Fantasticon 2011 e a Literatura de Entretenimento

Semana passada fui à Fantasticon (13-14/08), não estava na minha previsão, ao ler a folha de sábado que traz algumas páginas sobre literatura, normalmente insípidas e enfadonhas, não vi nada sobre o tal encontro de literatura fantástica, foi o gatilho, quem sabe lá há algo de bom, algo novo.

A organização do evento montou um panorama bem variado na composição das mesas, tinham editores, acadêmicos, escritores e tecnólogos. O ebook foi astro na palestra do tecnólogo e lembrança incômoda na mesa de editores e escritores. Há no mercado que publica em papel brasileiro uma negação em relação ao meio eletrônico, é um espanto, visto que as casas editoriais tradicionais dos EUA também foram pegas de calças curtas quando empresas de tecnologia tomaram de assalto o mercado editorial, já abocanhando fatias significativas do mercado em velocidade mais rápida do que a prevista.

Uma coisa muito interessante de notar é que entre as diversas mesas falava-se língua diversa, comunicação tribal do meio em que transita cada convidado. Na mesa dos editores o jargão era do marketing, aprendi uma palavra nova, o mercado “youngadult” ou o jovem adulto, um ser entre dezesseis e trinta anos e que pelo paternalismo nos textos a ele dedicados, ainda não saiu da adolescência e nem aprendeu a ler. Sempre acreditei que literatura infantil, a partir de sete anos pode ser Monteiro Lobato, Jules Verne, Robert Louis Stevenson com “A Ilha do Tesouro”, Rudyard Kipling ou coisas do gênero, assim não vejo motivo de usar escrita mais pobre e condescendente para público de dezesseis a trinta anos.

É incrível notar que editoras começaram a perceber que existe mercado para fantasia no Brasil, coisa que já era realidade há vinte anos, naquele tempo editoras ficavam perplexas quando este gênero dava certo, e ainda ficam. A realidade é que o mercado de livros brasileiro é tão ínfimo e com números tão ridículos que é muito fácil ultrapassar a venda de autores conhecidos.

Nas mesas mais acadêmicas era fácil de notar uma abordagem quase alienígena com a literatura fantástica, por parte dos participantes era óbvio a total falta de conhecimento do gênero, é como se Dostoievski e Tolkien não pudessem compartilhar estantes, o que diria JK Rowling, tocada apenas com pinças ou lida escondido no banheiro. Não acredito nesta exclusão, há de se ler entretenimento sem pretensão de grande escrita, é mais divertido que a telenovela que um participante pseudo-acadêmico confessou assistir.

A mesa dos escritores foi voltada para literatura de entretenimento, foi uma boa escolha, é um tipo de literatura desprezada no Brasil, a fantasia é apenas mais um gênero. Não se espera do escritor de entretenimento grandes revoluções na escrita, mas acredito que um certo cuidado vem a bem do leitor. O estilo romanesco tão desprezado pela academia é perfeito à literatura de entretenimento, uma escrita mais pobre torna o livro menos divertido, é depreciativa na imagem que criamos ao ler a história, ainda mais no gênero fantástico, onde boas descrições podem ser extremamente saborosas.

Já sou leitor de fantástico de longa data e o que mais desgosto são clichês baratos e batidos, as aventuras “out of gods” são as piores, a literatura fantástica internacional não é paternalista veja o Ray Bradbury, apesar de na última década o gênero misturar-se com literatura infantil, o que acredito não deveria lhe tirar o mínimo cuidado no texto. Não é pecado notar que a JK Rowling é boa contadora de estórias, mas má escritora, Rick Riordam é sem dúvida um péssimo escritor e também tem seu público, suas estórias beneficiar-se-iam de uma escrita mais cuidadosa e os leitores só teriam a agradecer.

Literatura de entretenimento mesmo mal escrita vende, ótimo, não tem obrigação de querer impostar alta literatura, pode ficar no romanesco execrado pela academia e fugir dos “fluxos de consciência” e diálogos internos tão clichês como os românticos, mas apreciados pela academia, mesmo quando pobres e caricatos.

O evento mostrou um começo de efervescência que promete chacoalhar a literatura brasileira, aliado ao ebook quando os e-readers tornarem-se populares, podemos ter um futuro alvissareiro, quem sabe com muita coisa saborosa de qualidade para ler.

Alex

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2 respostas em “Fantasticon 2011 e a Literatura de Entretenimento

  1. Alex, bom dia. Ajude-me.

    Estou escrevendo um livro no gênero fantasia, mas não sei o que vem a ser essas ‘aventuras “out of gods”’ citadas em seu texto. Também não encontrei referência sobre o assunto no google.

    • São aventuras exageradas onde os personagens estão sempre de posse de ítens poderosíssimos ou são filhos de deuses ou coisas parecidas, acabam sempre ficando ridículas, pois o enredo nunca se sustenta. Há mais na aventura que batalhas de poder, este tipo de temática acaba criando estórias paupérrimas.
      Alex

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