Onde e Como da Alta Literatura

Está aqui um dilema do leitor, livros pouco lidos e muito citados, travestidos de muitas formas: leitura obrigatória, leitura chata, a única coisa que se deve ler, livros superiores e cheios de erudição, indispensáveis aos que pretendem qualquer forma de intelectualidade; prefiro: a literatura mais incompreendida.

Nesta categoria de alta literatura estão leituras muito distintas, pouco tem em comum umas com as outras; não confunda clássicos com alta literatura, por muitos motivos um livro torna-se clássico, mas existe uma única característica na alta literatura: a mestria do autor com seu meio, a palavra escrita. Escritores que ousaram dominar seu ofício e inovar na maneira de escrever o que quer que tenham para dizer.

Para muitos que lhe recomendam alta literatura, a mesma traz em seu seio questões humanas, abre-lhe a mente, ao contrário da alienação de um simples livro de aventura. Aos que pretendem se inteirar das grandes questões da humanidade, recomendo ler filosofia, pois neste assunto a alta literatura é caldo ralo em comparação com livros às vezes escritos de forma canhestra, mas de significação mais profunda. Bem ou mal escritos, de forma clara ou obscura é nas obras de filosofia que encontrará a história do pensamento e as questões da humanidade, das quais a alta literatura é apenas impostora.

Haveria motivo para o leitor médio adentrar campo tão inóspito e indigesto? Folgo em afirmar que a viagem vale, mas é preciso saber como empreender tal tarefa sem que se perca o melhor de grandiosa refeição. Responda-me: vale gastar quinhentos reais para almoçar em um magnífico restaurante em cinco minutos? Imagino que não, e mesmo que o faça estará aproveitando pouco, não será saboreada nem digerida. Ler alta literatura não é como ler outros textos mais leves, exige tempo, uma mente descansada, o intuito de saborear as esquisitices colocadas em nosso prato. Toda alta literatura terá características únicas que o leitor tem que aprender a saborear e dizer se gosta ou não. Não se iluda isto não é idolatria, você tem o direito de gostar ou não de tudo que lê, é permitido não gostar de alta literatura e até questionar se assim um livro pode ser classificado, a verdadeira alta literatura não fugirá a estas perguntas e goste ou não enfrentará o leitor, independente de sua “gostabilidade”.

Acredito que em nosso dia não consigamos três horas das nossas faculdades mentais em seu máximo, e disto necessita a alta literatura, não dá para ler guerra e paz em uma única sentada, e nem se deve, é preciso saborear aos poucos e com os sentidos aguçados. Não adianta voltar do trabalho cansado e tentar ler Joyce, nem ler Faulkner nas sonolentas horas da noite, Cervantes não brilha quando nosso cérebro não está pronto. Alta literatura deve ser sorvida devagar e com atenção, para as horas do dia que a mente está cansada, leia algo mais leve, não se aventure em terras tão selvagens sem o equipamento necessário.

Infelizmente há algo mais a comentar e a muitos posso desagradar, só é possível ler alta literatura com todos seus sabores em sua língua nativa. É na tecitura do texto que se verá a mestria em ação, apesar da estória de Tolstoi ser magnífica, é apenas no russo que lhe poderemos saborear com plenitude. Hemingway é outro autor que se blinda ao leitor que não domina o Inglês, a força de seu texto está na armadura concisa das palavras, impossível de ser traduzida em nossa língua. Já li “O Velho e o Mar” a muito tempo em português, não me impressionou, com o ereader reli “The Old Man and the Sea”, nem parece a mesma obra, as descrições minuciosas da pesca são fortes e cativantes, em português enfadonhas.

Cada livro de alta literatura será um desafio diferente, são pouco condescendentes, não lhe vão facilitar a vida, não podes acreditar no julgamento dos outros, só se cresce ao experimentar por si mesmo, entendendo ou não o que está lendo, seja sincero, quais os motivos de não entender? Ou quais os motivos de não gostar? O grande livro precisa ser questionado, desafiado, não permite passividade. É esta batalha que o fará crescer como leitor.

Resumindo os conselhos práticos para ler alta literatura: leia devagar com a mente aguçada, saboreie a leitura, intercale outros livros mais leves nas horas em que a mente não está em seu melhor, questione o livro, sua maneira de escrever e suas idéias, não fique passivo. Enquanto lê um texto desafiador, provavelmente lerá dez outros de gêneros mais leves, intercale, não fique restrito em buscar o tempo perdido enquanto sua mente está cansada, pode ler Doyle, Ludlum, Tolkien ou Rowling junto, diversão garantida.

Um último aviso: cuidado com os impostores de alta literatura, são livros que se fazem passar por aquilo que não são, nada carregam de bom, é melhor ficar com um honesto simples e saboroso Harry Potter do que ler algumas armadilhas de pseudo-intelectuais que lêem sem questionar e não penetram além da superficialidade dos textos.

Alex

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