Dica de Escrita #6: Clichê Literário

Com a frase: “A marquesa saiu às cinco horas” Cortázar inicia seu livro “Os Prêmios”, a passagem ficou cunhada na história da literatura por um comentário de Valéry, que disse ser incapaz de escrever uma frase tão comum como esta. Dos começos vulgares de romance, o cunhado por Valéry virou paradigma, é o mais vulgar, mais estigmatizado e mal interpretado. Alguns acharam que o ineditismo é o valor máximo da criação literária, outros viram o absurdo da afirmação, se a marquesa sai às cinco horas, ela saiu às cinco horas, se José sai às sete horas para trabalhar, ele irá sair às sete horas toda semana de segunda a sábado, é a sua rotina, é parte da vida.

Esta obsessão com o novo foi marca dos críticos do romance, e de certa maneira acéfala passou incólume até a literatura pós-moderna; um preconceito, um chavão que é engolido e repetido sem pensamento, sem elaboração por parte do escritor. Os modernistas jogaram as últimas pás de terra no enterro da retórica, que hoje virou sinônimo de afetação vazia, uma vez que definia regras para afirmar o que era ou não um bom texto, as mesmas regras dos “manuais de redação e estilo”. Qualquer manual que defina um estilo, assim como qualquer escritor que copie o estilo de outro, é por definição falta de estilo. Muitas destas regras são seguidas, sem que o escritor entenda ou elabore o motivo de sua existência, desta maneira muitos autores não entendem o efeito da repetição de uma mesma palavra, pois a regra diz para evitar tais repetições; uma palavra dobrada, independente do contexto, enfatiza tal palavra, criando uma significação mais forte, mais enfática, quando acidental, acentua pontos indesejáveis como a repetição acima; mas ao outro lado a repetição é inestimável quando o autor quer enfatizar a palavra ou faze-la ecoar no texto incorporando os significados ou predicados a ela atribuídos. O uso da regra sem conhecer seus fundamentos deixa o escritor manco, privado de um recurso extremamente poderoso. Existem mais destas regras, que se não pensadas e entendidas, apenas seguidas, privam o escritor da elaboração intelectual necessária à formação de um estilo.

Em suas micro teses sobre o conto Piglia toma como base uma frase escrita por Chekov em um livro de apontamentos: “Um homem, em Montecarlo, vai ao Cassino, ganha um milhão, volta para casa e se suicida”, postula que a forma clássica do conto encontra-se nesta chamada, pois encerra duas estórias: ir ao cassino e ganhar (a estória evidente) e o suicídio (a estória secreta). Se Chekov tivesse escrito: “Uma homem, em Montecarlo, vai ao cassino, ganha um milhão, volta para casa e comemora”, aqui não teríamos matéria de conto, pois o corte, a tensão inesperada do final não existiria. Pode até ser interessante, mas esta necessidade do tal corte, acaba sendo um clichê literário: para ser considerado literário um texto deve ter estas incongruências, a ponto desta incoerência tornar-se central no texto, deixando de lado toda outra elaboração intelectual por parte do autor.

A incoerência é um recurso simples para um autor passar-se por literato, o chavão é execrado em toda literatura pelos eruditos, falham em perceber que a aberração dos textos é chavão mais comum do que a escrita estereotipada dos escritos paternalistas de auto-ajuda; inferior até à literatura de puro entretenimento, que teve o trabalho de elaborar uma coerência narrativa, por mais pobre que seja o linguajar do escritor.

Há uma confusão entre arte e literatura, impingindo à segunda estereótipos da primeira. Arte é uma palavrinha difícil, cheia de misticismos inúteis, e este pensamento supersticioso acaba impregnando a literatura. Até hoje a melhor definição que encontrei para arte é: significar alta habilidade artesã, ou um ideal estético elevado, também alcançado na artesania, e esta é a palavra que melhor define a escrita, manufaturada, mas nem tudo que é artesanal é bem feito, é preciso habilidade; e mais do que isto, é necessário pensar o uso das ferramentas para montar a sua própria “máquina narrativa”, será a invenção do autor, vai representar seu ego, não voltado a si, mas à sua devoção pelo trabalho.

Arte como artesanato na busca de um ideal estético elevado, pode ser entendida na habilidade do autor de pensar seu ofício, juntar palavras de forma consciente. Dentro de sua máquina narrativa existem diversas peças, se algumas funcionam bem para o efeito final, não é necessário trocar, assim, há algo de ordinário, mas pensado. O texto incoerente como “mais artístico” é apenas um clichê menos artístico, uma opção não pensada para aparentar arte, sem a complicada elaboração necessária ao pensamento profundo, ou a busca estética elevada.

Cada época tem uma moda, a escrita banal condenada por Valéry nas novelas, é hoje a narrativa incoerente, aberta, sem sentido ou aleatória, a marquesa agora sai e suicida-se.

O autor assim como artista é caprichoso, usa a linguagem de forma única e particular e para isto deve provar o trabalho dos vários escritores. Só se aprende literatura lendo, apreciando os diversos recursos criados pelos múltiplos autores, a sua escrita é a elaboração particular de tudo que leu, seja a imitar ou contestar, mas conhecer os predecessores é fundamental, experimentar a escrita como se experimenta uma iguaria culinária, é um contato pessoal que não pode ser substituído, só lendo as obras é que se tem este contato. Não adianta ouvir falar de um livro ou um autor, deve-se experimentar com os próprios sentidos, e avaliar com a própria consciência, é este contato íntimo que expande a cultura literária, necessária ao autor na hora de colocar “mãos à obra” e artesanalmente elaborar os próprios textos.

O clichê vem de uma cópia sem elaboração de qualquer elemento textual, tenta parecer o que não foi incubado na escrita. Um bom jeito de evitar clichês é aprender a identificá-los nos livros que lê. Escrever é unir forma e função, os mestres conseguiram reunir estes elementos para formar um todo coeso, sempre que ver um elemento que não se encaixa, aparece forçado no meio de um texto, e principalmente: está na moda, soe o alarme, estará diante de um clichê.

Alex

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