Língua e literatura na era eletrônica.

 

A linguagem surgiu, cresceu e evoluiu com o homem, é viva por nós, e por nós muda e evolui, é ferramenta para um fim, não vive por si mas vive para nós. É importante pensar a língua, seus usos e sua capacidade, mas infelizmente muita mudança não é feita de forma racional, e sem que queiramos ou nos damos conta existem certos consensos no uso da língua que espalham e contaminam sem que sejam pensados ou benéficos. É inegável a influência do suporte na forma da língua e sua capacidade de comunicação, imaginem se ainda usássemos “tablets” de argila para escrever caracteres cuneiformes, grande parte da evolução social que conhecemos nunca aconteceria, como seria carregar um livro de oitocentas páginas de argila? O livro deixou o papel e agora é mais leve e prático no meio eletrônico, é inegável que haverá mudanças, mas cabe a nós verificar a verdadeira capacidade do meio digital para que a língua e literatura cresçam e não diminuam perante o passado que já tivemos.

Por falta de pensar a língua está espalhando-se uma versão capenga e mutilada que diz-se dominante por pura ignorância, ela é a versão contida nos manuais de redação e (falta de) estilo. As frases complexas compostas por subordinativos ou coordenativos, as vírgulas e definitivamente os ponto e vírgula, são recursos proscritos, e isso quando pretende-se comunicar assuntos complexos que tem diversas instâncias e vários níveis de hierarquia impossibilita a composição textual; desta maneira, o texto escrito que tem a propriedade de educar, pois pode conter assuntos em profundidade é sabotado, permitindo em sua versão mutilada expressar apenas assuntos simples ou a simplicidade leviana que mediocriza os assuntos complexos impedindo definitivamente qualquer possibilidade de real compreensão. O uso desta língua deturpada que já é norma em jornais e revistas de grande circulação tem dois efeitos: o primeiro é tornar levianos todos os assuntos que aborda uma vez que não pode aprofundar-se, antigamente liam jornais as pessoas que queriam ter um conhecimento mais profundo, hoje o conteúdo de jornais e telejornais é idêntico, com vantagens ao telejornal por ser mais rápido e atualizado; o segundo efeito diz respeito à educação do leitor, antes o jornal era uma iniciação do leitor na escrita complexa, assim ao encarar um texto de Machado de Assis o fosso não é tão grande, mas hoje com a escrita pobre dominando tudo, o leitor só encontrará alguma dificuldade nos livros, e a tarefa pode ser tão desafiadora que fará um leitor muito primário desistir. Evitar o uso da língua aleijada é uma espécie de “pièce de résistance” para não sucumbir à mediocridade geral, pode não parecer, mas muita gente bem educada e de vasta cultura, ao ler em computadores e tablets, sem perceber acabada desistindo ao meio de um texto mais exigente por cansaço, não percebem que é o meio que induz a esta imbecilidade programada; computadores e tablets não se prestam a literaturas complexas, não permitem atingir o nível de concentração necessário para decodificar estes textos, e assim, sem sequer perceber o leitor torna-se mais burro, incapaz. Talvez por isso muitos mantenham o hábito do papel, como nunca entenderam no meio eletrônico a diferença fundamental do e-reader e-ink para as outras mídias.

Existe um consenso dominante errado de que o leitor não deve ser desafiado, muito disto vem do reino da propaganda, onde um texto deve atingir o maior público possível, isto talvez o valha para quem quer vender limpadores de privada, mas é um tipo de texto que menospreza o leitor, pois considera o menor denominador comum e assim diminui o padrão de toda leitura, mas escrever é comunica-se, e dependendo do assunto, a quem se dirige o texto ou sua função, esta simplificação obrigatória é simplesmente ridícula; com isso o texto perde a função de educar o leitor, expandir seus horizontes e a capacidade de articulação lógica. As pessoas não percebem o quanto este uso de textos obrigatoriamente simplificados é degradante para a leitura, para os assuntos tratados e para o próprio poder de raciocínio. É um verdadeiro veneno que extermina todos os níveis da cultura.

Aprender e desenvolver-se exige esforço por parte do leitor, não é possível ensinar sem desafiar o leitor, esforço não é necessariamente uma coisa ruim, muito ao contrário, assim como aprender, mas nos focamos em tamanha passividade por parte de leitores que cobrar um mínimo de esforço parece heresia, há esforço prazeroso, há desafios que trazem recompensa, e o aprendizado é um deles. Desta maneira em vez de escrever para aqueles que são tão vagabundos que abandonam um texto a meio caso este lhes ofereça qualquer desafio, o melhor é focar nos objetivos mais altos, pois quem ler o texto sai ganhando e temos leitores que valem a pena. E aí vem um imbecilzinho preguiçoso nos acusar de elitistas por não sermos condescendentes e desprezarmos a capacidade cognitiva de nossos leitores, oferecendo-lhes um texto que ao desafia-los os fará crescer; cabe aqui acabarmos esta mistificação grosseira: procure por aí os textos dos fabricantes de relógios que custam o preço de carros e carros que custam o preço de casas, verá que quem evidentemente produz itens para uma elite que pode dar-se ao luxo de pagar por objetos de status não usa textos complexos, muito ao contrário, são simplórios, portanto, onde está o tal texto “elitista”? Tudo isso para mascarar que a grande cultura humana hoje está gratuita a quem dispuser-se a ler, se a dois séculos foi um item de diferenciação de classes por conta do acesso restrito, hoje não é mais, assim acusar de elitista é imbecilidade a não ser que se refira a uma elite pensante, mas pensar ainda é de graça. Muito do que pensam é errado, escrever usando todo o potencial da língua não é um fator de exclusão, muito ao contrário, é a verdadeira inclusão, mas o leitor precisa fazer o esforço de desafiar-se para ser incluído. Um texto ruim exclui sem possibilidade oposta, pois mesmo que o leitor suceda na leitura está excluído, pois nunca oferece a oportunidade de crescimento.

Até aqui falei apenas de textos predominantes em jornais e revistas que ao optarem pela simplificação da língua perdem sua capacidade de tratar de assuntos com a complexidade merecida e assim falham em informar corretamente e formar o leitor. Mas e a literatura? Aí o caso é ainda mais grave: literatura antes de mais nada é arte, diria ainda uma das mais difíceis pois não tem guias, o artista que enveredar por esta modalidade terá que criar seu próprio caminho, as regras da gramática são paupérrimas perto de toda diversidade encontrada na literatura, que às vezes a desafia frontalmente e sai ganhando esplendorosa. Literatura aprende-se lendo, é uma vivência, só se aprende fazendo, não adianta, não existe outro caminho, e justamente por este particular fabricamos monstros estranhos: pegue um garoto nos seus dezessete anos e o enfie em um curso de letras, qual sua vivência como leitor? A maioria nenhuma, e aí o encha de livros aos quais deverá fazer uma “leitura técnica” como preconizam seus mestres, o garoto que não viveu a literatura agora vai ver o texto de forma mecânica ou ideológica, resultado depois de quatro anos de faculdade: alguém que não lê mais por prazer pois não teve tempo, quatro anos é muito pouco para tantos livros, mas ganhou o título de especialista em literatura. Especialista em quê, se não teve tempo de ler? Esse garoto agora com uns vinte e um anos vai ensinar língua e literatura… Já viram o desastre, não? É o que vemos hoje, mas tem lados piores, o rapaz em vez de ensinar nas escolas escolhe a vida acadêmica e vai ser um crítico literário: o pobre menino que não teve sua vivência com os livros vai agora falar sobre livros, não do ponto de vista do leitor, mas com os estudos acadêmicos que não interessam a ninguém que não sejam seus pares; resultado: ao encontrar o livro bem escrito mas sem experimentalismos inúteis vai logo taxa-lo de: “romanesco” em tom pejorativo, e se lhe cair em mãos um texto de Machado sem a assinatura do autor dirá que não é grande coisa, mas irá elogiar vilipendiando os adjetivos quando encontrar um texto experimental e ruim que não diz nada, não quer dizer nada, nem pode ser compreendido, o ápice do nada com a coisa nenhuma, a arte do nada!

A grande estupidez no meio acadêmico ou pseudo-acadêmico, é que não conseguem mensurar a extensão de sua ignorância, criando um universo analítico que tal como a taxonomia vê o livro não como vivo, mas como peça morta a ser dissecada, a verdade é que o todo é maior que as partes; leia uma análise semiológica, ela parece com um livro da mesma maneira que a descrição taxonômica de um gato parece com o animal vivo, a academia é muito boa em guardar o passado, mas inútil na criação artística. O viés cientificista é a causa desta cegueira, primeiro e mais importante: cientificismo não é ciência, é seu uso ignorante, pois a ciência dá conta do que são as coisas. A ciência observa o que é, a arte cria o que será; ciência é observação, arte criação. Desta maneira um acadêmico ao taxar algo de romanesco repete os mesmos preconceitos dos românticos ao criticar a literatura clássica, o modernismo ficou velho e o pós-modernismo ao desvencilhar-se da estética trouxe um viés ideológico que fez da não arte uma arte, assim tudo passa a ser arte e ao mesmo tempo nada mais é, não existe arte pós-modernista, pois criou-se uma falta de conceito, cabe ao observador ou leitor ter conceitos e decidir o que é arte, pós-modernismo em essência é o sofismo moderno, o discurso vazio, o relativismo, e ninguém representa melhor isso que o meio acadêmico, pois o que era para ser o ápice do conhecimento tornou-se uma panelinha de relativistas inúteis, apodrecidos e preocupados apenas com seus próprios salários em vez de seus objetos de estudo.

