Pode-se aprender apenas com livros, o professor é supérfluo; para divulgar conhecimento, o livro com QI de meia samambaia plástica é melhor que qualquer professor. O educador que se coloca nesta posição exclusiva de detentor do saber é um estúpido, como ser vivente e não papel inerte o professor deve poder muito mais.

Professor não aprende por aluno, já sabe, apenas ajuda, é um mero facilitador, um interlocutor qualificado. É esta interação que livro ou tablet não podem fazer, pois só o ser vivente, dotado de inteligência pode perpetrar tal tarefa. Não é pouca, cabe ao professor passar ao aluno a paixão pelo conhecimento, o desafio do aprendizado, manter acesa a curiosidade natural do homem em conhecer o mundo onde vive. De todo “roll” de professores que tive ao longo da vida, poucos se elevam ao panteão dos bons, aqueles que me inspiraram com sua paixão. Muitas vezes fiquei inclinado a pensar que professores são seres que nascem por geração espontânea, pois muitos parecem que nunca foram alunos, brotam professores sem passarem pelas salas de aula, livros, dúvidas ou a juventude. Esquecem ou nunca foram alunos, e assim não conseguem entender aquilo que um dia foram, e ficam sem compreender os alunos, viram mini-ditadores com o menor reino do mundo: a sala de aula. Se um professor tem autoridade, esta deriva exclusivamente de sua sabedoria e da lógica, não de sua autoridade ditatorial em sala de aula.

Esta educação é vista como um processo passivo, onde o aluno é uma peça que não importa, não influencia; muda de ano outro ocupa o mesmo banco e repete-se o mesmo ritual. É preciso acabar com a passividade do estudante, ele é peça ativa e deveria ser o mais interessado em sua própria educação. É o método estúpido de educação que torna alunos interessados, curiosos e ávidos a aprender em imbecis passivos em potencial. É esta mentalidade tacanha que aumenta o número de aulas inúteis, não permitindo ao estudante o espaço necessário para pensar sozinho e seguir seus próprios projetos e interesses. Eu e meus contemporâneos tivemos muito menos carga horária do que os estudantes atuais e nossa educação não foi inferior, muito ao contrário, pode-se traçar um gráfico e mostrar claramente que junto com o aumento da carga horária veio a derrocada da qualidade do ensino. Aí os educadores idiotas, pagos com dinheiro do governo, acham que precisa ocupar a já atribulada vida do estudante com mais tempo inútil em sala de aula. Não adianta aumentar o tempo, tem que melhorar a qualidade, e para isto precisamos de uma proposta mais inteligente, que conta com o aluno como parte ativa da educação. Além disto, precisamos de melhores professores.

A arte de educar já foi muito mais valorizada, com os professores ocupando local de destaque e sua devida importância na sociedade, nas últimas três ou quatro décadas vimos uma desmoralização da classe detonada principalmente pelos baixos salários e más condições de trabalho. Hoje ninguém que se preze e que tenha um mínimo de capacidade se presta ao ofício de professor, pode auferir melhores salários em qualquer outra atividade, existem pouquíssimos que ainda se mantém por amor à profissão, são minoria, discriminados mesmo dentro de seu próprio meio. O baixo salário fez com que se direcionassem para o magistério aqueles incapazes de ocupar melhores posições, infestam os quadros escolares públicos, estáveis, imutáveis, e contra qualquer melhoria salarial dependente de mérito. Infelizmente hoje não é uma questão de aumentar salários, pois não adianta premiar estes que nunca tiveram compromisso com a educação e só a praticam por conta da estabilidade no serviço público e a incapacidade de serem cobrados por resultados. Ao mesmo tempo não é possível atrair os jovens, pois o professor iniciante só tem vaga nas piores escolas, aquelas esquecidas do poder público, só lembradas na hora de mendigar por votos em uma eleição, e logo novamente esquecidas, abandonadas, largadas à própria sorte.

