Argumentação e lógica

Do passado de nossa civilização herdamos uma linha histórica, um discurso e uma lógica, é a argumentação que tem evoluído a humanidade, guiada pela lógica, manifestação da causalidade. Nos antigos escritos gregos já se encontrava a semente: filosofia, fruto da argumentação e lógica em busca da verdade. Verdade mutante, paradigmática se usarmos um conceito moderno, difícil em sua acepção, concepção e aceitação.

A lógica causal entra em choque com todo sistema místico, e mesmo hoje, era da ciência, muitos lutam contra a lógica, sem bons argumentos, os mesmos dos sofistas de milhares de anos, uns de má intenção, outros apenas a justificar as crenças místicas irracionais. Mas a verdade é que a lógica é poderosa, e assim tem sido sua filha a ciência; fruto da argumentação constante e da adoção do melhor paradigma, o mais lógico.

A ferramenta da lógica é o debate, a argumentação, sem eles não há desafio, a hipótese deve ser colocada à prova, sem isto não prospera e não avança, mesmo que morra para dar lugar a idéias melhores, mais fortes, que tem mais lógica. E assim se avança o paradigma, nossa verdade temporária, “vero” enquanto viva e aceitando desafios.

Foi nas antigas BBSs que vislumbrei uma ferramenta poderosíssima de argumentação e lógica, fazendo com que os debates possam ser democratizados e acessíveis a todos. A ciência nada mais é que um longo debate, participar, mesmo que apenas como observador, é um processo de aprendizado, o mais valioso, e se achar que tem argumentos bons para compartilhar da discussão, é só apresenta-los, deixar a passividade e passar a ser um colaborador ativo no processo de caminhar em direção à verdade.

A palavra verdade tem sido prostituída e soa melhor na boca dos fanáticos religiosos do que do argumentador lógico, pois não há uma verdade única, apenas uma paradigmática, e devem ser confrontadas com a lógica para que fique apenas uma, o paradigma corrente, a verdade corrente, transitória, mas necessária para o avanço do pensamento. Desde os tempos antigos o relativismo se interpõe contra a verdade, e no momento que ele sucede em evitar o conflito, sem argumentação, é quando a busca para. Se a busca tem um fim, não sabemos, mas o caminho tem se provado frutífero, e se o relativismo traz a dúvida do fim, podemos nos apoiar nas glórias do caminho, estas insofismáveis.

As listas de discussão das antigas BBSs eram poderosas, se usadas pelas pessoas certas, da maneira correta; como toda ferramenta, pode ser bem ou má utilizada, mas nas regras antigas por conta da falta de espaço em servidores, divisou-se normas de debate para evitar a inutilidade e a impertinência, que podem acabar com a contenda. Só deveria postar quem tivesse bom argumento para contribuir com o tópico, todo o resto era considerado inutilidade que iria pesar no servidor de forma inútil, desta maneira, os debates podiam ficar limpos das impertinências improdutivas, aos moderadores era dado o poder de fazer cumprir as regras, deletando e advertindo os usuários que não se comportassem dentro do acordo.

Das BBSs surgiu a internet, mais abrangente, com mais pessoas que poderiam interagir, o espaço antes limitante tornou-se abundante, e as inutilidades tomaram conta, com gente gastando “posts” com comentários inócuos ou inúteis que atrapalham o bom andamento de uma discussão, coisas do tipo “valeu!” “Gostei” ou “concordo contigo”, que nada contribuem em proposições no debate, começaram a abundar, a tal ponto de solaparem o próprio debate.

Existe uma particularidade no debate escrito que nos antigos orais não existia, a possibilidade de ler e reler os argumentos anteriores e os submeter ao mais rígido escrutínio, assim, muitas das técnicas dialéticas desenvolvidas para ganhar um debate sem lógica, usando de truques, perdem validade no meio escrito. Isso só vem a bem.

Da antiguidade a argumentação vem como modalidade literária na forma da filosofia, mas quando a ciência tomou para si o uso metódico da lógica através do método científico, como forma de dirimir as dúvidas, sobrou à filosofia apenas o campo infrutífero da metafísica das idéias, que não podem ser provadas ou desaprovadas, um exercício mental de conceitos órfãos, e sem lógica; perdeu todo seu poder e pode ser confundida com todo discurso banal e inútil.

Não que a ciência tenha saído incólume de sua separação com a filosofia, tornou-se cada vez mais técnica, míope, olhando apenas para o pouco que a visão fraca alcança, seccionando áreas do conhecimento em pedaços inúteis e estéreis sem o entendimento do todo. Ganhou uma técnica poderosa, mas por tornar-se exclusivamente técnica, perdeu a inspiração, a visão maior, sem o qual partes sem o todo perdem sentido. Há de se especificar que técnica não é ciência nem lógica, apenas hábito, procedimento repetitivo que não desafia os velhos dogmas ou nem preocupa-se em conhece-los. É preciso pensamento crítico, conhecimento e visão do todo para questionar, desafiar o conhecido e aventurar-se no desconhecido.