A maior prova da impotência acadêmica na literatura é que a maioria dos bons escritores não vem de seus quadros, um leitor bronco mas não ignorante como o Faulkner é infinitamente mais capaz que a maioria acadêmica, é da realidade da escrita e da leitura. Escrever é a arte do ilusionismo com palavras, o leitor percebe o efeito mas não vê a mecânica, que na realidade é um conjunto de truques simples, por isso a maioria dos escritores não fala dos próprios escritos, por isso que não há manual. O escritor é um mágico que não gosta de revelar seus truques. Antes de estudar a literatura como um peixe morto é necessária vivência, deixar-se maravilhar com os truques dos vários autores, ver o texto vivo antes de partir para a dissecção, por isso criamos monstros deformados, os estudiosos nunca foram leitores, e sem ler não vêem o efeito das ilusões que formam o cerne da criação literária; o leitor vê o efeito sem conhecer o truque, o acadêmico procura o truque sem saber qual é o efeito. E assim criou-se todas essas distorções que vemos por aí, gente que louva textos ineficientes, sem efeito, trejeitosos e inúteis. Assim prospera uma literatura contemporânea estéril, inútil e enfadonha, que não cativa leitores nem cria nada de bom. Aposto mais na literatura taxada pejorativamente de entretenimento, pois há mais chances de ver real arte aí do que no lixo propagandeado pela crítica acadêmica.

Voltemos novamente ao meio, talvez por conta da influência de jornais e revistas ou pela escrita pobre de massa dos textos de propaganda, gerou-se um consenso não pensado onde o meio eletrônico só comporta textos curtos e linguagem simplória, lógico que em serviços como o twitter que limita as mensagens a grunhidos de poucos caracteres, é impossível, mas não é a realidade eletrônica, aliás, muito ao contrário, antes um livro de muitas páginas era difícil de ser impresso pois custava mais, livros comerciais eram sempre limitados a duzentas ou trezentas páginas, mais que isso só se já fosse um “bestseller” de venda garantida, caso contrário a publicação seria muito cara, no meio eletrônico não existe esta diferença, um ebook pode ter qualquer extensão que é replicado com o mesmo custo, isso é um ganho! Uma expansão da capacidade que tínhamos antes. Um texto de internet deve ser curto e de linguagem simples para que os leitores não desistam, por que focar-se em escrever um texto para quem não lê em vez de fazer ao contrário, escrever para os que lêem, tem capacidade ou não tem preguiça? Se não se está vendendo porcaria, mas se quer ter um diálogo de alto nível, não faz sentido escrever para os idiotas que não lêem. A língua em nosso cotidiano tem também a função de formar as estruturas lógicas do pensamento humano, foi analisando a conversa de crianças que Piaget percebeu que a estrutura lógica da língua induz ao pensamento complexo, se em crianças de seis anos as formulações lógicas são menos freqüentes e muitas vezes inconscientes, em garotos maiores há mais freqüência no uso lógico da língua, e sem esta vivência não há o desenvolvimento mental. Ao aleijar a língua evitamos que as pessoas treinem o intelecto e impossibilitamos o surgimento dos raciocínios complexos. O uso pobre da língua inviabiliza o pensamento complexo e mais que um estilo ou moda, induz à pobreza de pensamento, e isso reflete-se em toda cultura e vida social, é por este motivo que as visões dicotômicas e ignorantes imperam em nossa sociedade, pois qualquer complexidade além da imbecilidade binária, não tem capacidade de ser processada, todo assunto complexo que envolve mais de dois lados torna-se um problema insolúvel. Veja o uso de uma dessas simplificações ignorantes: em uma democracia todos temos direito à voz, liberdade de expressão, assim todos temos direito a uma opinião, seja ela verdade ou mentira, certa ou errada, mas tende-se a usar o “direito à opinião” como justificativa para cassar o direito de expressão do outro no caso de que discorde de nossa opinião, assim como alguém tem direito a dar uma opinião, esta opinião não impede o outro de manifestar-se contra, pois ele tem a mesma liberdade de expressão; é assim que funciona a argumentação, uma opinião recebe uma contra-opinião, um argumento recebe um contra-argumento, esta é a liberdade democrática. Quem não gosta de argumentação pois tem argumentos ruins tende a querer usar a opinião como direito de caçar a liberdade de expressão. Complicado? Não muito, mas é mais simplório dizer que “todos tem direito a uma opinião”, que é uma simplificação grosseira e que esconde a realidade do direito democrático.

Literatura é tudo menos simples, muito ao contrário, é justamente a diversidade e sua complexidade que faz sua riqueza, assim, veja como esta estrutura lingüística mutilada é derrogatória da apreciação artística da literatura que não cabe em qualquer dicotomia imbecilizante, um Hemingway não está acima de um Shakespeare, nem abaixo; é a existência de Faulkner, Cervantes, Goethe, Virginia Woolf, Defoe, Chaucer, Sterne, Conrad, Byron, Yates, Shelley, Walt Whitman, Chekov, Machado, Kafka entre muitos que faz da literatura a potência que é. E nenhum autor é uma unanimidade, veja Joyce em Ulysses e em Finnegans Wake, o primeiro foi ao limite, o segundo passou do limite, criou uma obra mutilada que perdeu o foco do leitor e empobreceu-se na língua, a soma de suas partes ficou menor que o todo. Imagine o quanto deste universo o garotinho estudante de letras já teve tempo de apreciar, quase nada, não há curso de quatro anos que substitua uma vida de leitura. Por isso a impotência acadêmica na literatura é tão gritante.

Ler, como tudo que vale a pena na vida, exige certo esforço, fazer um texto para preguiçosos que não querem ter o mínimo de esforço é escrever inutilidades, banalidades nunca farão ninguém crescer, cada grande autor criou o seu jeito de escrever, não é só questão de estilo, pois bom ou ruim todos tem um, o escritor artista criou um jeito que funciona, expande as possibilidades da linguagem para contar suas estórias, por isso cada novo autor é um novo aprendizado, um novo esforço e um novo universo expressivo, é assim que se cresce. Quem não consegue ler um bom autor confunde o ruim com o bom, não tem capacidade de diferenciar um do outro, por isso a literatura contemporânea é tão cheia de embusteiros, escritores incompetentes que mascaram sua ruindade com experimentalismo vazio.

O meio eletrônico traz novas possibilidades para a literatura, é preciso ver sua real capacidade e descartar os consensos ignorantes que mutilam a língua e os seres humanos, a literatura será o que faremos dela, é preciso conhecer a arte dos grandes homens, por prazer, criando assim a apreciação artística e o domínio da língua, seja no papel ou no e-reader e-ink mais acessível e democrático; depois de viver ler é a experiência mais próxima, vivemos uma vida, mas através da literatura vivemos milhares.

Alex

Livros, e-readers e cultura.

Cultura, palavrinha difícil, abusada, vilipendiada, torcida em seu sentido e prostituída em todos os sentidos; dá para traçar um paralelo com a palavra vida, que também por significar tudo e nada, no final do uso diário perde todo seu sentido, ou mesmo a busca de um sentido. Não há vida sem passado e não há cultura sem memória, e ao mesmo tempo vida e cultura apenas justifica-se no presente, parece incongruente, dependemos do passado, de sua lembrança, mas seu uso, sua realidade está no presente.

A escola foi um dispositivo inventado para difundir a cultura em sociedade, e de uma vasta gama de conhecimentos, escolhemos aqueles imprescindíveis para o homem viver em sociedade, mas o que tentamos injetar é uma espécie de cultura postiça, padronizada, industrializada e plastificada para servir a todos, menos aos que realmente buscam cultura de verdade; a coisa legítima, muito mais brilhante, vibrante e viva não está nos medíocres bancos escolares, está na vida de cada um, e na vida que teve a cultura em nossa sociedade, não nos textos dogmáticos repetidos à exaustão, mas no uso prático que se faz deste conhecimento tornando-o vivo.

Ter cultura como fim é mera imbecilidade, pois é da vida que ela advem, não como objetivo, mas como subproduto involuntário. Você lê um livro, diverte-se, toma contato íntimo com o texto, e desta relação pessoal ganha como subproduto cultura, viver o livro é o que lhe dá cultura; mas se ao contrário, você é obrigado a ler, decorar, e não tem a vivência do livro, o que vem é uma cultura postiça e disfuncional, não uma relação pessoal com o livro, mas uma relação intermediada pela sociedade, pois cultura em si não tem qualquer valor a não ser o desfrute advindo da vivência que a gerou, a cultura como valor social é falsa. O motivo da cultura ser valorizada em círculos sociais é que os indivíduos verdadeiramente cultos e inteligentes se destacam, e por isso despertam inveja, a inveja gera cobiça e assim, sem viver, os invejosos almejam ter o mesmo destaque, mas não querem a vivência, cultura de verdade, apenas sua aparência social. E por não importarem-se e não viverem são impossibilitados de ter a compreensão dos assuntos daqueles que experimentam esta relação com seu tema de paixão, ficam aleijados, e como todo invejoso, inferiorizado, indigno da cultura que finge ter.