Não adianta aumentar os salários dos professores enquanto esta escumalha que marca o passo do atraso na educação ainda ocupa os lugares de quem quer ensinar, com inteligência, competência e habilidade. Qual professor minimamente comprometido não vê o absurdo acontecendo em sua escola? Faltas abonadas em detrimento dos alunos e todo tipo de falha de compromisso, sem contar a baixíssima habilidade dos professores. Posso entender que são mal remunerados, mas se aceitaram o trabalho é para fazer direito ou cair fora, os alunos são vítimas e não são os culpados dos baixos salários.

O professor desvalorizado na sociedade e desvalorizando-se por sua própria incompetência, aos olhos do aluno é um fracassado, incapaz de inspirar os estudantes e sem autoridade real para manter a menor disciplina em sala de aula. É este o professor que guia o ensino, o pivô central da educação, é fácil entender o motivo da péssima qualidade de ensino, só o comprometimento com a qualidade e excelência de todas as partes pode mudar este quadro, enquanto houver complacência com a mediocridade os alunos estão condenados à ignorância.

Ao mesmo tempo o construtivismo bastardo prega uma forma de nativismo educacional, afirmando que o aluno pode por si mesmo chegar às respostas de tudo sozinho. A humanidade levou aí uns três ou quaro mil anos para aprender o que ensinamos em sala, o aluno só dispõe de uma vida, não tem como dedicar-se como Darwin e Mendel, para aprender apenas uma ínfima parcela do que deve conhecer o homem moderno. O aluno deve apoiar-se nos gigantes que nos precederam e se possível ir além, reinventar a roda não é prático, e este nativismo povoado de estúpida boa intenção só leva ao atraso, nosso conhecimento é a herança de muitas gerações de pensadores, é de suprema estupidez pensar que o aluno dispondo de apenas uma vida possa recriar tudo; deve saber procurar, pesquisar e encontrar as respostas já encontradas e as criticar de forma lógica. Isto é ensino: herança e autonomia, diferente da doutrinação estúpida comum nas salas de aula.

Professores já pouco preparados e mal pagos encontram-se na guerra entre o construtivismo utópico Paulo Freiriano e a doutrinação vagabunda pura e simples. A inteligência ou a lógica não tem espaço nesta disputa.

Não adianta inserir uma ferramenta cara e poderosa em um sistema que já desperdiça seus recursos por orientar-se por ideologia estúpida. Os tablets, assim como todos os recursos já desperdiçados serão apenas mais dinheiro jogado fora, afundando mais a educação. É preciso pensar, pensar com lógica e inteligência as bases da educação.

A primeira pergunta é: Você acredita que este governo tenha qualquer compromisso verdadeiro com a educação? Se ainda acredita nesta baboseira vou mostrar como o descaso com a educação é evidente. Houve alguma medida efetiva de tentar melhorar a educação feita pelo MEC? Não! E olha que já são quase dez anos desta farsa, qual a dificuldade? O governo tem toda a base para aprovar o que quiser, se não aprova é por que não quer. Veja que absurdo esta copa que nada deixará além de dívidas, estão até mudando as leis brasileiras para acomodar os vagabundos da FIFA, gastando dinheiro público, que falta na educação, para uma entidade privada, veja a velocidade com que ocorre e as somas gastas. Não é revoltante? O que é mais prioritário para o Brasil, uma copa estúpida de futebol ou a melhoria da educação do país?

Vou lhe dar outro exemplo ainda mais vergonhoso, a constituição em seu texto proíbe o imposto sobre livros, e para garantir que o imposto não seja cobrado de forma indireta, também isenta os insumos destinados à produção dos livros. É uma medida para proteger a indústria do papel? Não! É uma medida para permitir a livre circulação de livros, veículo de educação e idéias, é esta livre circulação que nos caracteriza como democracia. Se o governo fosse a favor da educação já teria liberado o imposto sobre o livro eletrônico e seus insumos, ou o seja: o e-reader, necessário para a leitura eletrônica. Eles não precisam mudar leis no congresso, pois a lei já está na constituição, é só querer ser a favor da educação, em vez de priorizar a copa, que tal priorizar a educação? Este atraso mostra que os especialistas do governo, regiamente pagos, não querem a melhoria da educação do brasileiro, se quisermos que isto mude deveremos fazer pressão ativa, exigir o nosso direito que é sonegado pelo governo. Cobre, exija, é seu direito, e se conseguirmos vitória será por pressão, não pelo entendimento do governo que livro é educação, pois se este existisse, o livro eletrônico já estaria sem imposto.

