Ficção, Idéia e Enredo

Ficção, estórias, realidade e fantasia são matérias primas básicas do escritor, mas o resultado final materializa-se no papel na forma de palavras organizadas, como o escultor que cinzela sua visão na rocha ou o pintor que deposita tintas na tela. Imaginação pura não é suficiente, é preciso afiar as ferramentas e ter controle do resultado, isto significa dominar a linguagem.

A palavra escrita é uma brincadeira de códigos, existem muitos diferentes espalhados pelo mundo com suas particularidades, diferentes ferramentas que vão influenciar no resultado final do autor. Sem querer entrar em complicações semiológicas, é preciso perceber que há a idéia, sua materialização escrita (ou intermediário), e o receptor, que é o leitor, quem recebe a mensagem. Para escrever é preciso conhecer o código, ler significa decodificar a mensagem, em algum nível a apropriação da linguagem é particular de cada pessoa, mas como há comunicação, existe algo necessariamente em comum entre emissor e receptor, e este algo em comum é a associação do código, a linguagem, com o mundo real, é esta associação que permite a decodificação universal da linguagem. A lógica do mundo real é que sustenta a semântica do código, sem esta associação não há possibilidade de compreensão comum de qualquer código.

Visto que o escritor não pode ter controle sobre a apropriação particular de cada um sobre a linguagem, ele só pode dispor de sua relação com o mundo real, e em sua afinidade particular com o código, aproxima-lo com a realidade para que se assemelhe a uma compreensão universal. Um bom escritor irá tentar através da escrita materializar sua ficção em uma realidade grafada, mas aí há um problema, ele estará limitado ao universo em que vive o leitor. A grosso modo, não posso comunicar-me em português com quem só domina o chinês, e em casos mais simples, não posso entrar no universo da física quântica com quem não domina o assunto ou sua “realidade” básica. Tome como exemplo este texto, ele não é simples, e a maioria das pessoas não vai entender, pois não é de um universo comum, apenas do universo de quem preocupa-se com escrita e linguagem.

Aqui entramos em um dilema comum a quem começa a apropriar-se da linguagem, se o escritor limitar-se à apropriação mediana da linguagem na população, seu repertório estará limitado a um coletivo comum e mediocrizante. Ao explorar a linguagem o autor caminha por terrenos onde a média não freqüenta, distanciando-o do grande público. Quando lemos um autor de ponta, somos obrigados a nos educar na sua maneira de escrever, seja Dickens, Poe, Fitzgerald, Sterne ou Machado, cada um obriga o leitor a ampliar seu universo lingüístico.

Se o bom escritor quiser fugir da média não escapa da sina de educar o leitor, há leitores abertos a tal jogo e outros não. Nos livros de auto-ajuda a linguagem é sempre paternalista, nunca há desafio, e se o autor usar de frases feitas, melhor, pois o leitor nem tem o trabalho de ler, pois já viu a frase milhares de vezes, é uma literatura de carícia ao ego, não pode desafiar o leitor, colocar obstáculos a serem vencidos para que cresça, assim, com esta bajulação cifras apreciáveis de venda são conseguidas. Há um tipo de leitor mais raro que deseja ser desafiado e crescer, mas mesmo este não está livre das armadilhas, ao desafiar um bom livro, há sempre o risco de ganhar ou perder, compreender ou não entender, ou ainda ter uma compreensão errada disfarçada de entendimento. Vou explicar: assim como o domínio completo da língua por parte do autor é impossível, pois significaria a compreensão completa do leitor, o mesmo é válido ao leitor, há sempre um nível de incompreensão que o leitor pode preencher com sua imaginação, esta imprecisão esta limitada pela habilidade do autor de materializar no texto sua intenção mesmo que de forma velada. No que o texto falha a imaginação do leitor impera e em seu extremo poderíamos ler páginas em branco, atividade do escritor. Um leitor muito crédulo encontrará significados onde não há, e um autor vigarista pode usar desta particularidade, escrevendo coisas sem sentido e deixando a interpretação por conta do leitor, uma espécie de teste de Rorschach onde o subconsciente projeta suas imagens. Tal armadilha é tentadora, pois materializa projeções do próprio leitor, inexistentes na intenção do autor, um tipo de texto que ajusta-se ao que o leitor quiser, abdicando da necessidade de compreensão textual e da relação autor leitor.

