Palavras: O Quanto Baste

Conto, novela e romance são considerados artigos distintos, mas a única e verdadeira diferença está na extensão do texto, difícil passar por qualquer classificação que não cruze com esta verdade óbvia, e ainda assim, a fronteira entre os universos não é uma linha bem definida. Qual o limite de tamanho de um conto para chamar-se romance? Impossível dizer.

Muito da existência do conto deve-se ao espaço a ele destinado nos periódicos, que não se prestavam à publicação de livros de grandes dimensões, mas podem, sem problema, apresentar grandes romances ao público de forma serializada, o que não é o caso do conto, onde início e fim da estória estão encerrados nos restritos limites a ele permitidos.

Pela disponibilidade do espaço, os escritores começaram a experimentar a forma, dentre os grandes contistas modernos estão Dickens e Poe, o primeiro abusou também da forma serial, instrumentalizando os textos para deixar no leitor a ânsia para ler o próximo, este “gancho” foi uma de suas grandes obras. Poe já foi mais prolixo na forma curta e única, escreveu até um pequenino ensaio onde descreve a mecânica da composição de seu poema “The Raven”, mestral. Apesar do “The Philosophy of Composition” falar de um poema, é fácil ver o raciocínio de Poe na elaboração de seus contos, ele procura um efeito, e este irá culminar no desfecho da estória. Como este ensaio é um dos poucos a tratar do assunto, marcou o estudo da forma e de certa maneira definiu para os estudiosos o que seria o conto “clássico”. Para Poe o formato curto é bom, pois é impossível manter o leitor em estado excitado por mais de duas horas, assim o texto deve neste espaço criar o maior efeito possível, ele advoga um tipo de conto “One Shot”, onde todos os elementos da estória contribuem para o desfecho final.

Poe é considerado principalmente em sua terra natal como um dos melhores maus escritores, o que não posso corroborar, pois se analisada sua habilidade com a escrita, não é obra de escritor menor, pode haver uma irregularidade na qualidade de seus textos, mas qual grande autor não tem altos e baixos? Parece que o grande problema é ter-se dedicado a um tema menos “literário” que seria o horror, o mistério, considerados gêneros menores, puro preconceito estúpido. Não é preciso lembrar que “The Murders in The Rue Morgue” iniciou todo o gênero policial investigativo. Além de seus contos de terror, que como prega em seu ensaio, criam um efeito forte. Não se deixe enganar, Poe foi grande.

Logo a seguir da morte de Poe, nasce a criança que será o maior contista de todos os tempos: estou falando de Anton Checkov. Se o conto de Poe era “One Shot”, as estórias de Checkov mostram uma sofisticação de personagens e uma trama de enredo que é tudo, menos linear, pelo menos à primeira vista. Enquanto Poe procura um efeito forte e evidente, com todos elementos contribuindo para o desfecho, o “efeito” nos contos de Checkov não é menor, mas vem de um caminho labiríntico enredado na estória. Advindo de uma tradição de escrita iniciada com Pushkin e Gogol, seus temas são menos fantásticos, refletindo a vida de pessoas normais, assim como Dickens que retratava os pobres em sua obra, antes personagens ignorados, Checkov mostra pobreza não como chaga, mas apenas como uma face “normal” da vida da pessoa comum.

Ricardo Piglia, um estudioso argentino tem uma teoria pelo qual nos contos existem duas estórias, uma evidente e outra escondida, a primeira está ali literal no texto do autor, a segunda é fragmentária e, nos contos clássicos, vai encontrar a parte literal no final para culminar no tal efeito dito por Poe. Já em Checkov, considerado um contista “moderno”, as duas estórias tem andamento independente e não necessariamente encontram-se no final, ambas estórias são contadas ao mesmo tempo. Hemingway compara uma estória com um iceberg, onde a parte que se vê é menor que a submersa. Em certa parte a definição do Forster de personagem arredondado e plano, traz a mesma consideração, pois o personagem arredondado é um conjunto complexo e turbulento onde não é possível prever com precisão as ações, assim surpreende o leitor de uma forma convincente; tem um lado não visível (secreto), que floresce em uma surpresa para o leitor.

Tendo a considerar a classificação “taxonômica” de Piglia como uma artificialidade acadêmica, mera classificação intelectual inútil ao escritor, e ainda tenho dificuldades em imaginar qualquer escritor fazendo crochê com duas estórias. Um texto é um elemento figurativo, e em sua essência nada representa que não sejam borrões de tinta em papel, é óbvio que há uma tentativa linear de contar uma estória, mas mesmo no contexto literal, o texto apresenta uma bidimensionalidade que não pode ser representante da vida real, tridimensional. Assim, como bem explica Hemingway, a parte visível da estória: o texto, é ínfimo perto do universo imaginativo que condensou tais palavras no papel. Desta maneira, não existem duas estórias, mas apenas uma, com sua parte literal e subliminar imbricadas, representando o mesmo universo, a imaginação do autor.

Em outras alusões feitas não por estudiosos mas por autores, o conto é considerado uma forma difícil por seu tamanho limitado, esta é uma consideração prática muito interessante, que foi expressa por Faulkner, Capote, Updike e Steinbeck dos que me lembro. Um conto tem menos palavras, consequentemente menos frases, desta maneira uma frase ruim sobressai; em textos mais longos a frase ruim pode ficar escondida, é uma fração menor do todo. Assim, quanto mais curto o texto, maior é a exigência com a linguagem. Cada frase em um texto de meia página é muito mais valiosa que no meio de cinqüenta páginas, onde uma escolha ruim passa despercebida.

Mas aí vem a questão que importa ao escritor: qual o tamanho do texto? Acredito que um texto deva ter as palavras que bastem para seu efeito, seja em quinhentas páginas ou meia, faz parte da arte do autor escolher as palavras, organiza-las em frases para contar uma estória, e não nos cabe aqui colocar qualquer tipo de cabresto, mas notar que as escolhas devem ser mais cuidadosas na medida que o texto é menor, mas ao mesmo tempo um texto longo, escrito com a mesma intensidade de um Checkov ou uma Alice Munro, pode tornar-se demasiado intenso, perdendo sua efetividade. Muitas vezes penso no texto como uma linha de jazz, onde momentos de tensão e relaxamento devem ser intercalados para conseguir um resultado final, que necessariamente não está no final do texto, pois às vezes uma parte mais fraca depois da forte pode tornar a música mais efetiva, em vez de deixar o forte cair no vazio do silêncio.

Alex

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