Vamos voltar agora à nossa sala de aula, espero que muitos mitos que emperram nossa educação já tenham sido desfeitos, assim posso continuar minha aula e usar das novas tecnologias para ajudar o aluno. O que é um tablet? Nada mais que um simples computador, lembrem-se que as escolas já possuem esta peça de mobiliário e o motivo de ser chamado de PC (personal computer) é o de ser pessoal, é para o aluno ter o seu, ainda não temos, e as iniciativas educacionais usando o aparelho são pífias, alunos sabem usar redes sociais por iniciativa própria, mas ainda não usam a ferramenta com fins educacionais, ou seja, para buscar conhecimento de forma autônoma. Algo muda com o tablet? Talvez; se todo aluno tiver o seu, pois mais enfático que o computador de mesa o tablet é ainda mais pessoal. Pode mostrar vídeos, qual o grande conteúdo educacional que temos em vídeo? Pode rodar programas educacionais, quais são estes programas? Pode acessar a internet, se tivermos conexão para todos e soubermos o que procurar. Pode ler livros; pode? O nosso conhecimento vem de uma longa tradição, está nos livros, Newton não produziu vídeos, assim como o “A Origem das espécies” está em livro, os experimentos com ervilhas de Mendel foram esquecidos, mas recuperados do livro. O que o aluno precisa para educar-se minimamente está nos livros, e novamente afirmo: para isto o e-reader é melhor ferramenta. Para o aluno primário o tablet por suas características visuais e pictóricas pode ser mais útil que o e-reader, mas a partir da terceira série o aluno precisa ter contato com a literatura de forma lúdica, para treinar leitura, a ferramenta necessária para tirar o sentido dos textos usados para transmitir conhecimento.

É preciso entender os aparelhos por sua funcionalidade e não por mistificação ignorante, o tablet me é útil em sala de aula? Sim, posso indicar material de consulta na internet para o aluno, expandir o conceito de cultura, se souber usar. Ao outro lado quero que meus estudantes leiam, por prazer e para pesquisar, encontrar conteúdo, extrair significado, e para isto o e-reader é a ferramenta, quem tem um sabe, não dá para ler textos extensos e complexos no tablet, não é confortável, só quem rivaliza com o livro é o e-reader. Dizem que estes aparelhinhos são dedicados à leitura, são! Mas o livro também não é um aparelho dedicado à leitura? Uma aparelho totalmente dedicado à leitura de um único texto? Não é a leitura a habilidade fundamental que levamos dos bancos escolares? Quem é o analfabeto? Aquele que não sabe escrever nem ler, daí não se tira a importância da literatura? Não justifica-se um aparelho a ela dedicado? O governo já gasta fortunas todo ano com livros muito mais dedicados, de conteúdo ruim, sem possibilidade do aluno “trocar” de texto.

Se você já me seguiu até aqui, podemos ir adiante, pois é necessário desmascarar todas as bobagens educacionais antes que possamos usar de forma efetiva as novas tecnologias. Já pegou um livro didático moderno? Estes que os alunos usam? Já pousei a mão em vários, o teor é uma vergonha, são livros feitos por compiladores de conteúdo, sem um texto lógico que permita ao aluno seguir o raciocínio dos pensadores que fizeram as grandes descobertas; mesmo que o aluno queira estudar sério não pode pois estes livros não dão subsídio ao aprendizado consciente, apenas à estúpida memorização sem lógica, da mesma maneira que memoriza uma letra de música, sem entender memoriza a fórmula da gravidade, e daí? Entendeu? Tem como compreender o raciocínio de Newton? Como ver onde ele estava equivocado para chegar nas descobertas de Einstein?

