Livro, Censura e Mercado

Gutenberg inventou a imprensa, e depois viveram felizes para sempre, não, não é assim que diz a história, afinal os contos de fada ainda não tinham sido criados. Sabemos que o primeiro livro impresso foi a bíblia, a bíblia de Gutenberg, posse milionária de qualquer colecionador nos dias de hoje e nada acessível na época que foi impressa, com seu preço alguém poderia viver por três ou quatro anos, sua confecção foi tão elaborada que levou nosso herói inventor à falência, a tragédia grega já é antiga.

Imaginamos que a igreja ficou honrada em ter a bíblia distribuída entre seus fiéis, novamente estamos enganados, a palavra de deus pertencia ao clero como também sua interpretação, se a bíblia inacessível de Gutenberg não apresentava muito perigo, outras prensas resolveram distribuir cópias mais “populares”, assim preocupavam a igreja que poderia perder o monopólio da interpretação da palavra divina. A prensa passou a ser objeto de perseguição, além de quebrar o monopólio da palavra divina em favor de alguns poucos que sabiam ler, que outras idéias perigosas poderiam difundir-se no meio do povo?

Os livros levemente mais populares causaram a revolução que conhecemos na história, até começo do século XVIII livros entravam como posses no inventário dos falecidos, ainda não eram baratos ou populares. Enrique VIII vendo o perigo da prensa em difundir idéias contra a coroa ou a igreja, resolveu colocar em vigilância todas as prensas, aprovando ou desaprovando o que seria impresso. Surgiram prensas clandestinas, dispostas a distribuir conhecimento proibido, idéias proscritas.

O preço do livro também garantia sua baixa difusão, era inicialmente feito em pergaminho de pele de cabra, uma bíblia de Gutenberg usava cerca de cento e setenta cabras, foi o papel de origem chinesa que permitiu os livros baratearem, inicialmente era feito de restos de roupa usada de linho o que garantia a grande qualidade do papel. Com o aumento da popularidade do livro mais papel começou a ser produzido, o que diminuiu seu preço, até passou a ser feito de polpa de madeira; nesta saga, até nossa era, o livro já chegou a custar muito barato, portanto popular, não aqui.

Nesta história o Brasil é um caso a parte, só nos foi permitido ter imprensa em 1808 com a chegada da família real portuguesa, antes era terminantemente proibida a publicação de livros ou jornais. A educação no país já começou prejudicada pela falta proposital de livros, objetos perigosos, capazes de carregar idéias. Enquanto nossa colônia se manteve livre de educação e livros, nossos amigos do norte estavam aí adiantados quase trezentos anos, com livros sendo impressos e pessoas aprendendo a ler. Hoje os EUA se ressentem que 30% de sua população não seja leitora, aqui, quando muito 30% lêem, sem ressentimentos.

Machado de Assis, autodidata em seu tempo foi um escritor pouco lido, não existiam muitos leitores, livros, cultura e educação eram privilégios. Nosso país mudou, o mundo mudou, mas infelizmente o pensamento do tempo de Machado e o de hoje não é muito diferente. O livro ainda é muito caro. O primo rico do norte, que ganha mais, paga por sua literatura muito menos, e olha que já foi muito mais barato, lá como aqui houve uma concentração do mercado editorial, o que diminuiu títulos e aumentou preços, mas nossa situação é muito, muitíssimo pior.

Sempre fui leitor ávido, guardava o dinheiro do lanche da escola para gastar em livros, freqüentava as inúmeras livrarias do centro com sua imensidão de títulos, era amigo dos livreiros, que sabiam de meu gosto e sempre podiam indicar-me boa leitura. Foi na década de oitenta, uma lógica mercadológica terrível abateu-se sobre os livros, grandes cadeias de livrarias compravam mais, pagavam menos e vendiam mais barato, tinham menos títulos, só os mais vendidos e mesmo assim começaram a sufocar os antigos livreiros. O preço do livro subiu repentinamente, antes podia comprar um livro por semana, depois apenas dois ao mês. Logo após surgiu a auto-ajuda e a coisa toda degringolou, quase não se achava nada para ler que não fosse esta praga.

Se hoje não existisse o ebook e o ereader com e-ink acho que a perspectiva da leitura e da literatura poderia ser muito pior. Nosso mercado editorial impresso joga contra o leitor, imprimem produtos de papel não livros, seu recheio é mera função estética. Não estou agora reclamando da inexpressividade dos escritores contemporâneos brasileiros ou até mundiais, apesar de acreditar que parte deste marasmo literário seja culpa deste modelo editorial que vê livro como produto, nada mais, nada menos.

Livro, papel, até tinta é mercado mundial, nos países ditos desenvolvidos o mercado para livros é grande, aqui é pequeno, lá investem em educação aqui em alienação. O preço alto do livro o faz inacessível, propagando a ignorância, aqui mais caro que lá. O mercado editorial do papel não mais comporta a literatura, alta literatura nunca será popular, é preciso erudição que poucos tem para a entender, mesmo alta literatura já consagrada, fica automaticamente fora do mercado, vende mais por consagração do que por compreensão, consagração funciona apenas como propaganda, a maioria compra e nem lê, dura realidade.

Empresários são criaturas covardes, poucos levemente mais ousados destacam-se, e muitos mais se sobressaem por sorte em vez de competência. Não é possível esperar que sejam mecenas, não é de sua natureza, literatura não pode depender destas criaturas, o livro eletrônico com seu baixo custo de publicação é a única saída da literatura. Mesmo no próprio ramo de ganhar dinheiro empresários são tapados completos, JK Rowlling  foi rejeitada quatorze vezes, foi uma garotinha de oito anos que implorou a seu pai, dono de editora para publicar o livro, o resto já sabemos, incompetentes para fazer dinheiro incompetentes para promover literatura. Isto foi nos EUA, aqui no Brasil não temos quatorze editoras para rejeitar, aliás, literatura de gêneros no Brasil nem interessa os editores, fornecemos apenas um gênero: literatura brasileira, impostores de alta literatura ou com regionalismo estereotipado: seca, floresta amazônica e favelas, com bom tempero de pobreza de dinheiro e de espírito.

Nossas editoras preferem o certo, mesmo que incerto, são leitores impotentes, incapazes de diferenciar um bom de um mau texto, crescem os olhos para escritor que lá vendeu milhão, e não entendem que aqui estes números nunca existirão, pelo menos neste mesmo rumo. O escritor brasileiro no mercado nacional é comparado com o de mercados com números maiores, quem vence?

Como a prensa contra os monges copistas, hoje o ebook enfrenta o papel, livros de papel não vão morrer, mas é no eletrônico que estará a nata da literatura, a diversidade, a liberdade, novas idéias, um novo mundo. Nisto o Brasil começou com o pé esquerdo, aqui o preço de um leitor de livro eletrônico é quatro vezes mais caro que em países onde o salário base é quatro vezes maior. Isto tem que mudar para o bem do país, se somos inferiores é por sermos menos leitores, leitura é educação, única maneira de o brasileiro melhorar sua condição.

Alex

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