Prosa Poética

Alguns assuntos, mesmo não significando nada, carreiam grande legião, como rios a rolar seixos, arrastados pela corrente sem terem consciência ou decisão de trajeto ou paragem, assim é a tal prosa poética, tão em voga entre ditos escritores.

Quem já prestou vestibular sabe que lá não se aceita poesia, não por preconceito, mas por motivo da prova ter o intuito de observar no candidato a habilidade de conectar idéias e trabalhar um assunto; dissertação, é assim que a prova classificatória pode avaliar os candidatos. Em poesia os critérios objetivos não existem, nos toma algum tempo a constatar a ruindade de um poema, neste assunto, alguns se furtam ao julgamento para não ferir o autor, proclamam toda poesia boa, pervertendo a mais difícil e nobre das formas de expressão.

Sim, poesia é difícil, pelo menos aos que a tentam seriamente, compreendem que frases empilhadas, desconexas e aleatórias, mais que formar um poema, constroem um engodo. Poesia é muito difícil, também difícil de ler, assim falham em entender o incrível universo de complicações embutido em um simples verso de Pessoa ou nas fases tardias de João Cabral. Qual a diferença entre um poema que não entendo e um ruim? No ruim não há nada a entender. Assim, para quem não consegue entender a alta arte da poesia, não existe diferença entre o simplesmente ruim e o que não conseguiu compreender. Grandes trevas resultam deste paradigma paradoxal, fazer poesia é democrático, qualquer um pode escrever, mas a boa poesia não partilha dos ideais igualitários, é elitista, ingrata, exige dedicação e fundamentalmente, antes de tudo, exige que o aspirante a poeta saiba ler, compreender a grandeza de um poema, por seu mérito não pela sua assinatura.

Pode o cozinheiro sua arte perpetrar sem apurado paladar? Acredito que não, como assim não pode escrever boa poesia aquele que não consegue ler. Poesia exige domínio da língua, só posso entender a grandeza de um poema em sua língua nativa, traduzido, quase tudo se perde, este domínio não é trivial, ler mal uma língua significa ficar blindado de sua poesia.

A prosa é mais simples, não encerra em si características tão herméticas como a poesia, preza pela lógica das idéias, mesmo que complexas, por este motivo é a forma exigida nos testes classificatórios, uma dissertação em prosa, não em poesia. Podemos apreciar uma narrativa mesmo em tradução, pois as idéias são traduzíveis, os sons da língua não. A prosa perde na tradução muito menos que a poesia.

Eis que vivemos no mundo pós-modernista, uma época em que formas se dissolveram junto com critérios, tornando a piada dadaísta coisa séria. O que era prosa e o que era poesia funde-se, no que chamam modernamente prosa poética. A incompreensão entre a boa e a má poesia agora invade a prosa e os textos em prosa que não tem lógica ou mesmo sonoridade agora são chamados prosa poética, em vez de serem chamados apenas prosa ruim ou poesia muito ruim.

Os prosopoétas se dão linhagem nobre, clamam serem herdeiros de Guimarães, Joyce, Gertrude Stein, negan parentesco com Tristam Tzara, mas vistos de perto, sua mistura de formas nada mais é que um dadaísmo estilístico. Gertrude Stein era experimentalista, quando se experimenta pode-se achar um bom caminho ou chegar a resultados ruins, que de preferência não devem ser repetidos. Ser experimental não é ser bom, é apenas ser experimental, se repetir duas vezes o mesmo experimento não é mais experimental, é puramente ruim, mesmo que o experimentalismo tenha tido bom resultado. Fitzgerald escreve prosa de forma lírica, suas frases deslizam seus sons fluem, não é prosa poética.

Infelizmente o rótulo prosa poética é cobertor de escrita medíocre, esconde aqueles que não conseguem conectar sons ou idéias, gerando textos mal feitos e mal pensados, tentam esconder uma erudição que não possuem e assim logram enganar o leitor; pescam estilos de um saquinho como o poeta dadaísta pega palavras para formar um poema, esta piada já ficou velha. Se seixos que rolam não criam limo, também não sabem para onde vão, evite ir com a corrente, pense sua leitura, pense sua escrita, não confunda o mérito de um texto com sua assinatura, leia Joyce como qualquer outro vagabundo e deixe que o mérito do texto sobressaia, se não entender volte a ler, se não gostar, seja sincero, não existem unanimidades.

Alex

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