Literatura em Teoria e Prática

Li, sempre li, e nunca me preocupei com o que lia, seu pedigree ou sua importância no panorama literário, nem ao menos importava-me com quem veio antes ou depois, eram apenas livros, bons ou ruins, bem escritos ou mal escritos, foram compostos para serem lidos, puro desfrute, sem nenhuma outra intenção. Tirando algumas desventuras em créditos eletivos, nunca adentrei o mundo das teorias literárias, eis que depois de um tempo dei-me conta que havia um buraco na minha literatura, lia coisas velhas e muito velhas e dos poucos mais novos, nenhum brasileiro. Tal percepção aguçou-me a curiosidade e fui procurar na crítica de jornal o que seria digno do investimento, meia dúzia de livros depois senti-me enganado, ludibriado, não consegui gostar de nada além de achar a maioria dos livros muito mal escritos, comecei a questionar a validade da crítica que incensava tais obras e uma nova pergunta surgiu-me: o que é escrever bem contemporâneo? Parecia uma pergunta fácil, fui tirar a dúvida com alguns acadêmicos e não obtive uma resposta direta, muito menos a crítica podia ajudar-me.

Resolvi colocar mãos à obra e ver na prática o que os professores de escrita dizem: mais confusão, será que não consigo uma simples resposta para minha pergunta? Machado de Assis escreve bem, o mesmo posso dizer de Lima Barreto, mas o seu jeito ficou atrás no tempo e alguém que hoje os imitasse não seria considerado um bom escritor e ainda correria o sério risco de um pastiche caricato.

Apesar de parecer que toda a teoria literária vem de épocas imemoriais, ela é relativamente recente e em sua maioria segue linha historiográfica, agrupando autores segundo suas épocas e modismos. Ainda mais recente é a semiologia, mas acaba sendo auto-referente, preocupando-se em classificar um livro dentro dos próprios padrões artificiais que criaram, sem responder nenhuma questão fora de seu universo.

A linha historiográfica é simples e lógica, cria uma seqüência bastante inteligível do que seria a história da literatura e tenta por este prisma qualificar e classificar as obras, inserindo-as em sua linha temporal. Vista de longe é perfeita, explica tudo, mas quando você lê toma contato íntimo com as obras e passa enxergar o que os especialistas chamam “fraturas”, aquele todo coeso da teoria começa a rachar, evidenciando nas obras diferenças irreconciliáveis que as impede de serem agrupadas da maneira historicista sem que a classificação pareça forçada e sem sentido.

É óbvio que as pessoas de um mesmo tempo tem traços em comum, posso afirmar com toda certeza que Dickens nem nenhum de seus contemporâneos viajou em um avião a jato, não esquentaram comida no micro-ondas, nem navegaram na internet; são pontos em comum, mas nada explicam a obra do autor, absolutamente única. Dickens é fruto de seu tempo assim como todos os outros nascidos em datas semelhantes, e portanto carregam afinidades que vão aparecer em suas obras, mas se algo faz de “ A Tale of Two Cities” uma obra especial, não é o que tem de comum com o seu tempo, mas o que tem de diferente, de mágico, de sublime na habilidade e imaginação do escritor.

Talvez a historiografia explique todos os autores medíocres, pois seu método medianiza os escritores, mas perde o essencial ao tentar classificar os notáveis. Ao ler uma obra percebemos tudo que a classificação historiográfica deixou de entender, podemos mergulhar nas minúcias detalhadas e únicas criadas pelos grandes escritores.

Desta maneira, não importa o quão versado você seja em teoria literária, literatura em seu cerne é coisa prática e só podemos entender tomando contato direto com a obra de um autor. Acontece que como tudo na vida, de todos os livros que lemos, esquecemos muitos, assim como esquecemos passagens de nosso cotidiano, mas de alguma maneira uma experiência mais profunda fica da vivência de uma obra. Ao ler o livro o autor cria em ti uma impressão e esta é indelével, lembro que quando assisti ao filme do “Senhor dos Anéis”, mais de uma dezena de anos após ler a obra, à parte o que foi mudado, muitas cenas nem lembrava, e foi um dos livros que mais gostei de ler. Raramente releio um livro, prefiro novas aventuras aos trilhos já caminhados, atualmente com a facilidade do e-reader reli algumas obras no original; não passaria na minha cabeça ter duas versões do mesmo livro que já li em português, mas o e-reader tornou o processo sem custo nas obras de domínio público, e mais barata em alguns não tão velhos. Dickens é um que no original é muitíssimo melhor que a tradução, até parece outro livro, é outro contato com a obra, sem intermediários, mais puro e exponencialmente mais intenso; em inglês é um grande escritor a olhos vistos, traduzido é muito menor.

Nestas andanças minha visão começou a clarear e obtive respostas às minhas perguntas, respostas que a mim parecem práticas. Por que não leio antigos e contemporâneos na mesma proporção? Aqui a resposta é muito simples, o que existe na literatura em quinhentos anos é muito mais do que esta janela de cinqüenta anos, e muito mais se compararmos o mundo com o que é produzido apenas no Brasil, assim, ler escritores brasileiros em demasia seria de uma miopia policarpista extrema. Não há de se ter preconceitos em literatura, além disto, pensem em uma data, quantos livros memoráveis associados a ela? Não muitos? Ou nenhum? Desta maneira, mesmo livros laureados com prêmios anuais, são mera titica, perto do conjunto da literatura mundial em todos os tempos. Por que devo dar-me ao trabalho de ler porcaria quando tenho uma grande quantidade de tesouros ainda a ler?

A segunda pergunta do que é escrever bem contemporâneo, é um pouco mais complicada, pois não existe um escrever contemporâneo; escrever bem é escrever bem em qualquer época, tem a ver com a habilidade do autor de usar a linguagem para causar um efeito no leitor, cada grande autor usou sua língua de maneira diferente, assim escrever bem é ser efetivo com a linguagem no que se pretende dizer. Copiar grandes escritores não é escrever bem, deve-se criar seu jeito, um que expresse da melhor maneira o que pretende dizer.

Não importa quão bem escrito seja um livro, se ele não tratar de assuntos de seu interesse, não irá gostar, só os interessados em literatura pura gostam de bons autores que nada tem a dizer. Literatura, na simplicidade da relação autor e leitor é apenas desfrute, e precisa ser experimentada “in natura”, não há teoria que substitua a prática; às vezes a teoria pode suscitar discussões interessantes, mas sem o contato direto e íntimo com as obras, é material inútil. O fundamental a saber de literatura é: Leia! Apenas leia, não se deixe intimidar por textos difíceis, enfrente-os, e não se deixe cair nas armadilhas dos vigaristas, tenha um contado direto com o livro, não se deixe enganar, é a sua experiência que conta.

Alex

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s