O E-book é uma Festa

Anos vinte, Paris, artistas e escritores convergem para a capital cultural do mundo, alguns para passar uns meses, outros já planejam anos, muitos a vida. As ruas sempre vivas da cidade fervilham de gente, de todos os níveis, de todo mundo; artistas maduros, aprendizes, jornalistas, escritores, curiosos, deslumbrados, moradores e turistas encontram-se nos cafés, restaurantes, praças e museus da cidade. Almas libertas fugindo da incompreensão de suas províncias natais, jovens em busca de sonhos, dirigem-se para aquele local específico, em busca de inspiração, interlocução. Dizem que se você viveu naquele meio, ele nunca mais te larga, viaja contigo, é uma festa móvel, acompanhando-te para onde for, plantando sementes em seu caminho que espalharão o espírito da cidade mais cosmopolita de seu tempo.

Construtores, pintores, atores, autores, poetas, jornalistas, golpistas, bêbados, encontram-se nos cafés, conversam, trocam idéias, conhecem grandes artistas, grandes pessoas, e os que conseguem ao mesmo tempo serem artistas e pessoas; o mestre encontra o aprendiz e logo estão trocando impressões do mundo, usando dos recursos da cidade para criar: os momentos de solidão necessários ao trabalho, os passeios pelas belas paisagens da cidade e o encontro com pessoas diversas vindas dos mais distantes cantos do globo. Do mais humilde ao mais rico, do miserável de espírito ao pobre de dinheiro, todos tinham acesso à cultura, naquele meio ela entrava em ti junto com o ar que respirava, não importando se estivesse ou não interessado, estar em Paris era uma educação compulsória, poderia não saber ler, mas conhecia o nome dos poetas e talvez ouvisse seus versos, muitas vezes do lábio do portador da pena que os escreveu.

Foi uma época mais simples, tempos mais ingênuos, onde o homem ainda ousava sonhar, vivia-se com pouco dinheiro, o mínimo do conforto, mas banhado em arte, paixão, vida. Mais do que nunca as pessoas estavam vivas, apreciando todos os momentos, independente de suas posses, vivia-se ao máximo em Paris, um modesto e honesto vinho nos bancos do jardim de Luxemburgo era mais saboroso que os caríssimos em um grande restaurante, a cidade pulsava com os que a sabiam apreciar.

Livros eram lidos, devorados, aos montes; discutidos, apreciados, criticados, cultivados. Mas não se engane, os habitantes não tinham enormes bibliotecas pessoais, quem estava de passagem não podia comprometer-se com o peso de alguns livros, não eram carregados nas bagagens, mas sim na memória, eram emprestados em bibliotecas particulares, para serem devolvidos e novamente lidos por milhares, o mesmo exemplar passou pelas mãos de Hemingway, Joyce, Fitzgerald e muitos outros, conhecidos e desconhecidos. Livros estrangeiros chegavam à cidade trazidos por viajantes que os esqueciam em seus quartos de hotéis e eram vendidos pelos funcionários da limpeza, para ter alguns francos a mais.

Não era barato viajar a Paris, mas o que a cidade tinha a oferecer, valia mais do que o dinheiro gasto com as passagens, para aqueles que buscavam a vida da cultura. O e-reader ainda não é barato, mas para quem gosta de ler, seu preço vale mais que a passagem, ele lhe permite viver a literatura mais intensamente. Quem hoje tem no Brasil um e-reader, o tem pois quer mais da literatura, já leitor ávido não deixou-se engessar com o estúpido fetiche do papel, são as palavras do livro que importam, não sua materialidade, pois só se leva aquilo que deixou do livro entrar em ti. O aparelhinho encarna o espírito, sem o peso do papel, os livros ainda são os mesmos da velha Paris, ou os novos do mundo inteiro, ainda livros, ainda palavras.

Alex

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