A Droga da Literatura

O termo literatura de entretenimento é bem conhecido, normalmente carrega em si um preconceito em relação à outra literatura, uma que se diz mais culta, seria ela a alta literatura? Não! É título reservado para poucos e cobiçado por muitos, não é ela a outra. Afinal, quem figura do lado oposto do entretenimento? Posso entreter-me lendo Hemingway? Posso. Entreter-me com Victor Hugo, Dickens ou Fitzgerald? Claro.
Só posso imaginar que do outro lado está a literatura de aborrecimento. Não se dão ao trabalho de nos entreter e também não tem a mestria da pena necessária à alta literatura.

Infelizmente será necessário penetrar mais fundo nas vicissitudes da alma humana para entender a literatura de aborrecimento e toda legião que a cultua, idolatra, cheira e lambe.
Literatura alegre é alienada, talvez parente do entretenimento, assim a boa literatura de aborrecimento tem que ser infeliz, falar de morte, velhice, medo, dor, rejeição, frustração, e coroando com chave de ouro:“estranheza do existir” (adoro este termo). Se quiser posar de intelectual, quando lhe perguntarem de um livro, diga que este lhe despertou certa “estranheza”, não encontrará chavão melhor para impostar intelectualidade, se lhe perguntarem de outro livro, use um sinônimo que diga mais ou menos o mesmo, de preferência de maneira mais pomposa: “tal autor causou uma cizão, ruptura, fragmentação do meu “entender”. Garanto-lhe que estará mais que habilitado a freqüentar jantares inteligentes, mas cuidado, evite denunciar a burrice fedorenta, pois mesmo tendo razão, vai comer os restos na sarjeta, imite a inteligência, não a mostre de fato, é pouco educado.

Seres humanos buscam a felicidade. Buscamos? Quem procura conscientemente a infelicidade? Os leitores de aborrecimento; as estórias tem que falar de todas versões escatológicas da miséria, física, moral e intelectual. O ser humano nasceu para o sofrimento, alegres são alienados, infelizes são antenados, intelectuais, conscientes. Sempre achei antagônicas pessoas que nutrem, cultivam, alimentam o próprio sofrimento, uma vez que vivem reclamando mas não fazem nada para sair do confortável  ninho de dor. Se você é feliz é por sua causa, é sua culpa, a infelicidade é sempre responsabilidade de terceiros. Assim, imagino que para as pessoas que vivem nestas comunidades de autocomiseração, a literatura real tem que ser restrita aos domínios do sofrimento e da dor, a única realidade que conhecem; felicidade não faz parte do mundo real, é apenas fantasia.

Alguns membros do clube da alta literatura também nos vendem de maneira sofisticada e ardilosa este sofrimento virulento, a pena empunhada por Nietzsche e Freud é arma portada contra felicidade, o mundo é mau, somos maus em nossa mais íntima essência, merecemos, precisamos do sofrimento.

Afinal de contas, o quê é felicidade? Quem sabe dizer-me? Tentam nos vender felicidade o tempo todo, você não compra um carro, compra felicidade; não bebe refrigerante, bebe felicidade; não usa papel higiênico, usa felicidade. Estamos cheios de felicidade, tudo que você comprar vem como brinde de um saquinho de felicidade; você fica com o brinde, mas o saquinho está sempre menos cheio de felicidade do que o anunciado, e na maioria das vezes é falsificada.

Aliás, o quê é felicidade? Como poucos parecem saber, a dor e a miséria soam mais reais. Será felicidade o êxtase químico criado por drogas? Acredito que não, mas muitos vão me contrariar e correr desesperadamente para mais desta felicidade portátil, ignorantes de que a verdadeira é ainda mais imaterial. O estereótipo de pessoas felizes é dançando como epiléticas e vocalizando gritinhos agudos, comportamento de gente feliz ou drogada?

Essas drogas químicas geram falsa felicidade, portanto felicidade não existe, assim literatura de realidade tem que ser só sofrimento, que grande clichê! Este sofrimento literário é tão fictício como as fadas de estórias de fantasia. Quando lê entretenimento fica sabendo de mundos fictícios cheios de maravilhas, quando lê esta realidade fictícia mais “culta” você tem amargura falsa em um mundo cheio de miséria espiritual estereotipada. Dizem que entretenimento é leitura vazia, com o quê você enche a alma lendo aborrecimento fictício?

Muito da literatura de entretenimento é estereotipada? É. Assumidamente estereotipada, diferente do aborrecimento que não se admite, mas é. Busca-se literatura de sofrimento como buscam drogas, mas não procuram o êxtase, apenas a familiaridade com o sofrimento de suas próprias vidas, afinal sofrer em grupo é melhor que sofrer sozinho. Mas aqui vai uma dica: compartilhar alegria é bem melhor.

Vamos deixar os estereótipos de lado e ver a literatura pelo que é, miséria e sofrimento não constrói literatura mais culta e acrescenta tanto quanto o entretenimento mais pueril.

Alex

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