Ensaios

O Minuto da Fotografia

Homens desenhados de maneira rudimentar, um risco longo em sua mão transforma-se em lança, cercam algo que diferente dos homens, caminha em quatro membros, a cena de uma caçada nos chega de passado distante. Não sabemos a linguagem deste povo, quase nada sobre suas vidas, mas esta imagem pictórica pode nos dizer muito sem perder-se no tempo. Linguagem precisa ser decifrada, estes desenhos rudimentares comunicam-se com homens modernos de maneira tão eficiente como com seus contemporâneos; muito provavelmente os primeiros passos da arte pictórica. De uma longa tradição histórica, uma técnica penetra os domínios da arte, perde seu ranço eminentemente processual impessoal para, assim como a pintura em cavernas, ser veículo da expressão humana.

A fotografia, esta jovem arte, nasce em um período idiossincrático da história de suas irmãs. Apesar de a invenção técnica ser ligeiramente mais antiga, é no período do furacão modernista que a fotografia começa a virar meio de expressão artística, chega em mundo recheado de história, espíritos de épocas que foram expressas transformaram as artes na longa linguagem do mundo que agora habita a fotografia.

Diversas formas de expressão são abrigadas sob a mesma palavra: arte, cunho de significação recente, pois não há muito tempo, arte seria palavra para definir significativa habilidade artesã, típica dos mestres de qualquer ofício. Pintura, escultura, teatro, arquitetura e poesia são manifestações mais antigas que a palavra que agora as une, ao longo da história traçaram linha de descendência, ancestrais influenciando contemporâneos. Cada uma destas manifestações não esteve isolada em seu tempo, influenciando e sendo influenciada pelas outras irmãs. Ao longo da história deixaram valores e referências para uma linha de evolução futura, algo que só passou a ocorrer com a música depois que foi possível guardar as melodias no papel através da notação musical.

As artes do barroco expressam valores que estudiosos passaram a classificar como o espírito do barroco, o espírito de sua época, assim como a arte clássica e a romântica, até a moderna; juntas as várias artes expressaram os valores que definiram suas épocas, existindo um senso de valor expressivo comum em todas as modalidades. Gosto de pensar em sentido inverso: foi a manifestação artística individual em cada modalidade que talhou o espírito de sua época e não o contrário. Assim, acredito ser apenas factível ver o tal espírito no passado não no presente, pois na arte contemporânea ele ainda está sendo construído, impossível de ser visto, ainda não tem existência.

Artistas em sua expressão individual constroem a realidade de seu tempo, tem em seus antepassados fonte de inspiração e meta de superação, avançam sobre o futuro de quase infinitas possibilidades para construir em linha contínua nossa história.

No uso recente da palavra arte, da grandiosa contestação modernista e da inclusão de diversas manifestações fora do limitado campo da herança antiga, há de se fazer aí uma grande divisão, a simples arte, artesania, e a alta arte, limite da expressão humana. Se existe uma grande marca do modernismo esta é a necessidade na arte do novo, nunca antes feito, moderno; a fase final deste movimento em seu exagero grafou como a única virtude da arte a inovação, tudo vale, desde que não tenha sido feito antes. Tal quebra de regra é tão ou mais castradora que as antigas formas, esta proibição do passado não aponta para onde ir, mas obriga de forma ditatorial onde não ir, terrenos que não devem mais ser pisados, proibidos, proscritos.

Se pudermos usar a definição “alta arte” para obras confeccionadas em épocas onde tal distinção não existia, vemos claramente que a inovação, valor modernista, já estava presente. A simples imitação não elevaria qualquer peça ao status de sua fonte de cópia, era preciso algo mais, avançar a fronteira da arte dentro do desconhecido, do moderno. Aos desbravadores desta fronteira podemos dar o título de alta arte. Através de seu trabalho expandiram os limites de seus ofícios, expandiram a fronteira da arte.