Estes livros didáticos são descartáveis, o conteúdo é tão inútil que não podem ser guardados como livros para consulta futura, só servem para engordar uma máquina editorial viciada no dinheiro do governo e dos pais encurralados a pagar o preço extorsivo deste material infame, sem lógica ou utilidade na verdadeira educação consciente.

O uso de tablets implica na existência de material didático apropriado, mas este não existe, assim como inexistem livros didáticos modernos bem feitos, não adianta um tablet que pode tocar vídeos, áudio, interatividade, se o material educacional não existe. Mas viemos de uma longa tradição de material em livros, tudo necessário à boa educação está em livros, foi transmitido em livros, aprendemos em livros, já está pronta, só precisamos de acesso aos livros, e novamente: nada mais útil para isto que o e-reader.

Se vamos usar um tablet para educação precisamos ver suas características com olhar técnico, o que deve ter o aparelho para ser efetivamente usado nos meios educacionais? A primeira questão é a obsolescência programada, estes dispositivos não duram muito e logo já não rodam os programas que encontram-se por aí, o governo vai substituir os aparelhos anualmente? Provavelmente não, portanto precisamos de um aparelho pensado a dar continuidade no processo educacional independente da obsolescência de mercado, muitas vezes programada, para que o consumidor seja obrigado a gastar em um novo aparelho. É necessário definir um padrão, isto o governo ainda não fez e nem tem competência para tanto. É necessário que o aparelho tenha um teclado físico, pois o virtual não é funcional, mesmo no ipad; o aluno vai precisar digitar texto, pois não tem em casa um computador pessoal. O tablet deverá ser resistente, muito mais do que os existentes no mercado, estes aparelhinhos não vão durar meses na mão dos estudantes, também minimamente à prova de umidade.  Entradas e saídas padrão, ou seja, USB e SD. Bateria para agüentar todas as aulas e ainda o estudo em casa, ampla rede de manutenção, só para falar o básico. Você viu alguém falando sobre isso? Não? Então esta compra de tablets é apenas uma piada de mau gosto, e olha que nem estou falando do software e sistema operacional que já deve vir com o aparelho, além da conectividade com internet. Veja, há muito que pensar para acolher com eficiência estes aparelhinhos na sala de aula. É muito interessante o aluno ter estas funcionalidades, mas para a educação ser universal tudo deve estar à disposição do aluno carente. Já fui ativista dos livros, mas com os preços do papel não há quem possa ter este gasto, não importando o quão entusiasmado o aluno esteja, a ele os livros são proibidos, caros, fora de seu universo.

Em sala de aula, o que mais sinto, é a falta dos livros, eles são o material de consulta, a matéria prima da educação, sem eles não há muito o que fazer, nem da parte do professor, nem da parte do aluno que não pode educar-se se tiver um professor ruim. Às vezes comentamos entre nós que esta derrocada educacional não é casual, é causal, e entramos nas mais tresloucadas teorias conspiratórias, mas se fosse casual era de esperar ao longo dos anos alguma melhora mesmo que aleatória, não ocorre, no ensino todas as iniciativas fazem a qualidade despencar, sempre. Não consigo imaginar o grau de estupidez e incompetência para não conseguir uma melhora ao menos casual, é preciso muito esforço e gasto inútil para se conseguir ser tão ruim. Os pais que colocam os filhos em caríssimos colégios particulares também não estão protegidos da estupidez, pois a ideologia eqüina do MEC permeia todo o ensino, é preciso mudar, mudar com inteligência, pois se existe um pré-requisito básico em educação este é a inteligência. Burros não ensinam nada a não ser comer alfafa, capim ou o que tiver, seja com tablets, e-readers, lousas ou apenas bons professores, é preciso pensar a educação em suas bases, sem isto toda iniciativa está fadada ao fracasso, e nossos estudantes condenados à ignorância que afundará o país.

