Forma e Função

A grande diferença entre e-reader e tablet é sua tela, enquanto o primeiro utiliza e-ink onde a luz ambiente é refletida em uma imagem estática, o outro utiliza uma tela retro-iluminada com a imagem piscando em alta velocidade. Para o leitor assíduo de livros este pequeno detalhe traz aos aparelhos funcionalidades completamente distintas. Quem gosta de ler e já manuseou um e-reader, não viu diferença entre o aparelho e o livro, é tão díspar quanto uma edição em papel é de outra. Particularidade que passa despercebida a quem nunca usou o aparelho.

Departamentos de marketing ficam pensando em como colocar traquitanas nos dispositivos e esquecem do básico: sua funcionalidade. Tudo que um Steve Jobs fez foi priorizar este item, ficou famoso com o ipad e muito antes o visicalc do apple II. Todos estes aparelhos não existem per si, são apenas ferramentas para outras tarefas.

No mundo da leitura já existem livros, revistas e jornais. Livros são mais longevos, exigem maior intimidade do leitor, revistas e jornais são descartáveis, acabam indo embrulhar mamão na feira. Seria possível ler um livro impresso como um jornal? Possível sempre é, mas não é confortável, aí é que está o ponto: conforto. Não usamos o computador da mesma maneira que a TV, apesar de parecidos a atitude ao usar os equipamentos é diferente, assistimos televisão inclinados para trás, relaxados; no computador estamos inclinados para frente, atentos. Esta consideração não é minha, faz toda diferença no conteúdo que porta a tela de computador e o aparelho de televisão.

Computador e principalmente a internet nos trouxeram mais ferramentas que usos e a inovação muitas vezes esquece o conforto. O início da internet não foi para público “civil”, os primeiros usos abarcavam a comunidade científica, onde a livre discussão de idéias e os amplos debates poderiam impulsionar a atividade, era ferramenta de discussão, livre, sem fronteiras, imediata, um mail substituía uma carta ou um caríssimo telefonema, quando a internet popularizou-se pensaram até em criar uma rede separada para o uso científico exclusivo. O problema é que a ferramenta era muito melhor que a comunidade científica, acostumada a viver em feudos não se adaptou ao debate aberto e o mundo da internet. A ferramenta é poderosa, idealmente democrática, mas a comunidade científica é essencialmente medíocre, não tem o preparo para usar ferramentas tão poderosas como os fóruns de internet. Imagine o debate entre Einstein e Bohr aberto, diário, na internet! Infelizmente a mente da comunidade é menos iluminada que seu ideário.

Depois tivemos as homepages e mais recentemente seus irmãos blogs. Fazer uma página, normalmente implica em imiscuir-se, no mínimo, em códigos HTML e outros domínios de programadores e designers, se tem necessidade muito específica, não há outro caminho para um bom trabalho, mas o blog, que é uma página já pronta e com máscaras  que excluem o usuário leigo do mundo dos códigos faz uma página minimamente estética e funcional. Jornais e revistas tem esta diagramação padronizada de blogs e nem por isso são piores, lhes confere identidade visual limpa e identificável. Apesar de ler em tela de computador ser menos agradável, blogs comportam com facilidade o mesmo conteúdo de jornais e revistas onde os textos são cada vez mais curtos pela limitação do papel, foi-se o tempo em que ler jornal lhe dava maior base por artigos mais fundamentados; blogs podem portar mais texto sem o limite do papel, acho isto excelente, não me é desconfortável ler um texto mais longo em um blog, é engraçado notar que o formato periódico, com textos descartáveis virou estereótipo de blog, apesar de poderem abrigar textos perenes em seu formato.

Para blogs, revistas e jornais o tablet é excelente, não para o livro mais longo, é a desgraça da retro-iluminação. O conforto da leitura tem alguns fatores: a posição em que se lê, inclinado para frente, em textos menores ou técnicos, ou inclinado para trás, entretenimento ou literatura mais complexa. A coluna de texto também influencia, se muito fina ou larga interfere na leitura, páginas de livros são estáticas, o esquema de “scroll down” é irritante para leitura longa. Mesmo os “hiperlinks” são inoportunos em textos de literatura e devem ser evitados. Leitura consome tempo, baterias de curta duração atrapalham. São fatores de conforto que irão determinar o sucesso ou fracasso dos dispositivos, independentes de bobagens que departamentos de marketing inventam.

Para todos os séculos de literatura que me precederam acho o e-reader perfeito, ficam inventando traquitanas, livros interativos com filmes, música, jogos, comunidades, terceira dimensão. Encantem os tecno-maníacos, mas por favor, deixem nós leitores em paz com e-reader e e-ink.

Alex

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