Por muitos séculos, foi a perseguição da natureza, em toda sua aparente perfeição, um paradigma vivo a ser quebrado na arte pictórica. A linha é clara, das pinturas rupestres, passando por Rafael e chegando a mestre Leonardo e Caravaggio. Vê-se nesta trilha norte evidente, mas o que ocorre quando alcançamos o extremo desta linha, bem evidenciado pela mestria de Michelangelo Buonarroti na escultura; sua habilidade em aproximar-se da natureza é absurda, em suas obras inacabadas, bem denominadas de: “Os Prisioneiros da Pedra”, o trabalho do artista é tão grandioso que pequeno pedaço de rocha ainda rústico sobre uma mão esculpida parece não fazer parte do material, a habilidade é tão grande que aquele bloco de rocha sólida não trabalhada, sobre uma mão quase acabada, parece simples casca, um vento mais forte e voará de sobre a mão.

O que fazer para expandir o universo expressivo da arte ao se atingir meta evidente? Sabe-se bem que no mesmo rumo o limite foi atingido, a se manter no mesmo trilho, a produção artística será de apenas cópias. A natureza já se encontra representada em seu máximo, expressa a obra divina. Existem campos ainda não trilhados, a expressão do homem, suas emoções, sua existência como ser individual.

Com a técnica clássica da pintura criada por seus desbravadores já bem divulgada, a fronteira da arte, território da alta arte, move-se para outros campos. Eis que uma técnica, criada pelo ofício científico, químico e óptico, passa a produzir imagens monocromáticas de incrível detalhamento, melhor representante da natureza. É apenas uma técnica, produz imagem sem a intervenção humana, e ao contrário da pintura, precisa do seu objeto, como a visão precisa de algo para ver.

A fotografia, mesmo em seu estado bruto de exclusiva tecnicidade, já quebra paradigmas da arte, sem esforço ou mestria produz reproduções da natureza que mesmo sem a cor, aproxima-se muito mais do suposto mundo real. Além disto, sua facilidade permite reproduções infinitas e indistintas de uma mesma imagem.

Para nós homens modernos, a imagem fotográfica, imagem técnica, é parte do cotidiano, coisa simples e vulgar. Vamos imaginar que eu esteja vivendo no século XVII, fui apresentado em visita a um amigo a retrato pintado por mestre renascentista: a Mona Lisa de Leonardo da Vince. Observo a pintura, sua técnica primorosa, a vivacidade daquele olhar; como posso partilhar esta experiência em palavras? Por mais que me esforce palavras não bastam, posso recorrer a todos elogios superlativos, aquele conhecimento só poderá ser partilhado se meu interlocutor observar a obra. Esta posse da arte pictórica é quebrada pela fotografia e sua incrível reprodutibilidade. Hoje a Mona Lisa é melhor apreciada em uma fotografia do que através de um grosso vidro, à distancia, e com uma multidão de turistas à nossa frente.

Antes de freqüentar os círculos artísticos, o aparelho fotográfico ganhou popularidade, o que foi novidade virou realidade cotidiana e nisto o processo fotográfico foi bem conhecido. Sabe-se muito bem, a fotografia reproduz todas as cenas oferecidas diante da lente, é senso comum: a fotografia apenas reproduz a realidade.

Centenas de anos de estudo da perspectiva para imprimir no espaço bidimensional a falsificação da realidade e sua noção de profundidade, a câmera fotográfica o faz sem pensar. Suas entranhas, baseadas nos mesmos processos ópticos vigentes no interior dos olhos, desprezam as teorias de perspectiva para grafar a imagem com o mesmo ferramental da natureza. O seu nível de detalhamento e sua fidelidade com o objeto superam em muito o antigo paradigma dos pintores.

Se a fotografia reproduzisse a realidade, nunca poderia ser veículo da expressão humana. Fotografia não é realidade, já nos diz a teoria da informação quântica, a ser realidade deveria ter a mesma energia de seu sujeito, é apenas modelo, comprometido com o que deseja evidenciar. A câmera fotográfica sem direcionamento criativo pode com toda facilidade produzir imagens inteligíveis, mas estas só se revestem de arte se agregadas ao já ultrapassado conceito de Duchamp dos “ready mades”, fazendo a arte fotográfica ter o mesmo papel de mictórios.

Depois do invento técnico, o operador fotográfico passou a notar as possibilidades de seu meio, mais que a perversão do programa da caixa preta, viu o fotógrafo habilidade de usar a fotografia como meio de expressão independente. A fotografia pode ser suporte de outras artes, limitando-se a registrar intervenções ocorridas de fronte a lente; tratarei aqui apenas dos meios próprios da fotografia, as possibilidades do operador por detrás do conjunto óptico. Todo o resto envolve mais que a arte fotográfica pura, tratando-se de disciplina mista, como é notoriamente a arte cinematográfica, dependendo de várias “expertises” para se concretizar.