Rousseau não entendeu estas diferentes relações e confundiu a verdadeira cultura com sua afetação social, fruto da inveja, e assim em seu discurso contra as artes e a ciência, as culpou pelo pecado humano, e não percebeu que é a relação social que gera esta perversão, e de maneira burra e crédula creditou ao homem inculto a pureza, pois este estava livre da cultura corruptora, mas é do homem, da sociedade humana esta perversão, não da cultura, seja na forma de arte ou ciência. Veja este excerto:

Hoje, quando estudos complexos e gostos refinados reduziram a arte de agradar em princípios, uma vil e enganosa uniformidade governa nossos hábitos, e todas as mentes parecem ser produzidas do mesmo molde: reiterada polidez traz demandas, propriedade escreve ordens, e incessantemente pessoas seguem as tradições costumeiras, nunca suas próprias inclinações. Uma pessoa não ousa ser como ela é. E neste constrangimento perpétuo, homens que compõem este rebanho chamamos sociedade, colocados na mesma situação, todos fazem as mesmas coisas, a não ser que forças poderosas o evitem. Assim, uma pessoa nunca conhecerá bem a pessoa com que trata. Pois para conhecer um amigo será necessária uma situação crítica, dito isso, esperar até que seja tarde, pois é lidando com estas emergências que você o conhecerá de verdade.

Ele confundiu a uniformidade, a mediocridade, como traço da cultura padronizada, mas este comportamento é inerente do homem inferior, que tem a tendência de ajuntar-se em bandos e comportar-se como matilhas, assim como os animais aos quais é impossível perverter com a cultura, o tal homem natural não tem nada de idílico, tem embutido em seus genes as mesmas características de todas as bestas feras que o precederam sobre a terra. Mas, ao contrário dos animais o homem tem escolha, uma escolha consciente, da mente humana intelectual, não animal que age sem escolha consciente possível, e é nesta consciência humana que reside a cultura, e é responsável pelo uso que faz de suas potencialidades.

Fabulosos e evidentes são os enganos de Rousseau, mas pior foi a leitura que a inveja ainda mais aguda dos homens inferiores fez de seu trabalho, gerando a estupidez do marxismo e sua luta de classes, como podem ver, o comportamento de gado que Rousseau despreza é a própria natureza do sentimento de classe; classe esta que não suporta o diferente, pois quer a tudo mediocrizar, e no momento de seu nascimento, era uma aristocracia decadente e uma burguesia ascendente que viraram alvo da inveja da massa medíocre.

Apesar de Rousseau ter reconhecido Bacon, Descartes e Newton como capazes de subsistir à cultura social mediocrizante, não ousou seguir seus escritos, e como bom homem inferior ignorou as palavras de Bacon:

Os que se dedicaram às ciências foram ou empíricos ou dogmáticos. Os empíricos, à maneira das formigas, acumulam e usam as provisões; os racionalistas, à maneira das aranhas, de si mesmos extraem o que lhes serve para a teia. A abelha representa a posição intermediária: recolhe a matéria-prima das flores do jardim e do campo e com seus próprios recursos a transforma e digere. Não é diferente o labor da verdadeira filosofia, que se não serve unicamente das forças da mente, nem tampouco se limita ao material fornecido pela história natural ou pelas artes mecânicas, conservado intacto na memória. Mas ele deve ser modificado e elaborado pelo intelecto. Por isso muito se deve esperar da aliança estreita e sólida (ainda não levada a cabo) entre essas duas faculdades, a experimental e a racional.

Um detalhe importante a salientar é que como viemos neste curso de uma sabedoria eminentemente religiosa, virtudes como lógica e razão eram consideradas divinas e metafísicas, mas de um ponto de vista epistemológico tendo a ver estes valores como fruto da observação e experimentação, da causalidade.

De um lado temos a cultura real, a que adquire-se do contato com as artes e a ciência, do outro temos o contato social, indireto, falso. Junto com o marxismo ganhou popularidade um tipo de estudo chamado historicismo, se levarmos em consideração os escritos de Hegel, as coisas não tem valores em si, mas apenas os que a sociedade lhe dá, assim em vez de imiscuir-se em artes e artesanias, cria-se uma narrativa falsa que substitui a coisa em si. Esta cultura de falsificações tornou-se o cerne das idéias marxistas, pois como uma religião Marx predisse que o fim da chamada luta de classes seria inevitável, mas há aí muita, toneladas de besteiras, a primeira e mais fundamental é a própria idéia de classe, agrupar pessoas nestes cercados de gado é tirar toda sua humanidade e cultura verdadeiras.

O homem inferior sente inveja do superior e tenta sabotar aquilo que cobiça, quer destruir o que não pode ser, mas ser superior ou inferior é uma escolha à disposição de todos, e para isso é só descobrir os verdadeiros gostos e prazeres que tem no contato exclusivo com seus objetos de estudo, sejam eles quais forem. E desta escolha vem o desenvolvimento mental, o homem torna-se inteligente não por seus genes mas por sua atitude diante do conhecimento, da cultura. A partir do momento que tem prazer em uma atividade você constrói sua cultura, seu saber, como já demonstrou Piaget, você tem um modelo vivo, e a partir dele novas informações são incorporadas gerando o fenômeno da acomodação, isso cria um todo conectado e coeso, diferente de informações simplesmente memorizadas e descontextualizadas do conteúdo geral, que não se encaixam, e portanto não formam o entendimento como um todo.

Em todo esse processo o livro tem sido o principal veículo da cultura, só ele é capaz da intimidade intelectual necessária, houve época que achava que livros não mais valiam como ferramenta de comunicação de massa, uma vez que muito menos gente lê, mas depois de muito explorar toda a linguagem de vídeo e áudio, cheguei à conclusão que certo conteúdo intelectual é inviável nestas mídias, pois não se consegue transmitir conceitos intelectuais complexos. No livro lemos e relemos, paramos para pensar e organizar as idéias e este ritmo é pessoal, vídeo e áudio, mesmo pausando, não tem esta versatilidade para induzir o pensamento profundo. Vídeo e áudio são ótimos acessórios, mas para conceitos intelectuais complexos, não são suficientes, nada supera a intimidade que a mente tem com o livro, e nem precisamos dos grandes tratados de filosofia para provar, qualquer livro de estória é muito mais vívido que o melhor dos filmes, não há filme que consiga nos transportar para uma realidade imaginária com tanta eficiência. Assim, é inevitável ver que uma sociedade com menos livros, em que se lê menos, é uma sociedade mais estúpida.

É bem evidente o processo de desvirtuamento cultural em que vivemos, na época em que o acesso é mais fácil, mais democrático, as falsificações culturais proliferam, a sociedade humana mais organizada e institucionalizada é a que mais prega a mediocridade; universidades, em vez de serem centros difusores de excelência, tornaram-se os bastiões dos medíocres. Cabe aos que prezam a cultura, os que dela tiram prazer, caminhar independentes para não serem cerceados pela massa.

Com o mercado ditando o que se imprime, o e-reader veio devolver a diversidade fundamental para o mundo dos livros e da literatura, o próprio livro gratuito para quem tem e-reader é um tabu, pois nunca foi assim, livros sempre custaram, sempre foram objeto, este ebook sem corpo é uma aberração, pois tudo que traz é a literatura e cultura despidas de todos os fetiches, mas com toda a parte essencial. É um choque achar tomos de incomensurável valor cultural gratuitos na internet, é a cultura despida de toda inutilidade, mas preservada em sua essência. É uma quebra de paradigma, para aqueles que sempre tiveram relacionamento íntimo com o livro nada muda, a transição é prazerosa, pelas facilidades que traz, mas para quem tem um relacionamento idólatra, fetichista ou vigarista, o e-reader traz o desmascaramento da falsa intelectualidade, uma afronta, por isso tanta gente quer sabotar o e-reader, por isso tanta gente odeia o acesso que o e-reader trouxe para os ebooks e o acesso que dá a toda cultura. É também por este motivo que o governo cobra imposto no e-reader, pois sem a taxação ele fica acessível aos pobres e pode significar a quebra do ciclo de ignorância crescente do Brasil, um governo com base em teorias socialistas furadas precisa da ignorância do povo para que prospere a implantação do almejado regime ditatorial.

O que acho engraçado é que ninguém espelha-se mais nos grandes homens, é como se fossemos indignos, e é aí que começam as más escolhas, a inveja em vez do prazer e da virtude. Se muitos foram grandes é por inspirarem-se nos grandes, para um exemplo sonoro, pegue a primeira sonata de piano do Beethoven, ela é um desafio a Mozart, lógico que o segundo já não mais existia, mas era o mestre a ser batido, Beethoven parte de uma melodia muito parecida com as composições de Mozart, mas à medida que a música progride a estrutura vai ficando mais sofisticada, “melhorada”, ousou ir além, desafiou o mestre. Por melhores que sejam todos são homens, e podem ser ultrapassados por outros homens, mas o caminho da inveja faz com que os mestres sejam apenas desprezados, mas nunca superados, pois o invejoso é sempre indigno, para vencer necessita da falsificação e da complacência da massa medíocre que faz o seu sucesso, mas nunca seu mérito, é um conluio implícito onde o mérito verdadeiro é ofensa pois desmascara a farsa.

Sem descambar para o lado místico, adquirir cultura exige que primeiro siga o ditame das portas dos templos iniciáticos: “Conhece-te a ti mesmo”. Quem é você? Quais são seus  gostos? O que realmente lhe dá grande prazer? A partir daí siga a sua curiosidade, vá vivendo e encaixando todos os pedaços de informação que adquire segundo o mapa dado pela sua curiosidade, não se deixe seduzir pela pressão social, só você sabe o que você quer, e nessa relação ninguém pode se meter, e verá que terá os melhores amigos pelos assuntos em comum que te atraem, aqueles que podem acompanhar-se na busca pessoal e não os que queiram te desviar do que é seu, do que é você. O invejoso não consegue ter esta relação íntima com seus interesses, ele não tem prazer, inveja o prazer que outros tem e a cultura que por ventura virá, cuidado com esses tipos, eles não tem nada de bom a te oferecer.

