A Fronteira entre Autor e Leitor

Nos melhores textos de ficção o autor nos envolve com tal maestria que a fronteira entre livro e leitor deixa de existir, e assim a leitura torna-se uma experiência muitíssimo mais intensa que qualquer filme, por isso, quem gosta de ler sempre prefere os livros.

Na leitura recreativa o desvanecimento da fronteira é bem vindo, mas ao efetuar uma leitura técnica é preciso estar consciente da linha divisória, pois pode-se incorrer em diversos erros, entender o que o escritor não quis dizer, projetar seus próprios pensamentos sobre o livro, ou deixar o autor entrar em sua cabeça sem que perceba. Ler um livro e ter idéias, ser inspirado, viajar, é muito bom, o livro permite esta interação, pois pode parar de ler e retomar em qualquer tempo e embarcar em divagações do pensamento, mas é preciso delimitar de quem é cada pensamento, para corretamente apropriar-se do que é sua idéia e o que é do autor.

O escritor colocou palavras no livro de forma definitiva, e é sobre estas palavras que devemos entender o texto, já vi muita gente dita “literata” não apoiar-se nas palavras do texto ao fazer uma interpretação, desconsiderando e nem lendo o sentido literal, de modo que a interpretação errônea com uma única escolha do autor presente no texto desvanece, mas a quem interpreta errado, parece cego, pois não viu o óbvio escrito no texto. O texto tem importância, e se assim não fosse, sentaríamos com uma página em branco e a estória descortinar-se-ia à nossa frente. A diferença entre escrever e ler, é que ao ler deixo que outra cabeça me maravilhe; ao escrever, o trabalho é só meu.

Qual o maior perigo ao se borrar a fronteira em uma leitura técnica? É projetar o que o texto não é, sem isenção, sem entendimento, incapaz de fazer um julgamento livre que veja o texto pelo mérito que tem e não por fatores externos. A propaganda tenta colar valores em produtos que não estão lá, aquela água preta com essência e açúcar é apenas isso, mas veja quanto “valor” que não existe, a propaganda cola nela, o público em geral aceita esses valores falsos sem pensar; mas o mesmo não pode acontecer com o leitor consciente ao ler de forma técnica um texto, e a única maneira é ater-se à palavra escrita.

O maior erro do leitor ruim é ler de forma diferente um autor famoso, dando-lhe predicados superlativos que não se ancoram no texto e falhar em ver o mérito de qualquer texto desconhecido. O pior é não conseguir ver a mecânica por trás do texto de cada autor, todo bom escritor ancora-se em truques simples para o efeito do seu texto e se você souber ler vai conseguir ver e entender o que realmente torna um estilo efetivo.

Se você souber fazer uma boa leitura analítica vai poder aprender muito sobre escrita ao ler o texto dos grandes autores, lembre de ater-se às palavras, elas estão lá por um motivo, deixe que o autor diga o que escreveu, evite projetar-se no texto; garanto que ler de forma consciente vai ser sua melhor arma na hora de escrever.

Alex

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2 respostas em “A Fronteira entre Autor e Leitor

  1. Olá, caro Alex.

    Entrei em contato porque fiquei muito interessado em sua visão e opiniões acerca do fazer literário (li sugestões suas de um conto da escritora Maurem Kayna).
    Seus apontamentos são bem ponderados, inclusive sobre o que jaz acima neste post. Fiquei, entretanto, intrigado pela total ausência de dados seus em seu blog…

    No mais, como alguém que também reflete e busca pessoas com quem possa conversa (acima do nível rasteiro que predomina em geral na blogosfera…), aparecerei periodicamente aqui…

    Saudações,
    Daniel.

    • Daniel,

      Este blog é justamente esta procura, interlocutores qualificados ou minimamente interessados por um assunto a ponto de aprofundar-se. Minhas questões sobre o fazer literário vieram do hiato que encontrei ao tentar equalizar os autores contemporâneos nos meus hábitos de leitura. Sou bastante socrático, assim acredito que as palavras e os argumentos vem antes das pessoas, por isso prefiro o texto a credenciais, o debate incorpóreo, onde o argumento é tudo que existe.

      Em minha vida tive a sorte e o prazer de aprender e conhecer pessoas magníficas, esta é minha tentativa na internet, parece-me incongruente que encontre menos gente aqui do que encontrei na vida real, afinal aqui, tenho contato com mais gente do que encontrei pessoalmente.

      Abraço,
      Alex

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