Alex

Crise de Validação

Nos tempos modernos usar a palavra crise é quase um sacrilégio: crise dos bancos, crise do capitalismo, crise da ética, crise na política e crise econômica; resulta do agravamento de uma situação incômoda, mas a percepção de uma crise pode ser algo bom, indicando uma consciência de que mudanças devem ser feitas para alterar o estado das coisas; são problemáticas quando não resolvidas, mas sua resolução nos leva a melhores planos. Quanto mais adiamos a mudança, mais a crise se agrava.

Validação e sua crise é um assunto muito discutido nos círculos de mídia e crítica profissionais, e o agente que detonou esta crise de validação é o acesso dado às pessoas de fora do círculo de validação pela internet, e agora pelo ebook, lido no e-reader. Quando alguém escreve em um jornal, espera-se que tenha propriedade para tanto, assim, mesmo sem ler o escrito, só o fato do texto figurar em um jornal lhe confere validade, uma certa autoridade compulsória do meio onde o texto figura; o mesmo pode ser dito do livro em papel: confere certa autoridade. A crise resulta do contato entre as mídias de acesso irrestrito e a tradicional. Qualquer um pode escrever um blog, existem bilhares, dos piores aos melhores, se todos os blogs fossem mal escritos, não haveria crise de validação na mídia atual, mas existem os muito bons, muitíssimo superiores aos textos que encontram-se impressos em jornais, revistas e livros de papel.

Antes, a mídia tradicional era única, não encontrava voz de contestação, assim o que nela se escrevia, era automaticamente tido como superior à voz solitária de um zé ninguém sem acesso aos canais de validação, mesmo que seu argumento fosse bom e superior. O conflito de idéias já vem da raiz da filosofia, com Sócrates desmascarando os artifícios do discurso sofista. Esta habilidade de argumentar e contra-argumentar virou até disciplina, chamada dialética, e sobre ela Schopenhauer escreveu um pequeno ensaio desmascarando as tentativas de golpe à lógica, perpetrados pela técnica dialética; como diz no livro: a argumentação é um modo de chegar à verdade comparando argumentos, o melhor modo de prevalecer em um debate é estar ao lado da lógica, com o melhor argumento, mas se quer fazer vencer uma proposta falsa, ou seja, prevalecer sem ter razão, ele mostra os recursos escusos da técnica dialética. É um livrinho instrutivo de ler, está em domínio público, e uma tradução em inglês está disponível no Projeto Gutenberg.

Por muitos anos desenvolveram a técnica dialética para o debate oral e suas peculiaridades: os debatedores estão em igualdade de condições, e argumento e falas logo perdem-se da memória, deixando margem aos vários truques dialéticos, um dos truques mais comuns é chamado “argumentum ad verecundiam”; o homem normal prefere a crença ao exercício intelectual da lógica, assim acreditar em alguém, em uma mídia impressa, é mais fácil que julgar a pertinência dos argumentos. Jornais, rádios e TVs tem a credibilidade ao seu lado, ou ao menos tinham, pois dia a dia o acesso livre da internet permite a aberta contestação de idéias, fazendo com que a validação dos jornais seja ativamente contestada.

É comum ouvir da boca dos participantes da antiga mídia termos como: “os blogs por aí” , para generalizar pejorativamente tudo que é escrito em blogs independente de sua pertinência, e assim valorizar o texto das mídias tradicionais. Mas o público, vendo sua crença esvair-se cada vez mais, vê pertinência e propriedade em muitos que escrevem na internet, seus textos estão aí, fáceis de acessar e ao alcance do olho, coisa que antes não acontecia, fazendo a mídia tradicional hegemônica.