De posse de um e-reader, vou dar-lhe algumas dicas: nunca se deixe intimidar por qualquer texto, faça perguntas, se não entende pergunte o porquê, pode ser que ele refira-se a outros textos ou conceitos que não estão no livro, se as palavras não fazem parte do seu léxico, o dicionário foi feito para isso, no e-reader basta um “clique”, e assim seu repertório cresce, pergunte, nunca fique calado! O grande problema ou solução é que cultura de verdade é sempre desafiadora, irrequieta, ela te faz questionar, e tudo que a massa medíocre não quer é este desafio. Certa polidez social, já denunciada por Rousseau, existe ainda hoje, e é ela que mantém a aparência dos impostores da cultura, que não devem ser desafiados para não serem desmascarados, eles ostentam uma posição social, mas não mérito moral, não são invejados pelo que são, mas pela posição que ocupam.

Seja verdadeiro, seja você, pergunte, desafie e cresça, se a cultura hoje é mais fácil e acessível a sociedade é mais ignorante e estúpida, enquanto os invejosos tem que tomar antidepressivos para dormir por perder de vista o verdadeiro prazer, siga em paz com o livro e deixe que te guie nos sonhos de grandeza que um dia embalaram os grandes homens.

Alex

Quem é o livro?

É absolutamente estonteante o nível de leviandades que hoje atingem o livro, e de um passado glorioso e rico podemos afirmar muitas coisas, menos que o livro seja leviano; é ele o ápice do desenvolvimento intelectual, mesmo quando prático, pois tudo que contém e pode conter é uma representação mental, mediada por símbolos, signos e códigos. Conhecimento em certa profundidade só em livros, quem sabe muito sobre algum assunto é instado a deixar sua marca em formato de livro, pois é ele o único que através da história e das gerações humanas foi capaz de dar continuidade ao mundo das idéias, a vida intelectual da humanidade.

Desta maneira quando ouço de forma repetitiva que o livro de palavras morreu, que ninguém mais vai querer ler, que livro é coisa antiga, ultrapassada, sem futuro, tenho absoluta certeza, quem faz estas afirmações não lê, não sabe o que é um livro, e não entendem o nível de estupidez que estão proferindo, ignorância, leviandade. Hoje o livro é visto por muitos como mais um produto de mercado, com seu valor atrelado à sua capacidade de venda e existência como produto, mas apesar da hegemonia das relações comerciais, a vida humana é mais que um produto, o ser individual não é passível de ser produtificado, e assim é também o livro de verdade, veículo do pensamento que permite ao homem mortal a imortalidade de suas idéias, e é este livro do qual não se suspeita, este que está de sua maneira atrelado ao desenvolvimento humano, impossível separar, é ele apenas ferramenta, mas poderosa pois é o único capaz de portar o pensamento em grande profundidade. No livro lemos e relemos, as palavras estão ali e basta um movimento de olho para repetir a mesma frase, decompô-la em palavras, ou ordenar suas unidades, brincar e manipular uma idéia ou pensamento, nenhum outro veículo tem esta capacidade, e assim faz com que o livro seja o transmissor perfeito da elaboração intelectual humana.

O homem é o único animal capaz de manipulação intelectual avançada, pensamento abstrato, e isso não vem com genes, eles nos permitem a capacidade deste desenvolvimento, mas sua existência não é fator filogênico mas ontogênico, deve ser desenvolvido; pelos estudos de Piaget sabemos que as crianças só terão domínio desta lógica abstrata lá pelos dez ou onze anos, mas estas idades não são fixas e dependem do desenvolvimento mental, é uma progressão intelectual; e a progressão intelectual da humanidade, em vez de estar na memória perene do indivíduo está nos livros, e sem eles não haveria epistemologia possível. As civilizações primitivas dependiam da tradição oral, mas o desenvolvimento da escrita permitiu o diálogo entre gerações que nunca puderam encontrar-se, o livro é uma extensão da memória, estudos apontam que ler um livro ativa no cérebro regiões semelhantes às experiências reais. Temos apenas o tempo de uma vida, mas através dos livros podemos aproveitar da experiência de nossos antepassados para tornar as nossas experiências hoje mais plenas, aguçando os nossos sentidos para ir além, de posse de toda herança humana deixada nos livros, vivemos mais de uma vida, muitas!

O livro existe deste o desenvolvimento da escrita, variando de suporte durante a história, livros já existiam antes de Gutenberg, caros, copiados a mão, um a um ou em edição única, extremamente restritos; a invenção da prensa só facilitou a confecção de livros, e a igreja preocupou-se pois a posse dos textos dos evangelhos, antes monopólio da igreja, estaria à disposição do povo, e pior, o povo poderia aprender a ler, pois sem livros não há necessidade ou possibilidade do desenvolvimento da leitura. Pouco mais adiante, quando começaram a imprimir livros em polpa de madeira, o que os tornou ainda mais baratos e populares, foi a hora das universidades preocuparem-se, pois com seu conhecimento disponível em livros acessíveis aos não universitários, temiam perder a função, pois antes, sem estar na universidade tais conhecimentos estariam indisponíveis ao indivíduo. Mas mesmo assim o livro prosperou e a humanidade prosperou com eles.

É impossível pensar o desenvolvimento humano sem os livros, e um absurdo pensar em uma sociedade sem livros, disparates da modernidade. Livros favorecem o conhecimento, fomentam o debate e a discussão de idéias, sabe a parte engraçada: hoje, para justificar a ignorância, o não debate, usa-se o argumento vazio da modernidade, esquecendo o passado e o valor de seus argumentos, antigamente usava-se a tradição para justificar a ignorância: “sempre fizemos assim, e é assim que deve ser feito”, uma falácia velha, mas com o mesmo efeito temos a falácia moderna onde ”o novo é melhor, moderno, o velho é ruim”; tanto tradicionalismo como progressismo tem a mesma raiz: ignorância, fuga do debate lógico, medo da argumentação. Assim, em ambos os casos favorece a ignorância, que é combatida com livros, para os tradicionalistas os livros trazem o perigo das novas idéias, dos melhores argumentos, para os progressistas os livros trazem o perigo das velhas idéias, os argumentos que funcionam. Há também um uso ambíguo dos livros, como dogma ou fonte de idéias, Aristóteles usado como dogma pela igreja foi devastador, mas como fonte de idéias é excelente, foi um grande pensador, mas não significa que sabe tudo. Aqueles que tomam um pensador como um todo, estão apenas exercendo o dogmatismo acéfalo, Descartes provou a existência de Deus, e o mesmo Descartes criou o sistema cartesiano e o método científico, se valorizo Descartes não preciso necessariamente aceitar sua prova da existência de Deus, mas uso muito bem o sistema cartesiano; essas pessoas que vêem todo tratado filosófico como um sistema de idéias que deve ser adotado em seu todo, advogam a ignorância do dogmatismo. Tome como exemplo o trabalho de Freud, se pegar separadamente cada acepção verá que ele diz besteiras incomensuráveis e a própria mistificação do id, ego e superego não tem qualquer base fática, é uma explicação similar aos gregos que atribuíam os fenômenos naturais aos Deuses, mas a descoberta do inconsciente e seus processos e efeitos na psicologia consciente é inegável; veja quantas escolas de psicologia existem com      teorias fantasiosas baseando seus métodos, e em realidade, apesar das disparidades teóricas, todas funcionam pois no fundo tentam trazer ao consciente mecanismos e processos do subconsciente, seja ele com o nome que tiver.

O livro é fonte de pensamentos não repositório de verdades, e como em qualquer conversa, há a parte que aceitamos pois nos parece razoável e há a parte que descartamos, mas mesmo o que descartamos nos faz pensar e afirmar nossos valores, eu gosto particularmente do trabalho do Immanuel Kant, e acho que chegou a conclusões notáveis, mas tenho diferenças conceituais fundamentais uma vez que ele diz que a lógica é algo puramente metafísico e eu tendo a considerar a lógica como fruto da causalidade, ou seja sem qualquer existência metafísica. Einstein também era profundo admirador de Kant, mas no caso da relatividade violou o apriorismo kantiano. Darwin descobriu a seleção natural mas nunca foi capaz de divisar um mecanismo que seria possível de explicar tal fenômeno a contento, que o fez Mendel com suas ervilhas. Tudo, absolutamente tudo em livros, estão eles hoje mortos, mas posso ter contato com seus pensamentos, vivos, parte da base que assenta a sociedade atual, vivemos uma evolução de idéias que estão em livros, assim, vejam o tamanho do disparate que é uma sociedade sem livros, o seu computador, celular, tablet e e-reader só existem por causa dos livros, e livros são necessários para manter esta tecnologia, subproduto do pensamento humano.