A internet e suas listas de discussões são ferramenta poderosa, hoje na forma dos fóruns, debates que estremecem a terra podem ocorrer, mas nada acontece. O que passa? Será que as pessoas querem tanto assim procurar a verdade? Para a maioria diria que não, contentam-se em forragear como todo animal irracional, mas e o cientista, o acadêmico, não deveriam estes, por força de seu ofício buscarem a verdade e o esclarecimento do povo, uma vez que a maioria das universidades é financiada por dinheiro público? Que desculpas dão para acovardarem-se perante o contraditório que fará prosperar a verdade que dizem procurar? Quer a realidade? A maioria dos ditos cientistas e acadêmicos é tão medíocre como a população em geral e os animais, preocupados apenas em forragear, defender seus feudos, manter o seu salário, comer e dormir até que a morte os colha. Existem os competitivos eméritos, mas a realidade é que buscam mais a ascensão social do que a verdade, e depois de comerem e dormirem sobre seus tronos de ego, podem descansar em suas lápides de mármore, colhidos pela mesma morte de animais e humanos, devorados pelos mesmos vermes, juntos no mesmo pó.

A cauda balança o cachorro ou o cachorro balança a cauda, é vivo o debate de quanto a internet tem mudado a sociedade, mas como no caso do cachorro, seria isto verdade? A internet é apenas uma ferramenta, pode mudar o mundo, mas não determina o uso que fazem dela e em realidade muito pouco tem mudado, o que aparece são comportamentos antes invisíveis que na internet ganham palco. Esta poderosa ferramenta depende do uso que fazem dela, o melhor ou o pior, o elevado ou baixo. E a falta de debate aberto é apenas uma destas patologias, que já existiam, mas não eram diagnosticadas.

Fez-se até uma “ciência” deste não debate, as chamadas ciências sociais, que de ciência não tem absolutamente nada, uma vez que suas hipóteses não podem ser provadas ou desaprovadas, é um campo inteiro de debate inútil, um engodo, cachorros perseguindo o próprio rabo. Como algo que intitula-se ciência pode fugir como capeta da missa ao se falar em lógica? Como ainda justificam o relativismo dos sofistas ou as boçalidades de Hegel? Só há uma explicação, verdade mística ou ideologia barata e acéfala, ambos tentativas de velar a realidade, nunca a buscar, e assim não crescer e viver girando no mesmo lugar, gravitando uma massa de mentira.

É incrível como hoje na era tecnológica da internet, a lógica parece tão intimidadora e os debates baseados nela escassos, a realidade é que a lógica e a ciência que é a busca por mais lógica sempre foram intimidadoras, uma vez que são argumentos poderosos, os mais poderosos, mas só podem servir-se deles os que questionam, desafiam, caso contrário um argumento que não pode ser desafiado torna-se dogma e perde toda a sua utilidade e função como pedra no caminho da verdade. Somente as mentes questionadoras apreciam a lógica e o melhor argumento, pois é ele que nos permite descansar de nossas dúvidas, e sabemos que se adotarmos um argumento sem mais o questionar, criamos um dogma, algo que não é capaz de silenciar as dúvidas, pois não pode ser questionado e colocado em confronto, a dúvida precisa de respostas para acalmar-se e as melhores respostas vem com a lógica, até acharmos uma melhor lógica o argumento fica como verdade calmante para que encontremos uma forma mais lógica de o desafiar.

É incrível como as pessoas gostam da subjetividade e fogem de qualquer objetividade que possa gerar conflitos verdadeiros e produtivos, basta ver como a estúpida pseudo-doutrina de Heráclito ou seus discípulos mantém-se ativa, ferrugem para engripar as engrenagens do cérebro. Vejam como o simples questionamento coloca abaixo o “tudo flui” no homem que atravessa o rio, diz Heráclito ou seus discípulos: “o mesmo homem não pode atravessar o mesmo rio, porque o homem de ontem não é o mesmo homem, nem o rio de ontem é o mesmo de hoje”. Que grande bobagem! Nega o princípio básico da lógica que é a causalidade, o homem de ontem, apensar de não ser o homem de hoje em todos os aspectos, tem relação causal com o anterior, é o mesmo homem na linha da causalidade, com o mesmo nome, com a mesma história acrescida de um dia; e o rio, apesar de não ter as mesmas águas que já escorreram, ainda corre no mesmo leito, é o mesmo rio por definição e relação causal, assim, o tudo flui desconsidera todas as relações causais que são a fonte da lógica, o verdadeiro fenômeno ao qual devemos nossa existência. É um axioma relativista, como a flecha de Zenão que não pretende solução, uma vez que como no exemplo anterior o enunciado desconsidera a natureza do fenômeno movimento.

Os boçais gostam de falar a todo momento de “estranhamento” e “desassossego”, como características fundamentais em uma obra, mas em realidade, encarar as coisas de forma objetiva, com questões reais e não subjetivas que inviabilizam confronto é o verdadeiro estranhamento, incômodo, pois é nesta subjetividade relativizante que dorme confortável o medíocre incompetente com medo do confronto de argumentos que o “desassossegue”. Pode-se correr o risco de perder o solo pantanoso onde pisa, sem nunca querer o “estranhamento” do solo firme que desminta suas crendices pueris.

Hoje a internet permite a argumentação com alcance global, mas veja o que temos, não é fruto da ferramenta, mas a evidencia do comportamento que já existia. Poucos prezam a argumentação lógica, mas não podem admitir, por isso preferem o conforto do relativismo mediocrizante e estático. Se a história nos mostra algo, é que a lógica prevalece, e lógica nada mais é do que o entendimento da causalidade em toda sua extensão. Se quer achar a verdade resista ao relativismo e à falácia, só assim encontrará a verdade em si mesmo.

Alex

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