O errôneo conceito de que a fotografia representa a realidade não permitiria a expressão artística, é nas diferenças que está a possibilidade do fotógrafo expressar-se. É no papel bidimensional de dimensões finitas que a fotografia apresenta-se, note-se que bidimensional e dimensões restritas já marcam significativa diferença com a realidade, infinita e tridimensional. O campo restrito no papel é a primeira forma de expressão, o fotógrafo escolhe o que fotografar, o seu sujeito, o que incluir no espaço restrito.  Além disto, dentro do espaço fotográfico os elementos podem ser capturados em muitos lugares, posicionamentos e relações com outros elementos da fotografia, isto também dá ao fotógrafo grande possibilidade de escolha expressiva.

Da sua criação eminentemente técnica a reproduzir suposta natureza, os fotógrafos viram a possibilidade de expressão deste novo meio e começaram a explorar suas possibilidades. Destes pioneiros, a fotografia começou a adquirir o status de arte, a surgir junto com o modernismo que buscava novas formas de expressão. A arte adotando a fotografia deu à técnica bastarda uma descendência, uma linha histórica. Seria Nadar retratista renascentista? Impossível negar certo ar do barroco na fotografia de Eugéne Atget, e a mais pura expressão clássica na fotografia de Ansel Adams. O passado do movimento artístico teve eco na fotografia, reproduzindo a história em ritmo acelerado.

Caminhando em paralelo com a arte fotográfica, o seu meio técnico tornou-se mais capaz, permitiu ao fotógrafo novas variáveis expressivas. Filmes rápidos possibilitaram a fotografia em frações de tempo imperceptíveis aos olhos humanos, fotografias mostrando centésimos ou ducentésimos de segundo. Este tempo inexistente na vida real aos nossos olhos, agora era domínio da fotografia. Neste espaço ínfimo a câmera é capaz de congelar expressões faciais que duram uma imperceptível fração de segundo. O tempo suspenso não está ao alcance dos nossos olhos, criando assim uma ilusão. O olho que vê a foto é o mesmo que vê o mundo real, a realidade congelada na foto nos parece natural, enganados pensamos ser apenas mais do mesmo tempo que observa nosso olho, grande erro. O que a fotografia nos apresenta como “real” dificilmente seria percebido pelo olho na mesma cena.

Neste ilusionismo entre realidade e fantasia, fato e discurso, têm o fotógrafo farto meio de expressão pessoal. Os valores de claro e escuro e suas relações, representam mais uma variável que o fotógrafo pode usar para expressar-se.

Seguiu a fotografia o caminho das artes, herdou seus valores e passou a ser mais uma das modalidades. Quando falamos desta arte que atravessou história estamos falando da alta arte, ela que pontuou o caminho, não a simples artesania responsável por esmeradas cópias, mas a desbravadora da fronteira de expressividade. No período moderno da fotografia como arte, a arte clássica seria desdenhada, mera reprodução do passado. Mas na fotografia um Ansel Adams fiel representante do espírito clássico representa a alta arte, e alguém que agora o copie não mais seria semeador do terreno da alta arte.

Dentro da nossa história só pode existir dois tipos de arte, a arte nativa, desconectada de toda a sociedade global e valores sociais e a alta arte, inserida em todo contexto histórico da arte ocidental, agora tachado de arte mundial. Não existe escapatória são os únicos balizamentos possíveis, o artista moderno não pode se dar ao luxo de não conhecer o passado registrado da arte, mesmo que apenas para saber quais caminhos não trilhar. Há em nosso passado uma incrível riqueza artística que não pode ser desprezada, se o artista quiser fazer parte desta linha histórica. Este conhecimento só aumenta, exigindo mais do artista moderno assim como de seu público, a arte não é mais ingênua, exige alto grau de conhecimento, erudição insuspeita. Habitar a fronteira da expressividade é tarefa cada vez mais difícil para o artista e para seu público que terá que entender assunto de complexidade crescente. Tal exigência exponencial de conhecimento faz da alta arte terreno cada vez mais restrito, território de poucos a criar e apreciar a criação.