A produtificação do livro é um dos fatores que tem levado à sua fragilização, acontece que hoje nossa sociedade mercantil é muito mais desenvolvida, pragmática e finalista, e toda atividade humana é reduzida às interações comerciais, e estas são voltadas à geração de lucro, assim, tudo resume-se a ter o melhor produto que gera o maior lucro líquido, todo o resto é esquecido nesta competição. Tudo que vende pouco e dá pouco lucro é deixado de lado, e entre eles o livro. Tem gente que afirma que devemos ao capitalismo os confortos da sociedade moderna, discordo, uma vez que é este mesmo capitalismo que nos incentiva a abandonar atividades que não dão lucro, ou que dão pouco lucro para as que dão mais, é este o acerto último do capitalismo, seu ápice, e nesta visão mercantil pragmática enterra-se o empreendimento humano, que nem sempre busca o lucro. O capitalismo bem desenvolvido é tão ruim quanto as supostas economias planejadas do socialismo, a diversidade, o empreendimento só existe no capitalismo incipiente, pois aquele que atingiu seus objetivos só tem olhos para os maiores lucros, não para o lucro que permite a vida modesta, não para atividades que não visem lucro, o lucro, base do capitalismo é igualmente mediocrisante e podemos ver isso claramente no mercado de livros: é necessário um investimento para a existência de um livro, investimento do autor na forma de trabalho, investimento financeiro para imprimir e distribuir este mesmo livro, investimentos devem ser pagos e além disso o livro deve gerar um lucro condizente, portanto, não importa o quão magnífico e maravilhoso seja um livro, ele deve dar lucro, e se este livro só conseguir ser apreciado por um punhado de pessoas, ele não presta, não tem popularidade, não tem escala, não dá lucro, não deve existir! Quantos dos grandes livros da história caem nesta categoria de não existência? Quantos destes livros não seriam escritos ou impressos se levarmos em conta o pensamento pragmático capitalista? A realidade é que a interação mercantilista tenta intermediar toda relação humana, e este é o verdadeiro capitalismo, relações fora deste ambiente de lucro são desconsideradas, não existentes, e assim provo e mostro que o capitalismo não é capaz de criação, apenas de repetição, não é ele advogado da livre iniciativa, pois isso pode significar prejuízo, falha, e o capitalismo moderno e desenvolvido não admite falha e risco. O grande capitalista gosta da certeza do lucro, não da incerteza do risco, e muitas vezes o sucesso no caso de livros é e sempre será apenas o fracasso mercantil. Se tivemos bibliodiversidade foi pelo fato das editoras serem amadoras, investindo em livros que dariam prejuízo, nada que quer as grandes e potentes do mercado, o problema é que evitar o risco, dar a garantia do lucro, é o caminho mais que certo da mediocridade.

Se duvidam do que digo vejam o caso evidente da televisão a cabo, toda a sua programação é baseada em fórmulas velhas do que deu certo antes, vejam a indústria do cinema, quanto maior mais medíocre! Quase não vou mais ao cinema e tenho centenas de canais com nada que preste para ver, há diversidade? Não! Há muita coisa, há muito lixo, mas diversidade? Nada! É tudo igual e formulaico, segue a receita do que já deu certo, e com isso tenho centenas de canais e nada para ver, um monte de livro e nada para ler. Qual o motivo de antigamente esgueirar-me por livrarias por anos atrás de um livro? Haviam lá tantos, era só pegar um qualquer… eu tenho um gosto exótico, difícil, pois um destes livros que passei anos procurando em livrarias foi o “Senhor dos Anéis”, valeu? E como valeu! Isso é o que o capitalismo gordinho, profissional e bem desenvolvido nunca vai entender. A livre empreita não é característica do capitalismo, mas do ser humano, e o capitalismo desenvolvido não gosta da livre empreita, não gosta de falha, e o “Senhor dos Anéis” foi uma destas falhas, e isso sem entrar em searas mais eruditas, onde os exemplos saltam.

O e-reader fez com que os ebooks possam competir de igual para igual com o conforto do papel, mais praticidade, mas o mesmo sabor. E é esta característica imaterial do ebook com custo ínfimo de impressão e distribuição que faz com que autores e pequenas editoras possam arriscar-se a falhar e sem por isso perder seu sustento de vida, se é que fui claro, ele tornou o recurso “impressão” mais abundante permitindo que a diversidade floresça, que pessoas como Tolkien possam dar-se ao luxo do fracasso. Nem todo autor viverá de seus escritos, e muitos dos grandes livros não sustentaram seus autores e deram prejuízo aos seus editores, mas estão aí, resplandecentes mendigos a abrilhantar e divertir a cultura humana; e neste ambiente de capitalismo avançado, com mega editoras e sua busca por lucro e medo do fracasso que o ebook e o e-reader vem para preservar o que há de melhor na literatura e nos livros. O comercialismo ignorante vinha minando do livro o que o livro é, fonte das idéias, repositório do melhor do pensamento e criatividade humana, memória consciente da humanidade.

Mas a coisa é ainda mais divertida, por muito tempo livros e cultura foram sinais de status, até o século dezessete os livros de um morto entravam no inventário do seu testamento de tão valiosos, ter cultura era caro, reservado a uns poucos que podiam pagar. Mas não adianta pagar, ter posse de muitos livros, cultura antes de mais nada é vivência, e antes, a possibilidade desta vivência era exclusiva dos abastados, a cultura não estava ao alcance dos pobres. Hoje não mais, sabe aqueles livros que figuravam em testamentos? Hoje estão gratuitos na internet, e sem gastar um mísero tostão você pode ter mais livros que o rei mais poderoso da antiguidade, e cultura não se compra, vive-se. E como isso é dolorido para os bilionários modernos, tem dinheiro, poder e no entanto nem todo o dinheiro do mundo será capaz de lhes dar cultura se pegar um texto um pouquinho mais longo e desistir, não tem como comprar imediatamente cultura como se compra um carro de luxo, é preciso ler, e sem isso, não importa a montanha de dinheiro que possua, será inferior a um pobre coitado que apenas lê. Não adianta ler apenas um livro, nem dez, talvez mil, dois mil, três, se souber pensar, mas vai ter que ler… pode comprar e a mesma pessoa que pegou os livros de graça na internet mas os leu será superior, que inveja! Ter todo dinheiro e ser inferiorizado por um pobretão, que ódio! E tudo isso porque a cultura ficou barata, acessível, mas nunca popular, ainda é um item de status que não se pode comprar com dinheiro, um item de distinção humana.

O livro afronta o capitalismo, a doutrina do imediatismo e o ganho pragmático, ninguém ganha nada lendo, mas vive-se, e isso não é precificável, comprável ou vendível. Aliás o que se ganha com a vida? Dinheiro? Talvez, mas antes de tudo vive-se e isso é uma afronta a todo valor mercantil, a vida individual não tem valor mercantil, mas como o rico inveja quem da vida absorveu cultura, pois de todo seu dinheiro, pode comprar hotéis, aviões, carros, lanchas, jóias, menos vida e cultura, e aí os que deveriam ser invejados na cultura capitalista passam a ser os invejosos.

A internet não é nada, em seu sentido mais estrito nem material é, é possibilitada pela tecnologia, mas não é a tecnologia, assim como o livro é a tecnologia que carrega idéias no formato de textos escritos. Internet é a possibilidade de conexão, de livros, pessoas, dados. Há livros na internet, ela carreia livros, ela carreia textos que em sua acepção mais básica também são livros, e é preciso ver cada um destes livros com seu devido formato, um twitter é um livro onde a mediocridade e leviandade são forçados pela limitação de caracteres, a imposição de tamanho é uma garantia de leviandade, um mata burro, é falácia dizer que tudo pode ser sintetizado, assuntos complexos precisam de espaço e assim ficamos nos textos mais que rasos deste livrinho chinfrim. Há quem diga que a internet só comporta textos curtos, e aí estão delimitando a internet como o espaço dos levianos, está certo que ler em computador ou tablet é cansativo por conta da luz lançada diretamente em seus olhos, mas o e-reader veio trazer um novo conforto, o mesmo do papel que permite ler milhares de páginas com concentração e ambientação sem igual. Livros constituídos só de palavras ainda são imprescindíveis, os babacas que dizem que hoje livros terão que ter áudios, fotos e vídeos são uns idiotas, é a mesma restrição mental dos poucos caracteres do twitter, ao mesmo tento não advogo que livros não devam ter imagens áudios ou vídeos, tudo depende das possibilidades e do que se quer fazer, assim ainda justiça-se livros só de palavras, como livros com todo o resto, mas o fato relevante é que livros só com palavras ou com muitas palavras são únicos e não podem ser substituídos, e mais do que isso, carreiam toda a nossa existência como espécie humana.

E agora temos que falar sobre os formatos do livro eletrônico, o código que carrega o código da escrita, é imprescindível que seja o mais aberto possível para que livros sejam copiados indefinidamente, que é o que ocorreu com os livros de Platão que não se perderam nos fogos da biblioteca de Alexandria, toda esta estória de restringir o ebook fede, é contra o livro e o que é o livro. Atualmente temos o epub que é um formato relativamente livre, um texto que reflui conforme o tamanho da página, mais ou menos como o html, é limitado mas capaz de comportar toda a literatura já produzida, e mais que isso, alinha-se com a capacidade das telas e-ink. Sua versão 3 o Epub3 traz capacidade de áudio e vídeo, e até programas que podem funcionar como vírus, um grande problema, e não compatível com as telas e-ink, pois se gastam pouca energia é pelas características de imagens estáticas da leitura, se fossem mostrar vídeo não suportariam cinco minutos. Pode parecer pouco para os ignorantes que não lêem, mas a combinação e-ink e epub tem uma capacidade monstruosa de portar a literatura, mais que desenvolver o epub3 é necessário padronizar as características de apresentação do epub que varia de aparelho para aparelho. É bom lembrar que o PDF só progrediu por ser um padrão aberto, mas era para emular o papel, para portar literatura eletrônica o epub é muito melhor. Padrões proprietários como os da Amazon ou os DRMs são uma excrecência, denigrem a própria literatura, e os serviços de aluguel online de livros são ainda piores, frutos deste mercado que gosta de produtos mas odeia livros.