Muito do que se escreve na mídia tradicional é uma grande baboseira, e hoje, com a mídia venal a serviço do governo, até a credibilidade factual tem sido contestada. Há verdade, há mentira, não existem lados com pesos iguais e este é um dos exemplos comuns da vigarice jornalística. Se pararmos para pensar a faculdade de jornalismo deve ser a maior maravilha, pois com o mesmo período de estudo de um químico o jornalista pode discorrer com propriedade sobre química, física, biologia, matemática, sociologia, psicologia, medicina e todas as disciplinas cultivadas pelo homem. Muito do que encontra-se em blogs não é escrito por jornalistas, mas por médicos, engenheiros, químicos, biólogos além de muitos outros, quem tem mais propriedade no assunto? Veja os suplementos de tecnologia, e veja a informação que se obtém na internet sobre o mesmo assunto.

Bons e ruins, mentira e verdade, tudo misturado na internet força o leitor a abandonar a crença e adotar uma relação de análise com aquilo que lê, e esta crítica passa a ser exercida ao ler os textos jornalísticos, e sua pertinência ou propriedade pode ser abertamente contestada, gerando a crise de validação.

Se vocês já leram o livro “Nove Noites” de Bernardo Carvalho, não terão dúvidas que é um escritor acima da média; aos domingos, a Folha tem um suplemento batizado “Ilustríssima” que normalmente traz textos de caráter ensaístico com dimensões superiores aos textos regulares. Dia destes encontrei um ensaio sobre fotografia escrito pelo referido autor, leiam: http://sergyovitro.blogspot.com/2011/10/fome-de-ver-bernardo-carvalho.html, este foi o único link eletrônico que encontrei para o texto. Um bom escritor, um suplemento em teoria respeitado e um ensaio que de fotografia nada fala, pura bobagem, Lacam, Freud e nada pertinente à fotografia, incomoda-me, pois fotografia é assunto que preso, e o texto em questão é de uma vigarice impar, não importando quantos validadores incondicionais tem, ao analisar o escrito vê-se claramente o amontoado de bobagens e a falta de referência a qualquer parâmetro pertencente ao mundo fotográfico. Quando uma bobagem destas é escrita em um blog, webpage ou o que o for, passa despercebida na imensidão de porcarias, e é culpa exclusiva do escritor; mas quando um texto destes chega em um jornal, há uma cadeia de incompetências, de escritor a editor que evidencia-se. Poderia citar montanhas de porcarias do mesmo gênero, jornais divulgando notícia falsa e todo tipo de sortilégio, só chamo atenção a um exemplo que chamou minha atenção, por tratar-se de meu universo.

O mesmo ocorre com a crítica literária e os prêmios, que também representam uma forma automática de validação. Críticos tradicionais gostam de ter este poder de elevar ou afundar um livro, enquanto alguns usam esta responsabilidade com propriedade, escrevendo críticas pertinentes ao livro, muitos não tem sequer bons argumentos e apóiam-se exclusivamente na validação do meio em que escrevem, mas com a internet, varrem abaixo do tapete a credibilidade do veículo quando suas análises mal feitas são desmascaradas. E isto só corre pois aí está a liberdade a dar voz aos argumentos contraditórios. Um sambista famoso escreve um livro muito ruim e é aclamado como escritor, um político nefasto escreve um livro péssimo e vira imortal, são validados pelo meio, mas ao mesmo tempo invalidam e retiram propriedade do meio, gerando o que agora chamamos crise de validação.

Crises são boas, podem nos conduzir a planos melhores, a contestação de idéias na internet faz com que as pessoas tenham que exercer o discernimento em vez da crença, e isto gera um aumento de consciência, educação. No debate escrito é mais fácil pesar com calma as idéias, e ver quem tem propriedade, desmascarando os vigaristas. O ebook com o conforto do e-reader chega agora no ponto de gerar a crise de validação da literatura, qualquer um com um bom texto está em pé de igualdade com todo outro escritor, sim, há propaganda ativa na internet, e muito da crítica é apenas propaganda disfarçada, mas no contato autor leitor, não há intermediários, e quem por um livro se apaixona, torna-se seu grande divulgador, isto acontece comigo, pode não gostar de minhas indicações, mas são sinceras, só indico o que gostei. Anseio o mesmo de meus amigos, mais que um livro, espero o testemunho de uma alma.

Alex