Em nosso mundo de massa a alta arte passa a ser item de valor duvidoso, não permite a popularidade, pois as massas não são capazes de ter a erudição necessária para apreciar. Em termos de avançar a arte corremos em círculos, vivendo à sombra de nossos antepassados recentes canonizados, impotentes de lhes oferecer desafio.

Apesar de recente a arte fotográfica sofre do mesmo problema, não há erudição no público e não há fotógrafos a fazer arte que desafia a compreensão, continuando a linha histórica da alta arte, desafiando os antigos e não apenas os desprezando. Neste mundo de sensos grosseiros, a sutileza da alta arte não pode mais ser percebida.

Vivemos a era da imagem, são banais, invadem a nossa vista independente do lado que se olhe, valores evidentes, óbvios e sempre mais chocantes a tentar capturar a atenção do observador. Quem gasta mais que alguns segundos a olhar uma fotografia? Quem além do fotógrafo treinado sabe lhe extrair significância? Passa despercebida ao olho do vulgo a grande fotografia, precisando a maioria de uma assinatura conhecida para reconhecer o trabalho de um grande mestre, que já se tornou famoso em tempos passados da arte. Neste nosso mundo, fotografias são todas semelhantes, estamos saturados, os detalhes que fazem uma grande fotografia passam completamente despercebidos para a massa.

A fotografia é prolixa, se um pintor comete um erro apaga, o fotógrafo, joga fora a fotografia que não se realizou, grande parte do trabalho dos mestres da fotografia é esconder muito bem as fotografias que deram errado, as que não expressaram a vontade do autor. Uma pintura pode ser única, não uma fotografia, uma única boa fotografia pode ser obra incidental pela capacidade da máquina fotográfica de produzir objetos inteligíveis, mas este objeto incidental só vai expressar a vontade do autor em probabilidade infinitesimal. É preciso o fotógrafo, mestre de suas habilidades a usar o equipamento fotográfico para expressão, é no conjunto de fotos que podemos ver sua vontade, sua mestria, seu domínio não incidental sobre a máquina técnica.

A unidade básica da fotografia, o cristal de prata ou o resto de pigmento tem forma amorfa, única, diferente da matéria prima dos pintores. São bilhares destas minúsculas unidades de forma variada que formam a imagem fotográfica, mesmo na sua reprodutibilidade, cada fotografia é única, composta de um conjunto singular e nunca igual destas pequenas unidades. Tal detalhe pode passar despercebido pelo observador leigo, mas é a realidade da fotografia tradicional, química. Como no trabalho de Michelangelo, vemos nas “master prints” de Ansel Adams um esmero de detalhes absurdo, sua obra é mais que apenas uma imagem, são detalhes, é tudo. Já no trabalho de Cartier-Bresson, tais detalhes são irrelevantes para a completude de sua obra, pois são deixados para terceiros; sua composição esmerada é maior protagonista.

É interessante comparar a linguagem fotográfica à linguagem escrita, que depende de um código comum e compreendido para ser lida; a priori fotografia não possui um código fixo. Imagens pictóricas deixadas pelos antepassados podem ter significação imediata derivada de analogia com nossa própria experiência visual. A escrita é linear e sintática, expressando sua compreensão em forma de uma lógica causal. Gertrude Stein tentou abolir o tempo na escrita e a conseqüente causalidade, acabou por extirpar no texto a compreensão. A fotografia não tem esta lógica linear, o que o fotógrafo partilha é sua visão de uma cena, organiza, inclui ou exclui elementos, privilegia-os na cena por enquadre, relações internas e valores luminosos. Cria o próprio código baseado em sua experiência visual.

Da famosa pergunta: “o amarelo que você vê é o mesmo amarelo que vejo?” o fotógrafo faz o observador partilhar do seu olhar pessoal, manipulando os elementos para direcionar o olhar alheio para os mesmos valores que percebeu através de sua interpretação da cena, não é apenas partilhar uma imagem, mas partilhar sua visão pessoal. Assim, para expressar-se o fotógrafo vai precisar de códigos particulares que organizarão sua fotografia, permitirá expressar seus valores através da imagem.