Em teoria o livro precisa apenas do autor, e veja quão difícil é encontrar um bom livro, imagina um livro que envolve texto, imagens, áudio e vídeo, muitíssimo mais difícil, assim é mais fácil encontrar um grande livro do que um grande filme, que exige toda uma equipe; imagina os tais “enhanced books”, ia ser um festival de horror, escrever é mais que juntar palavras de qualquer jeito, e se só com texto é difícil ter grandes obras, imagina com o todo o resto e o nível de excelência necessário a um grande trabalho.

Espero que este texto esteja ajudando a evidenciar o festival de sandices que se fala hoje do futuro do livro, pois o livro do futuro também é o livro do passado. Lembram que falei que nossas habilidades dependem do aprendizado? Grande parte deste aprendizado precisa do livro e sua forma, como disse antes nossos genes nos dão a capacidade, mas não a habilidade do raciocínio abstrato, para isso é preciso desenvolvimento, treino, e para isso o livro escrito é fundamental, é nele que podemos brincar com idéias complexas, nenhuma outra mídia permite este nível de abstração e concentração, dominar livros é ganhar a capacidade de raciocínio superior.

Existem os livros que lemos, existem os que não lemos, impossível ler todos, mas é possível justificar a existência dos que não lemos, eles contribuem para a diversidade, e assim cada um lê os livros que quer, da interação humana vem a diversidade, e dela seleciona-se as melhores idéias, como já viu Darwin é preciso diversidade para ter seleção. É incrível como capitalistas e socialistas odeiam livros, os capitalistas querem que existam apenas os que vendam muito e dêem lucro, os socialistas querem te dizer o que ler para não haver diversidade e assim acabar com a contestação de idéias. Assim a diversidade, característica inerente do livro é execrada por ambos, pois o livro é coisa de humano e ambas as ideologias são inumanas.

E assim encero minha defesa do livro com muitas palavras, que precisa de tempo, concentração e raciocínio para revelar seus segredos ou simplesmente para nos transportar para as mais incríveis realidades fantásticas.

Alex

Dica de Escrita #6: Clichê Literário

Com a frase: “A marquesa saiu às cinco horas” Cortázar inicia seu livro “Os Prêmios”, a passagem ficou cunhada na história da literatura por um comentário de Valéry, que disse ser incapaz de escrever uma frase tão comum como esta. Dos começos vulgares de romance, o cunhado por Valéry virou paradigma, é o mais vulgar, mais estigmatizado e mal interpretado. Alguns acharam que o ineditismo é o valor máximo da criação literária, outros viram o absurdo da afirmação, se a marquesa sai às cinco horas, ela saiu às cinco horas, se José sai às sete horas para trabalhar, ele irá sair às sete horas toda semana de segunda a sábado, é a sua rotina, é parte da vida.

Esta obsessão com o novo foi marca dos críticos do romance, e de certa maneira acéfala passou incólume até a literatura pós-moderna; um preconceito, um chavão que é engolido e repetido sem pensamento, sem elaboração por parte do escritor. Os modernistas jogaram as últimas pás de terra no enterro da retórica, que hoje virou sinônimo de afetação vazia, uma vez que definia regras para afirmar o que era ou não um bom texto, as mesmas regras dos “manuais de redação e estilo”. Qualquer manual que defina um estilo, assim como qualquer escritor que copie o estilo de outro, é por definição falta de estilo. Muitas destas regras são seguidas, sem que o escritor entenda ou elabore o motivo de sua existência, desta maneira muitos autores não entendem o efeito da repetição de uma mesma palavra, pois a regra diz para evitar tais repetições; uma palavra dobrada, independente do contexto, enfatiza tal palavra, criando uma significação mais forte, mais enfática, quando acidental, acentua pontos indesejáveis como a repetição acima; mas ao outro lado a repetição é inestimável quando o autor quer enfatizar a palavra ou faze-la ecoar no texto incorporando os significados ou predicados a ela atribuídos. O uso da regra sem conhecer seus fundamentos deixa o escritor manco, privado de um recurso extremamente poderoso. Existem mais destas regras, que se não pensadas e entendidas, apenas seguidas, privam o escritor da elaboração intelectual necessária à formação de um estilo.

Em suas micro teses sobre o conto Piglia toma como base uma frase escrita por Chekov em um livro de apontamentos: “Um homem, em Montecarlo, vai ao Cassino, ganha um milhão, volta para casa e se suicida”, postula que a forma clássica do conto encontra-se nesta chamada, pois encerra duas estórias: ir ao cassino e ganhar (a estória evidente) e o suicídio (a estória secreta). Se Chekov tivesse escrito: “Uma homem, em Montecarlo, vai ao cassino, ganha um milhão, volta para casa e comemora”, aqui não teríamos matéria de conto, pois o corte, a tensão inesperada do final não existiria. Pode até ser interessante, mas esta necessidade do tal corte, acaba sendo um clichê literário: para ser considerado literário um texto deve ter estas incongruências, a ponto desta incoerência tornar-se central no texto, deixando de lado toda outra elaboração intelectual por parte do autor.

A incoerência é um recurso simples para um autor passar-se por literato, o chavão é execrado em toda literatura pelos eruditos, falham em perceber que a aberração dos textos é chavão mais comum do que a escrita estereotipada dos escritos paternalistas de auto-ajuda; inferior até à literatura de puro entretenimento, que teve o trabalho de elaborar uma coerência narrativa, por mais pobre que seja o linguajar do escritor.

Há uma confusão entre arte e literatura, impingindo à segunda estereótipos da primeira. Arte é uma palavrinha difícil, cheia de misticismos inúteis, e este pensamento supersticioso acaba impregnando a literatura. Até hoje a melhor definição que encontrei para arte é: significar alta habilidade artesã, ou um ideal estético elevado, também alcançado na artesania, e esta é a palavra que melhor define a escrita, manufaturada, mas nem tudo que é artesanal é bem feito, é preciso habilidade; e mais do que isto, é necessário pensar o uso das ferramentas para montar a sua própria “máquina narrativa”, será a invenção do autor, vai representar seu ego, não voltado a si, mas à sua devoção pelo trabalho.

Arte como artesanato na busca de um ideal estético elevado, pode ser entendida na habilidade do autor de pensar seu ofício, juntar palavras de forma consciente. Dentro de sua máquina narrativa existem diversas peças, se algumas funcionam bem para o efeito final, não é necessário trocar, assim, há algo de ordinário, mas pensado. O texto incoerente como “mais artístico” é apenas um clichê menos artístico, uma opção não pensada para aparentar arte, sem a complicada elaboração necessária ao pensamento profundo, ou a busca estética elevada.

Cada época tem uma moda, a escrita banal condenada por Valéry nas novelas, é hoje a narrativa incoerente, aberta, sem sentido ou aleatória, a marquesa agora sai e suicida-se.

O autor assim como artista é caprichoso, usa a linguagem de forma única e particular e para isto deve provar o trabalho dos vários escritores. Só se aprende literatura lendo, apreciando os diversos recursos criados pelos múltiplos autores, a sua escrita é a elaboração particular de tudo que leu, seja a imitar ou contestar, mas conhecer os predecessores é fundamental, experimentar a escrita como se experimenta uma iguaria culinária, é um contato pessoal que não pode ser substituído, só lendo as obras é que se tem este contato. Não adianta ouvir falar de um livro ou um autor, deve-se experimentar com os próprios sentidos, e avaliar com a própria consciência, é este contato íntimo que expande a cultura literária, necessária ao autor na hora de colocar “mãos à obra” e artesanalmente elaborar os próprios textos.

O clichê vem de uma cópia sem elaboração de qualquer elemento textual, tenta parecer o que não foi incubado na escrita. Um bom jeito de evitar clichês é aprender a identificá-los nos livros que lê. Escrever é unir forma e função, os mestres conseguiram reunir estes elementos para formar um todo coeso, sempre que ver um elemento que não se encaixa, aparece forçado no meio de um texto, e principalmente: está na moda, soe o alarme, estará diante de um clichê.

Alex

Ficção, Idéia e Enredo

Ficção, estórias, realidade e fantasia são matérias primas básicas do escritor, mas o resultado final materializa-se no papel na forma de palavras organizadas, como o escultor que cinzela sua visão na rocha ou o pintor que deposita tintas na tela. Imaginação pura não é suficiente, é preciso afiar as ferramentas e ter controle do resultado, isto significa dominar a linguagem.

A palavra escrita é uma brincadeira de códigos, existem muitos diferentes espalhados pelo mundo com suas particularidades, diferentes ferramentas que vão influenciar no resultado final do autor. Sem querer entrar em complicações semiológicas, é preciso perceber que há a idéia, sua materialização escrita (ou intermediário), e o receptor, que é o leitor, quem recebe a mensagem. Para escrever é preciso conhecer o código, ler significa decodificar a mensagem, em algum nível a apropriação da linguagem é particular de cada pessoa, mas como há comunicação, existe algo necessariamente em comum entre emissor e receptor, e este algo em comum é a associação do código, a linguagem, com o mundo real, é esta associação que permite a decodificação universal da linguagem. A lógica do mundo real é que sustenta a semântica do código, sem esta associação não há possibilidade de compreensão comum de qualquer código.

Visto que o escritor não pode ter controle sobre a apropriação particular de cada um sobre a linguagem, ele só pode dispor de sua relação com o mundo real, e em sua afinidade particular com o código, aproxima-lo com a realidade para que se assemelhe a uma compreensão universal. Um bom escritor irá tentar através da escrita materializar sua ficção em uma realidade grafada, mas aí há um problema, ele estará limitado ao universo em que vive o leitor. A grosso modo, não posso comunicar-me em português com quem só domina o chinês, e em casos mais simples, não posso entrar no universo da física quântica com quem não domina o assunto ou sua “realidade” básica. Tome como exemplo este texto, ele não é simples, e a maioria das pessoas não vai entender, pois não é de um universo comum, apenas do universo de quem preocupa-se com escrita e linguagem.