Se o autor escreve “carro” o leitor pode imaginar qualquer tipo de carro, mas se o autor diz: “um fusca verde, com a porta amassada, sem farol, com pneus carecas e vidro escurecido”, temos uma imagem muito mais precisa do tal carro. A cena na mente do autor é sempre mais detalhada do que é condensado no papel, cabe ao escritor escolher os elementos corretos para descrever e montar uma estória, cada palavra vai trazer uma imagem que será somada ao todo e funcionará em conjunto com todo texto. Muito particular de cada língua é o som de uma frase, o ritmo de um parágrafo, os sons também imprimem um efeito, na poesia é guia, na prosa escravo da compreensão do texto.

Há gente que advoga que há na escrita duas partes distintas, uma evidente e outra “secreta”, a “profundidade” do texto viria desta parte cifrada e isto seria obra dos bons autores, mas vamos pensar no contrário, seria fácil fazer um texto com um único e preciso significado? Certamente não, uma vez que o domínio absoluto da linguagem é impossível, pois significaria dominar a compreensão da linguagem do leitor.  Uma vez que o texto é apenas uma representação gráfica, é óbvio que seu significado só tem dimensão na mente de quem lê, assim o autor vai imprimindo no leitor com o uso das palavras idéias, de maneira mais ou menos precisa, mas nunca absoluta. Da matéria prima que existe na cabeça do escritor, a parte escrita é apenas uma pequena parte, mas a única visível pelo leitor, assim há uma grande parte da imaginação que não vai para a página, mas forma um todo do qual foi retirado partes.

Uma vez que não existe controle absoluto da linguagem, e a parte escrita é apenas pedaço de um universo imaginativo, sempre haverá uma segunda dimensão em um texto escrito. Aqui entramos em uma outra consideração, o enredo, que é a parte que liga a parte visível e subliminar do texto para coagular uma estória. Podemos ver como Chekhov é o mestre no seu enredo, interligando todas as partes de suas estórias em um todo.

Enredo não é a estória linear, é um todo que permeia a obra e só pode ser visto ao atingir o ponto final, pois ele compreende a integridade do texto. É engraçado como o enredo é a parte mais difícil para escritores e leitores, trabalhar o enredo por parte do autor e compreende-lo da parte do leitor. É um todo composto de todas as palavras, frases e parágrafos da obra, é a cola que junta tudo.

É engraçado como a falta de um enredo estraga completamente o que poderia ser uma boa estória, pois evidencia a falta de intenção ou planejamento do escritor. Com exemplos televisivos podemos mostrar isto bem, X Files e Lost, ambas séries com final estúpido que estraga todos os episódios anteriores, um blefe. Como já disse antes, é fácil capturar o leitor com o mistério, jogando elementos aleatórios e deixando que o leitor faça suas conexões, mas no momento das peças juntarem, não encaixam, aí fica evidente que não houve enredo, a farsa é desmascarada. Uma forma de não ser desmascarado é deixar o enredo em aberto, muito comum em escritores pós-modernos. É preciso cuidado para que um enredo aberto não seja apenas uma falta de enredo e nisto podemos voltar a nos referirmos a Checkov, mestre do enredo.

Uma bom enredo é um aspecto esquecido e desprezado nas estórias modernas, ao meu ver, fundamental para uma boa estória, é o ingrediente mais raro a encontrar de boa qualidade, mesmo em produções milionárias, a maioria dos enredos é paupérrima. O que o faz tão difícil e desafiador?

Alex

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