Como na poética tardia de João Cabral, o fotógrafo não está restrito a um código fixo, podendo mudar o código conforme fotografia e cena, assim como Cabral, que cria regras próprias para cada poema.

A fotografia pratica este jogo com o observador, que deve descobrir a sintaxe própria de cada fotograma, ao contrário da escrita, onde o tempo linear e a lógica causal imperam, na fotografia todos os elementos apresentam-se literalmente ao mesmo tempo, é o observador que vai lhes dar ordem significativa, terá que mergulhar na interpretação da fotografia para tirar significação mais profunda, se existir, embutida pelo fotógrafo com paleta de cores indo do óbvio ao extremamente sutil e subliminar.

Não é possível reduzir a fotografia à simples textualidade, pode mostrar e expressar valores impossíveis ao texto, mas não esotéricos ou difusos, pois a expressão precisa da vontade imperiosa do fotógrafo.

A tecnologia avança, os compostos de prata e pigmentos acoplados que eram a matéria prima da fotografia agora não mais são necessários. A luz que grafava a fotografia em processo foto-químico, agora é captada por sensores semicondutores e transformada em informação digital, armazenada em um código que pode ser reproduzido infinitamente sem erros, sempre igual, sem a micro individualidade da fotografia de prata ou pigmento. Para a imagem digital existe uma unidade: o pixel, um minúsculo ponto quadrado, sempre quadrado, sempre igual. Este quadradinho é apenas um código numérico, com duzentas e cinqüenta e seis possibilidades de vermelho, verde ou azul; toda a imagem encontra-se restrita em seus domínios, neste gradil quadriculado, sempre igual para todas as imagens digitais do mundo. O mesmo pixel para a imagem do fotógrafo digital, assim como o exato mesmo pixel para o pintor digital.

Com tecnologia digital a imagem não só continuou onipresente, como todos passaram a ser produtores de imagem. Por mais simples que programas automáticos tenham permitido ao público leigo melhorar suas imagens, a foto-química ainda tinha seus custos e não podia ser imediatamente vista, o fotógrafo precisava de intimidade com o equipamento para ter capacidade de antever o resultado que no mais célere processamento, só seria revelado algumas horas depois. O processo digital permite visualização imediata e é infinitamente mais prolixo que a fotografia de filme; em milhares de fotos agora ao alcance do público, é sempre possível algumas com valores corretos, mas o domínio da expressão ainda é probabilidade infinitesimal no processo de tentativa e erro.

A fotografia hoje é mais banal, mais presente em nossa vida, vista ou feita, na internet podemos encontrar uma variedade avassaladora, será que como muitos apregoam isso diminui a arte fotográfica?

A arte como artesania na fotografia sofreu incríveis melhoras por conta da maior capacidade técnica das câmeras nas mãos de leigos, é inegável. Mas e a alta arte fotográfica, aquela em linha com a história da arte e em duelo com os mestres da fotografia passada? Enfrenta a necessidade da bagagem cultural, exigida para toda alta arte que pontuou a história. A imagem é banal, quem nos dias de hoje gasta mínimos cinco minutos a observar uma foto? A maioria das fotos não tem significado para comunicar neste tempo, mas algumas que podem ter significação sutil passarão despercebidas a todo o público e só poderão ser entendidas por uma mão de pessoas neste nosso mundo tão populoso.

Deve o artista ficar apreensivo diante de tal perspectiva? Imagino que não, há benefício na alta arte, elevação da alma. Podes ter pouca ou nenhuma interlocução, mas imagino que valha a pena. Alta arte não é produto de massa, exige altíssima cultura de posse de poucos amantes, não irá ficar famoso, nem ser reconhecido ou ter fama, será possuidor de dádiva brilhante, herdeiro legítimo de nossos apreciados mestres.

O mundo das superficialidades aparentes é enganoso, a maioria das pessoas indicará o som “heavy metal” como mais revolucionário que Igor Stravinsky, os harmônicos distorcidos eletronicamente escondem uma harmonia mais básica que canções medievais; a “Sagração da Primavera” traz harmonias mais selvagens e revolucionárias, por mais que os harmônicos da orquestra sejam comportados. Na fotografia vemos o mesmo dilema, quanto mais revolucionária mais imperceptível será ao grande público.

Alex

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