Aqui entramos em um dilema comum a quem começa a apropriar-se da linguagem, se o escritor limitar-se à apropriação mediana da linguagem na população, seu repertório estará limitado a um coletivo comum e mediocrizante. Ao explorar a linguagem o autor caminha por terrenos onde a média não freqüenta, distanciando-o do grande público. Quando lemos um autor de ponta, somos obrigados a nos educar na sua maneira de escrever, seja Dickens, Poe, Fitzgerald, Sterne ou Machado, cada um obriga o leitor a ampliar seu universo lingüístico.

Se o bom escritor quiser fugir da média não escapa da sina de educar o leitor, há leitores abertos a tal jogo e outros não. Nos livros de auto-ajuda a linguagem é sempre paternalista, nunca há desafio, e se o autor usar de frases feitas, melhor, pois o leitor nem tem o trabalho de ler, pois já viu a frase milhares de vezes, é uma literatura de carícia ao ego, não pode desafiar o leitor, colocar obstáculos a serem vencidos para que cresça, assim, com esta bajulação cifras apreciáveis de venda são conseguidas. Há um tipo de leitor mais raro que deseja ser desafiado e crescer, mas mesmo este não está livre das armadilhas, ao desafiar um bom livro, há sempre o risco de ganhar ou perder, compreender ou não entender, ou ainda ter uma compreensão errada disfarçada de entendimento. Vou explicar: assim como o domínio completo da língua por parte do autor é impossível, pois significaria a compreensão completa do leitor, o mesmo é válido ao leitor, há sempre um nível de incompreensão que o leitor pode preencher com sua imaginação, esta imprecisão esta limitada pela habilidade do autor de materializar no texto sua intenção mesmo que de forma velada. No que o texto falha a imaginação do leitor impera e em seu extremo poderíamos ler páginas em branco, atividade do escritor. Um leitor muito crédulo encontrará significados onde não há, e um autor vigarista pode usar desta particularidade, escrevendo coisas sem sentido e deixando a interpretação por conta do leitor, uma espécie de teste de Rorschach onde o subconsciente projeta suas imagens. Tal armadilha é tentadora, pois materializa projeções do próprio leitor, inexistentes na intenção do autor, um tipo de texto que ajusta-se ao que o leitor quiser, abdicando da necessidade de compreensão textual e da relação autor leitor.

Se o autor escreve “carro” o leitor pode imaginar qualquer tipo de carro, mas se o autor diz: “um fusca verde, com a porta amassada, sem farol, com pneus carecas e vidro escurecido”, temos uma imagem muito mais precisa do tal carro. A cena na mente do autor é sempre mais detalhada do que é condensado no papel, cabe ao escritor escolher os elementos corretos para descrever e montar uma estória, cada palavra vai trazer uma imagem que será somada ao todo e funcionará em conjunto com todo texto. Muito particular de cada língua é o som de uma frase, o ritmo de um parágrafo, os sons também imprimem um efeito, na poesia é guia, na prosa escravo da compreensão do texto.

Há gente que advoga que há na escrita duas partes distintas, uma evidente e outra “secreta”, a “profundidade” do texto viria desta parte cifrada e isto seria obra dos bons autores, mas vamos pensar no contrário, seria fácil fazer um texto com um único e preciso significado? Certamente não, uma vez que o domínio absoluto da linguagem é impossível, pois significaria dominar a compreensão da linguagem do leitor.  Uma vez que o texto é apenas uma representação gráfica, é óbvio que seu significado só tem dimensão na mente de quem lê, assim o autor vai imprimindo no leitor com o uso das palavras idéias, de maneira mais ou menos precisa, mas nunca absoluta. Da matéria prima que existe na cabeça do escritor, a parte escrita é apenas uma pequena parte, mas a única visível pelo leitor, assim há uma grande parte da imaginação que não vai para a página, mas forma um todo do qual foi retirado partes.

Uma vez que não existe controle absoluto da linguagem, e a parte escrita é apenas pedaço de um universo imaginativo, sempre haverá uma segunda dimensão em um texto escrito. Aqui entramos em uma outra consideração, o enredo, que é a parte que liga a parte visível e subliminar do texto para coagular uma estória. Podemos ver como Chekhov é o mestre no seu enredo, interligando todas as partes de suas estórias em um todo.

Enredo não é a estória linear, é um todo que permeia a obra e só pode ser visto ao atingir o ponto final, pois ele compreende a integridade do texto. É engraçado como o enredo é a parte mais difícil para escritores e leitores, trabalhar o enredo por parte do autor e compreende-lo da parte do leitor. É um todo composto de todas as palavras, frases e parágrafos da obra, é a cola que junta tudo.

É engraçado como a falta de um enredo estraga completamente o que poderia ser uma boa estória, pois evidencia a falta de intenção ou planejamento do escritor. Com exemplos televisivos podemos mostrar isto bem, X Files e Lost, ambas séries com final estúpido que estraga todos os episódios anteriores, um blefe. Como já disse antes, é fácil capturar o leitor com o mistério, jogando elementos aleatórios e deixando que o leitor faça suas conexões, mas no momento das peças juntarem, não encaixam, aí fica evidente que não houve enredo, a farsa é desmascarada. Uma forma de não ser desmascarado é deixar o enredo em aberto, muito comum em escritores pós-modernos. É preciso cuidado para que um enredo aberto não seja apenas uma falta de enredo e nisto podemos voltar a nos referirmos a Checkov, mestre do enredo.

Uma bom enredo é um aspecto esquecido e desprezado nas estórias modernas, ao meu ver, fundamental para uma boa estória, é o ingrediente mais raro a encontrar de boa qualidade, mesmo em produções milionárias, a maioria dos enredos é paupérrima. O que o faz tão difícil e desafiador?

Alex

Literatura em Teoria e Prática

Li, sempre li, e nunca me preocupei com o que lia, seu pedigree ou sua importância no panorama literário, nem ao menos importava-me com quem veio antes ou depois, eram apenas livros, bons ou ruins, bem escritos ou mal escritos, foram compostos para serem lidos, puro desfrute, sem nenhuma outra intenção. Tirando algumas desventuras em créditos eletivos, nunca adentrei o mundo das teorias literárias, eis que depois de um tempo dei-me conta que havia um buraco na minha literatura, lia coisas velhas e muito velhas e dos poucos mais novos, nenhum brasileiro. Tal percepção aguçou-me a curiosidade e fui procurar na crítica de jornal o que seria digno do investimento, meia dúzia de livros depois senti-me enganado, ludibriado, não consegui gostar de nada além de achar a maioria dos livros muito mal escritos, comecei a questionar a validade da crítica que incensava tais obras e uma nova pergunta surgiu-me: o que é escrever bem contemporâneo? Parecia uma pergunta fácil, fui tirar a dúvida com alguns acadêmicos e não obtive uma resposta direta, muito menos a crítica podia ajudar-me.

Resolvi colocar mãos à obra e ver na prática o que os professores de escrita dizem: mais confusão, será que não consigo uma simples resposta para minha pergunta? Machado de Assis escreve bem, o mesmo posso dizer de Lima Barreto, mas o seu jeito ficou atrás no tempo e alguém que hoje os imitasse não seria considerado um bom escritor e ainda correria o sério risco de um pastiche caricato.

Apesar de parecer que toda a teoria literária vem de épocas imemoriais, ela é relativamente recente e em sua maioria segue linha historiográfica, agrupando autores segundo suas épocas e modismos. Ainda mais recente é a semiologia, mas acaba sendo auto-referente, preocupando-se em classificar um livro dentro dos próprios padrões artificiais que criaram, sem responder nenhuma questão fora de seu universo.

A linha historiográfica é simples e lógica, cria uma seqüência bastante inteligível do que seria a história da literatura e tenta por este prisma qualificar e classificar as obras, inserindo-as em sua linha temporal. Vista de longe é perfeita, explica tudo, mas quando você lê toma contato íntimo com as obras e passa enxergar o que os especialistas chamam “fraturas”, aquele todo coeso da teoria começa a rachar, evidenciando nas obras diferenças irreconciliáveis que as impede de serem agrupadas da maneira historicista sem que a classificação pareça forçada e sem sentido.

É óbvio que as pessoas de um mesmo tempo tem traços em comum, posso afirmar com toda certeza que Dickens nem nenhum de seus contemporâneos viajou em um avião a jato, não esquentaram comida no micro-ondas, nem navegaram na internet; são pontos em comum, mas nada explicam a obra do autor, absolutamente única. Dickens é fruto de seu tempo assim como todos os outros nascidos em datas semelhantes, e portanto carregam afinidades que vão aparecer em suas obras, mas se algo faz de “ A Tale of Two Cities” uma obra especial, não é o que tem de comum com o seu tempo, mas o que tem de diferente, de mágico, de sublime na habilidade e imaginação do escritor.

Talvez a historiografia explique todos os autores medíocres, pois seu método medianiza os escritores, mas perde o essencial ao tentar classificar os notáveis. Ao ler uma obra percebemos tudo que a classificação historiográfica deixou de entender, podemos mergulhar nas minúcias detalhadas e únicas criadas pelos grandes escritores.

Desta maneira, não importa o quão versado você seja em teoria literária, literatura em seu cerne é coisa prática e só podemos entender tomando contato direto com a obra de um autor. Acontece que como tudo na vida, de todos os livros que lemos, esquecemos muitos, assim como esquecemos passagens de nosso cotidiano, mas de alguma maneira uma experiência mais profunda fica da vivência de uma obra. Ao ler o livro o autor cria em ti uma impressão e esta é indelével, lembro que quando assisti ao filme do “Senhor dos Anéis”, mais de uma dezena de anos após ler a obra, à parte o que foi mudado, muitas cenas nem lembrava, e foi um dos livros que mais gostei de ler. Raramente releio um livro, prefiro novas aventuras aos trilhos já caminhados, atualmente com a facilidade do e-reader reli algumas obras no original; não passaria na minha cabeça ter duas versões do mesmo livro que já li em português, mas o e-reader tornou o processo sem custo nas obras de domínio público, e mais barata em alguns não tão velhos. Dickens é um que no original é muitíssimo melhor que a tradução, até parece outro livro, é outro contato com a obra, sem intermediários, mais puro e exponencialmente mais intenso; em inglês é um grande escritor a olhos vistos, traduzido é muito menor.

Nestas andanças minha visão começou a clarear e obtive respostas às minhas perguntas, respostas que a mim parecem práticas. Por que não leio antigos e contemporâneos na mesma proporção? Aqui a resposta é muito simples, o que existe na literatura em quinhentos anos é muito mais do que esta janela de cinqüenta anos, e muito mais se compararmos o mundo com o que é produzido apenas no Brasil, assim, ler escritores brasileiros em demasia seria de uma miopia policarpista extrema. Não há de se ter preconceitos em literatura, além disto, pensem em uma data, quantos livros memoráveis associados a ela? Não muitos? Ou nenhum? Desta maneira, mesmo livros laureados com prêmios anuais, são mera titica, perto do conjunto da literatura mundial em todos os tempos. Por que devo dar-me ao trabalho de ler porcaria quando tenho uma grande quantidade de tesouros ainda a ler?

A segunda pergunta do que é escrever bem contemporâneo, é um pouco mais complicada, pois não existe um escrever contemporâneo; escrever bem é escrever bem em qualquer época, tem a ver com a habilidade do autor de usar a linguagem para causar um efeito no leitor, cada grande autor usou sua língua de maneira diferente, assim escrever bem é ser efetivo com a linguagem no que se pretende dizer. Copiar grandes escritores não é escrever bem, deve-se criar seu jeito, um que expresse da melhor maneira o que pretende dizer.

Não importa quão bem escrito seja um livro, se ele não tratar de assuntos de seu interesse, não irá gostar, só os interessados em literatura pura gostam de bons autores que nada tem a dizer. Literatura, na simplicidade da relação autor e leitor é apenas desfrute, e precisa ser experimentada “in natura”, não há teoria que substitua a prática; às vezes a teoria pode suscitar discussões interessantes, mas sem o contato direto e íntimo com as obras, é material inútil. O fundamental a saber de literatura é: Leia! Apenas leia, não se deixe intimidar por textos difíceis, enfrente-os, e não se deixe cair nas armadilhas dos vigaristas, tenha um contado direto com o livro, não se deixe enganar, é a sua experiência que conta.

Alex

Palavras: O Quanto Baste

Conto, novela e romance são considerados artigos distintos, mas a única e verdadeira diferença está na extensão do texto, difícil passar por qualquer classificação que não cruze com esta verdade óbvia, e ainda assim, a fronteira entre os universos não é uma linha bem definida. Qual o limite de tamanho de um conto para chamar-se romance? Impossível dizer.

Muito da existência do conto deve-se ao espaço a ele destinado nos periódicos, que não se prestavam à publicação de livros de grandes dimensões, mas podem, sem problema, apresentar grandes romances ao público de forma serializada, o que não é o caso do conto, onde início e fim da estória estão encerrados nos restritos limites a ele permitidos.

Pela disponibilidade do espaço, os escritores começaram a experimentar a forma, dentre os grandes contistas modernos estão Dickens e Poe, o primeiro abusou também da forma serial, instrumentalizando os textos para deixar no leitor a ânsia para ler o próximo, este “gancho” foi uma de suas grandes obras. Poe já foi mais prolixo na forma curta e única, escreveu até um pequenino ensaio onde descreve a mecânica da composição de seu poema “The Raven”, mestral. Apesar do “The Philosophy of Composition” falar de um poema, é fácil ver o raciocínio de Poe na elaboração de seus contos, ele procura um efeito, e este irá culminar no desfecho da estória. Como este ensaio é um dos poucos a tratar do assunto, marcou o estudo da forma e de certa maneira definiu para os estudiosos o que seria o conto “clássico”. Para Poe o formato curto é bom, pois é impossível manter o leitor em estado excitado por mais de duas horas, assim o texto deve neste espaço criar o maior efeito possível, ele advoga um tipo de conto “One Shot”, onde todos os elementos da estória contribuem para o desfecho final.

Poe é considerado principalmente em sua terra natal como um dos melhores maus escritores, o que não posso corroborar, pois se analisada sua habilidade com a escrita, não é obra de escritor menor, pode haver uma irregularidade na qualidade de seus textos, mas qual grande autor não tem altos e baixos? Parece que o grande problema é ter-se dedicado a um tema menos “literário” que seria o horror, o mistério, considerados gêneros menores, puro preconceito estúpido. Não é preciso lembrar que “The Murders in The Rue Morgue” iniciou todo o gênero policial investigativo. Além de seus contos de terror, que como prega em seu ensaio, criam um efeito forte. Não se deixe enganar, Poe foi grande.

Logo a seguir da morte de Poe, nasce a criança que será o maior contista de todos os tempos: estou falando de Anton Checkov. Se o conto de Poe era “One Shot”, as estórias de Checkov mostram uma sofisticação de personagens e uma trama de enredo que é tudo, menos linear, pelo menos à primeira vista. Enquanto Poe procura um efeito forte e evidente, com todos elementos contribuindo para o desfecho, o “efeito” nos contos de Checkov não é menor, mas vem de um caminho labiríntico enredado na estória. Advindo de uma tradição de escrita iniciada com Pushkin e Gogol, seus temas são menos fantásticos, refletindo a vida de pessoas normais, assim como Dickens que retratava os pobres em sua obra, antes personagens ignorados, Checkov mostra pobreza não como chaga, mas apenas como uma face “normal” da vida da pessoa comum.

Ricardo Piglia, um estudioso argentino tem uma teoria pelo qual nos contos existem duas estórias, uma evidente e outra escondida, a primeira está ali literal no texto do autor, a segunda é fragmentária e, nos contos clássicos, vai encontrar a parte literal no final para culminar no tal efeito dito por Poe. Já em Checkov, considerado um contista “moderno”, as duas estórias tem andamento independente e não necessariamente encontram-se no final, ambas estórias são contadas ao mesmo tempo. Hemingway compara uma estória com um iceberg, onde a parte que se vê é menor que a submersa. Em certa parte a definição do Forster de personagem arredondado e plano, traz a mesma consideração, pois o personagem arredondado é um conjunto complexo e turbulento onde não é possível prever com precisão as ações, assim surpreende o leitor de uma forma convincente; tem um lado não visível (secreto), que floresce em uma surpresa para o leitor.

Tendo a considerar a classificação “taxonômica” de Piglia como uma artificialidade acadêmica, mera classificação intelectual inútil ao escritor, e ainda tenho dificuldades em imaginar qualquer escritor fazendo crochê com duas estórias. Um texto é um elemento figurativo, e em sua essência nada representa que não sejam borrões de tinta em papel, é óbvio que há uma tentativa linear de contar uma estória, mas mesmo no contexto literal, o texto apresenta uma bidimensionalidade que não pode ser representante da vida real, tridimensional. Assim, como bem explica Hemingway, a parte visível da estória: o texto, é ínfimo perto do universo imaginativo que condensou tais palavras no papel. Desta maneira, não existem duas estórias, mas apenas uma, com sua parte literal e subliminar imbricadas, representando o mesmo universo, a imaginação do autor.

Em outras alusões feitas não por estudiosos mas por autores, o conto é considerado uma forma difícil por seu tamanho limitado, esta é uma consideração prática muito interessante, que foi expressa por Faulkner, Capote, Updike e Steinbeck dos que me lembro. Um conto tem menos palavras, consequentemente menos frases, desta maneira uma frase ruim sobressai; em textos mais longos a frase ruim pode ficar escondida, é uma fração menor do todo. Assim, quanto mais curto o texto, maior é a exigência com a linguagem. Cada frase em um texto de meia página é muito mais valiosa que no meio de cinqüenta páginas, onde uma escolha ruim passa despercebida.

Mas aí vem a questão que importa ao escritor: qual o tamanho do texto? Acredito que um texto deva ter as palavras que bastem para seu efeito, seja em quinhentas páginas ou meia, faz parte da arte do autor escolher as palavras, organiza-las em frases para contar uma estória, e não nos cabe aqui colocar qualquer tipo de cabresto, mas notar que as escolhas devem ser mais cuidadosas na medida que o texto é menor, mas ao mesmo tempo um texto longo, escrito com a mesma intensidade de um Checkov ou uma Alice Munro, pode tornar-se demasiado intenso, perdendo sua efetividade. Muitas vezes penso no texto como uma linha de jazz, onde momentos de tensão e relaxamento devem ser intercalados para conseguir um resultado final, que necessariamente não está no final do texto, pois às vezes uma parte mais fraca depois da forte pode tornar a música mais efetiva, em vez de deixar o forte cair no vazio do silêncio.

Alex